Jornal do Brasil

Quinta-feira, 18 de Janeiro de 2018 Fundado em 1891

Heloisa Tolipan

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Estudantes de moda de diversos estados apresentam criações no Senai Brasil Fashion

Estilistas famosos foram coaches e coordenaram projetos dos alunos

O amanhã já está no hoje e revela que a moda não estacionou.  No Museu do Amanhã, na nova Zona Portuária do Rio, ocorreu ontem à noite o desfile do SENAI Brasil Fashion. Por lá, 24 alunos de moda de dez estados brasileiros apresentaram três criações por duplas que foram coordenadas por grandes nomes do cenário fashion nacional. Pela quarta edição, Lino Villaventura, Lenny Niemeyer, Alexandre Herchcovitch Ronaldo Fraga assumiram a posição de coaches do projeto que tem como objetivo transformar alunos de moda em potentes profissionais do mercado, seja como estilista ou modelista. Para isso, o SENAI Brasil Fashion possui uma poderosa estrutura e time no comando para que, a noite que celebrou os três meses de trabalho, fosse certeira como ocorreu ontem.

Lino Villaventura, Lenny Niemeyer, Ronaldo Fraga e Alexandre Herchcovitch
Lino Villaventura, Lenny Niemeyer, Ronaldo Fraga e Alexandre Herchcovitch

Promovido pelo SENAI Cetiqt, o Brasil Fashion tem coordenação de Marcelo Ramos, responsável pelo ensino superior do sistema de educação profissional, e direção geral de Maurício Marques, da Samba MKT Ao Vivo, que também promoveu a noite passada. No Rio, rodeado por grandes nomes da moda e das artes brasileiras, os executivos reafirmaram a importância do projeto que há quatro anos é porta de entrada e referência para os novos talentos da moda nacional. “Esse projeto sintetiza a nossa ideia de educação profissional que é baseada no conceito de que se aprende fazendo. Para isso, os alunos possuem uma estrutura para pôr a teoria em prática e uma análise de competências para fazer com que eles saiam mais preparados para o mercado de trabalho”, destacou Marcelo Ramos que completou apontando que o SENAI Brasil Fashion ultrapassou o status de evento. “A cada ano nós estamos tentando aperfeiçoar com o que não deu certo na edição anterior e evoluir. Em 2017, por exemplo, além de um edital com as regras de seleção e participação dos alunos, nós trouxemos duplas – diferente dos anos anteriores que era só um aluno como estilista”, comentou.

Por falar nisto, esta foi uma mudança que colocou os alunos do SENAI Cetiqt ainda mais por dentro do que realmente ocorre no mercado da moda. Mais do que criar, o designer trabalha em parceria com diversas outras áreas para o sucesso de sua coleção. E, no SENAI Brasil Fashion, com a união de designer e modelista, os estudantes ainda descobriram e trabalharam em parceria em áreas como música, beleza, styling e comportamento na passarela. “O profissional do futuro vai um pouco além do conhecimento técnico. Ele vai precisar se dedicar às questões humanas, de comportamento e aos novos modelos de trabalho. Com a revolução industrial que se aproxima, muitos cargos vão se extinguir e, os profissionais que permanecerem, vão precisar ser ainda mais completos”, disse o coordenador de ensino superior do SENAI Cetiqt.

Marcelo Ramos, coordenador do ensino superior do SENAI Cetiqt
Marcelo Ramos, coordenador do ensino superior do SENAI Cetiqt

Prova disso foi a experiência passada pelos coaches nesses três meses de trabalho. Além do que defende e acredita o SENAI Brasil Fashion, os 24 alunos que participaram desta edição descobriram na prática a importância do trabalho em equipe, como comentou Ronaldo Fraga. “O marco deste ano, e que dá maturidade aos participantes, é unir técnica e criação e mostrar para a turma que o trabalho de moda é uma equipe. Não é só o estilista pensar e desenhar. O modelista precisa estar em sintonia, as costureiras põem em prática e ninguém faz nada sozinho”, afirmou o estilista que, em seu trabalho como coach, defendeu a ideia de cumplicidade entre os integrantes. “Desde o primeiro encontro, eu digo aos alunos que estaremos pulando de um avião e eu conto que o paraquedas deles abrem e eles contam com o meu também. Então, um depende do outro”, completou Ronaldo.

