Jornal do Brasil

Terça-feira, 27 de Junho de 2017

Heloisa Tolipan

www.heloisatolipan.com.br

Sophie Charlotte: "Não podemos deixar que nossos direitos sejam usurpados"

Atriz é a protagonista "Os dias eram assim", ambientada nos Anos de Chumbo

Não se engane com a beleza e juventude de Sophie Charlotte. A atriz, mãe e mulher que viverá a protagonista da nova supersérie da Rede Globo “Os Dias Eram Assim” tem muito mais o que falar do que a marca da sua roupa e a cor do seu batom. A trama será ambientada durante a ditadura militar – um dos piores períodos históricos da história nacional – e ela viverá a encantadora Alice, uma jovem de família conservadora, mas inconformada com o regime político vigente. Sophie mostrou estar antenada em tudo o que acontece no mundo hoje em dia e deu grandes lições sobre política e sociedade.

“Eu estou em um momento muito louco de transformação pensando em tudo isso. O que é desejo e o que obrigam as pessoas a desejar. O que é um desejo imposto à gente depois de tanta repetição? Meninas e mulheres tendo que acreditar que é isso que elas querem ouvir, que elas só querem ouvir qual é o meu novo batom, o que eu estou usando e qual a minha nova dieta. Eu acho que as meninas estão interessadas em outras coisas. A gente tem muita coisa para falar: trabalhos, pensamentos. Acho que existe um receio, porque tudo o que falamos vai ser interpretado, mas antes de mais nada, esse é o momento de falar, se reinventar”, desabafou.

(Foto: Divulgação)
(Foto: Divulgação)

Para entrar na personagem e na época, foi necessário muito estudo e muita pesquisa. A atriz contou um pouco das suas descobertas e da importância de trazer um tema importante como esse para a televisão aberta. “Temos uma necessidade de falar sobre esse tema nesse tempo e atentar para que esse período não volte jamais. Isso foi muito escrito depois da Segunda Guerra Mundial. A necessidade de você falar sobre, para que aquilo não se repita, porque se aconteceu uma vez, pode repetir. Eu fiquei muito chocada quando descobri o número de pessoas que apoiavam a ditadura. Primeiro que não tinha nenhuma informação e estava ligado muito à uma situação econômica e menos à questão da liberdade de expressão, muitos nem sabiam o que isso significava. De qualquer forma, eu fiquei bem chocada como havia uma potência conservadora e hoje eu continuo me espantando com o mesmo fato” , enfatizou.

Em paralelo à política atual, Sophie analisa o quadro da política brasileira como crítico e espera que a superssérie abra o caminho para a reflexão sobre o passado para que o Brasil caminhe para um futuro melhor. “Tudo é muito delicado nessa novela. Estamos falando de um regime que até hoje as pessoas falam que não é ditadura então é complicado, mas é importante. Eu me sinto com uma grande responsabilidade para dar conta disso. Tem consequência? Não tem consequência? Não vamos transferir aquela história para os dias atuais. Vamos olhar criticamente para que nem todos aqueles contextos façam sentido hoje. A gente vive um momento, e espero que ele esteja passando, de dois grandes polos. Existe uma intolerância entre eles e é quase impossível você não estar ligado a um lado ou ao outro por diversas questões como acesso à informação, educação e o que fazer com essa informação. Nós temos vários paralelos por ai. O mais importante é não deixarmos a nossa liberdade e os nossos direitos já conquistados serem usurpados, que foi o que aconteceu na ditadura”, explicou.

Tendo sido uma das primeiras a se pronunciar na campanha promovida pelas funcionárias da Rede Globo #ChegaDeAssédio – relacionada ao caso de assédio do ator José Mayer com a figurinista Susllen Meneguzzi Tonani – Charlotte considera esse um tempo de transformações rico para a sociedade: “Essa campanha é para amparar todos aqueles que querem, que quiserem e que vão ter que enxergar o mundo como ele é. Me sinto privilegiada em viver em um tempo assim, que começou no tempo da Alice (sua personagem). Chegou a hora de a gente consolidar as nossas conquistas.” Ela ainda convida a todos os que possuem um pensamento reflexivo a ouvirem o outro lado e iniciar um diálogo sempre argumentando, deixando o ódio de lado.

(Foto: Divulgação)
(Foto: Divulgação)

“Ouvir o outro é sempre um exercício. Ouvir o outro com generosidade. Cada um está no seu processo de compreensão e evolução. Um pode convencer o outro. Eu conto com a transformação das pessoas e do pensamento. Se eu desacreditar dessa transformação, não dá para conversar. Diálogo e argumentação existem há muito tempo para isso. As pessoas precisam parar de se apoiar no ódio e na intolerância e passar a dialogar”, declarou.

Sophie destacou entre as dificuldades do mundo atual a criação de uma criança durante tempos tão conturbados. “É uma responsabilidade criar um filho. Você tem que passar valores e mantê-lo conectado com o tempo que ele está vivendo sempre apontando para o futuro. Eu acredito na equidade e tento viver isso. Como mãe, a gente tenta passar isso adiante, os valores que eu acredito. A igualdade entre gêneros, a igualdade social e a humanidade fazem mais sentido. Conseguir amparar aqueles que ainda não conseguem ver o mundo como você enxerga faz parte”, completou.

Falando sobre transformações, Alice é para a atriz uma despedida de uma série de personagens que ela viveu para dar início agora a outra fase da sua carreira. É possível que em “Os Dias Eram Assim” encontrem uma Sophie Charlotte que ainda não foi vista em cena. “Passei por uma transformação maravilhosa que foi a maternidade. Me sinto desafiada de qualquer forma. Estou sem atuar tem um tempo e essa personagem vai amadurecer. Vou ter que me desdobrar como atriz para dar conta de outras questões, já que não sou mais uma menina de 18 anos. Estou me despedindo dessa faixa etária. Não estou mais sendo escalada para a menina, mas sim para a mulher de 30 anos.”

A superssérie é assinada por Angela Chaves e Alessandra Poggi com direção artística e geral de Carlos Araújo. Marcada para estreia no dia 17 de abril, na faixa das 23h, o elenco – que ainda conta com Daniel de Oliveira, Renato Góes, Maria Casadevall, Susana Vieira, Marcos Palmeira e Letícia Spiller – gravou a música de abertura. “Todos os meus trabalhos são feitos com a alma e o coração. Só consigo trabalhar assim. Quando o Carlinhos convidou a gente para gravar a trilha, eu tinha a versão da Elis na minha cabeça cheia de emoção e de pausas. Dadas as devidas proporções é uma homenagem a essas grandes artistas daquela época que nos marcaram e às canções que nos emocionam até hoje. Buscamos a melhor maneira de registrar para abrir essas cenas que estamos gravando com todo o coração” comentou Charlotte. Aos fãs e amantes dessa mulher fascinante, basta esperar o início da novela para que seja possível se deliciar com mais uma atuação incrível e envolvente.

Tags: chega de assédio, daniel de oliveira, ditadura militar, feminismo, mexeu com uma mexeu com todas, mulher, os dias eram assim, política, rede globo, sophie charlotte, supersérie

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