Aliás, assumir a posição de coach em meio a tantas ideias e energia dos novos talentos não é uma tarefa simples. Com este time há quatro anos, o SENAI Brasil Fashion provoca uma linha tênue para seus instrutores. No projeto, Ronaldo, Lenny, Lino e Alexandre precisam ajudar, sem interferir. “Os três conseguiram manter uma identidade muito forte de cada um. Eles são muito diferentes entre si, mas eu consegui trabalhar com os conceitos sem interferir. No processo, eu incentivava a loucura e o delírio, porém, ressaltava que não era para fazer como eu faço”, contou Lino Villaventura que seguiu uma proposta similar de Lenny Niemeyer. “Esse meu trabalho é mais de respeitar a identidade de cada um e ajudar a mostrar como se faz um croqui e executa depois até o momento da passarela. Eu acho que o projeto é uma excelente oportunidade de eles participarem de todos as etapas da produção de uma coleção”, analisou.

No entanto, mesmo nesta intenção de ressaltar a identidade dos novos talentos, é quase impossível que não reconheçamos traços de cada um dos quatro estilistas na passarela. Seja com o toque sofisticado e minimalista de Lenny Niemeyer no trabalho de uma de suas duplas, ou na mistura de tecidos e propostas de Lino Villaventura em outros alunos, a personalidade dos coaches fora o tempero final para estes diamantes brutos. “A Lenny foi muito generosa e atenciosa e nos ajudou mesmo o nosso estilo sendo bem diferente do dela. Ela fez o máximo possível para respeitar a nossa identidade, que é mais maximalista, sendo ela minimalista, e nos fez entender o que precisava ser feito para uma coleção mais bonita e coesa”, contou Juliana Cavalcanti, estilista, que fez dupla com Raissa Campos.

E as histórias entre os 24 alunos são as mais interessantes – assim como as roupas. Cada um com um sotaque, uma identidade e um conceito de moda diferente, eles coloriram a passarela do Museu do Amanhã com o frescor de novos tempos. Por sinal, esta foi a proposta da edição deste ano do SENAI Brasil Fashion. Nas coleções, o projeto incentivou os alunos a pensar “Moda é Futuro e Futuro é Moda”. O resultado? De tudo um pouco – para a alegria de Ronaldo Fraga. “O que eu mais amo é ter essa diversidade para trabalhar. Nesses três meses, eu me emocionava a cada vez que ouvia os vários sotaques no café da manhã. É o Brasil pensando moda em uma nova geração de talentos. Então, este projeto é algo novo que não havia sido pensado e executado anteriormente. E, para quem conhece meu trabalho, sabe o quanto essa pluralidade é importante e me emociona”, disse.

Emociona e inspira. Entre os seus pupilos, Ronaldo trabalhou com uma dupla que trouxe a tragédia do Rio Doce, em Mariana, como inspiração. Na verdade, como resposta para um pedido de seu coach. “A gente chegou com um tema fechado sobre a perspectiva do tempo e o comportamento da sociedade na moda. Por um comentário sobre a tragédia em Mariana, nós mudamos completamente a nossa inspiração com a ajuda do Ronaldo. Desde o começo queríamos falar sobre ecologia e sustentabilidade, porém, precisamos achar um caminho próprio. Foi então que o Ronaldo nos pediu para trazermos a nossa raiz para a coleção e, como solução, resolvemos falar sobre a tragédia em Mariana que, mesmo depois de dois anos, ainda tem impactado a nossa vida no Espírito Santo”, lembrou a modelista Nilceia que, além da inspiração, ainda usou a lama da tragédia para colorir os tecidos da coleção.

Outro exemplo de parceria fundamental e certeira entre aluno e coach foi no time de Lino Villaventura. Assim como o estilista vem dedicando sua carreira há bons anos para uma moda autoral e que acredite na mistura de ideias e texturas, os estudantes Juan Rodrigues e João Victor trouxeram este cenário para o SENAI Brasil Fashion. “A inspiração principal foi trabalhar com matéria-prima. Então, nós pegamos tecidos diferentes do vestuário tradicional e trabalhamos em cima disso para propor novas texturas e resultados”, disse Juan, que foi o estilista da coleção, sobre o trabalho que, coordenado por Lino Villaventura, mostrou que o dinheiro final não é o que alimenta a alma. “A roupa não é para ser feita e vendida em uma loja depois. A grande intenção do SENAI Brasil Fashion é que a gente passe conceito e ideia com uma moda autoral totalmente nova”, contou sobre o que aprendeu com o coach. Nada mais Lino Villaventura, ?

Pois bem, quem também aprendeu direitinho com os ensinamentos de seu mentor foi a dupla Tarsila Almeida e Joyce Parra. Como proposta inicial, as pupilas de Alexandre Herchcovitch queriam desenvolver roupas modulares que permitissem múltiplas formas de usar e, assim, otimizassem as peças do guarda-roupa. Ao seu lado, as estudantes tinham a experiência de um estilista que, em sua grife em parceria com Fábio Souza, À La Garçonne, traz a ideia de brechó para a moda autoral e moderna. O desfecho não poderia ser mais certeiro. “As peças podem se transformar e é isso o que vamos mostrar na passarela. O que fizemos foi basicamente o mesmo, porém, em cores diferentes, e vocês vão ver que o resultado pode mudar muito de acordo com as configurações”, contou Tarsila, estilista da dupla.

Com esses casos e ao fim de três meses de aprendizado e troca de experiências entre alunos e coaches, as impressões sobre mais uma edição de SENAI Brasil Fashion foram as melhores possíveis. De acordo com Lino Villaventura, a cada ano, os candidatos de todo Brasil chegam mais preparados e motivados a criar. “Com o tempo e conforme eles vão assistindo ao programa Desafio Brasil Fashion, eles já ficam familiarizados com o que é. Os alunos passam a ter o exemplo de outros que já participaram e isso facilita”, analisou o estilista.

No sentido contrário desta evolução, alguns contras também marcam a vivência dos alunos no projeto. Com os avanços da tecnologia, os coaches apontaram as mudanças no comportamento dos estudantes. Eles, que começaram suas brilhantes carreiras antes da internet, passam a ter novos desafios com o mundo digital tão latente nestes novos talentos. “A facilidade que temos hoje em dia com a internet acaba engessando o nosso pensamento e faz com que esses alunos tenham medo da ousadia e da crítica. E é aí que eu entro. Eu preciso mostrar para eles, com toda a bagagem que eu tenho, que precisamos acreditar no que fazemos e que o trabalho é bacana”, disse Ronaldo Fraga que foi completado por Lenny Niemeyer. “O mundo mudou muito e agora tudo é muito rápido. Eu trabalhei por dez anos até conseguir fazer meu primeiro desfile. Hoje as pessoas têm muito mais urgência e o próprio mundo nos pede isso. Com isso, eu acho que o maior desafio dessa nova geração passa a ser a parte prática por eles não terem a vivência de fábrica”, disse a dama do beachwear nacional.

Com isso, os desafios ganham novas formas no mercado da moda do futuro. No entanto, por outro lado, algumas questões não mudam com o passar das gerações. “Existe um olhar de insegurança e medo do novo entre eles que eu acho que sempre vai existir. Mas os tempos são outros e o Brasil mudou. Hoje, essa moçada tem muito mais informação do que tínhamos na época – com tudo de bom e ruim que isso possa significar. Com isso, eu vejo que vivemos em um cenário mais conformista em que a gente precisou sacudir esses alunos. Enquanto no passado a gente queria assombrar, desconstruir e fazer algo totalmente novo, hoje, eles querem fazer aquilo que venda. Ou seja, se a gente não toma cuidado, vamos estar deixando com que eles façam aquilo que já está no fast-fashion. O nosso papel foi mostrar que isso já tem e o mundo não precisa de ainda mais”, disse Ronaldo Fraga que, para solucionar tudo isso, tem a parceria de outros três grandes nomes da moda neste evento que já se consolidou como vitrine do futuro fashion nacional. “. Hoje, o SENAI Brasil Fashion é um dos projetos de moda importantes de todo o país e que incentiva os novos estilistas a fazer seus trabalhos autorais”, concluiu Alexandre Herchcovitch.

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