Jornal do Brasil

Terça-feira, 18 de Junho de 2013

Heloisa Tolipan

No top do iTunes, Mariene de Castro se aproxima de Clara Nunes em disco tributo

Gravado em show especial, ‘Ser de luz’ conta com participações de Diogo Nogueira e ZecaPagodinho

Com Pedro Willmersdorf

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Em abril de 1983, Clara Nunes, a mineira mais baiana de que já se teve notícia, fechou as cortinas do palco que foi sua vida. Alguns meses depois, com apenas 5 anos de idade, Mariene de Castro subia ao palco do Teatro Castro Alves, em Salvador, pela primeira vez, como dançarina.

A história das duas se cruza em canções que fazem parte da memória afetiva de Mariene e dos encontros com sua mãe e tias, no relacionamento com Diogo Nogueira e Zeca Pagodinho e no álbum ‘Ser de luz’, produzido em uma parceria da Universal Music com o Canal Brasil, uma homenagem de corpo, alma, voz e repertório à Clara. “Clara cantou tão bem a Bahia a ponto de muitos acharem que ela era baiana, a maneira dela de se vestir é muito ligada à cultura afrodescendente. Isso também está na minha natureza, no meu sotaque, na minha essência, na minha raiz”, nos conta a baiana, que ocupava o primeiro lugar da lista de downloads da categoria samba do iTunes logo no dia seguinte ao lançamento do trabalho gravado em um show especial no o Espaço Tom Jobim, no Rio, em outubro de 2012, com participações especialíssimas de Diogo e Zeca. “Os dois são portelenses de gerações diferentes e conheceram Clara Nunes de formas diferentes. Os dois estão na minha vida e na vida de Clara”, comenta Mariene, que fez uma verdadeira imersão na quadra da Portela, em Madureira, dirigida por Tia Surica, Paulinho da Viola e companhia.

Zeca Pagodinho, padrinho e amigo de Mariene, participa da música 'Coisa da antiga'
Zeca Pagodinho, padrinho e amigo de Mariene, participa da música 'Coisa da antiga'

Heloisa Tolipan: Você tinha quase cinco anos quando Clara Nunes morreu, em 1983. Como e quando foi o seu primeiro contato com a música dela?

Mariene de Castro: Comecei a conhecer Clara a fundo na fase adulta. Tinha várias músicas dela na minha memória afetiva, aquelas canções que a gente conhece, que escutava minha mãe e minhas tias falando sobre, mas não tinha intimidade com o trabalho. Só fui mergulhar na vida e no trabalho dela quando já fazia carreira solo.

HT: Como ela influenciou sua carreira? Quais são as similaridades entre vocês?

Mariene: O repertório todo dela é muito familiar à minha região e a mim, como nordestina, como baiana, cantando sobre orixás e eu tenho uma relação com o candomblé.

Clara cantou tão bem a Bahia a ponto de muitos acharem que ela era baiana, a maneira dela de se vestir é muito ligada à cultura afrodescendente. Isso também está na minha natureza, no meu sotaque, na minha essência, na minha raiz. O jeito de ser, de se vestir, o ritmo e a sonoridade do meu trabalho também são similares, representam o Recôncavo Baiano.

HT: O Zeca Pagodinho e o Diogo Nogueira participaram da gravação do CD e DVD ‘Ser de luz’. Como foram escolhidas as parcerias e quais músicas vocês cantariam juntos?

Mariene: A minha relação com o Diogo é bem antiga e pessoal. O Zeca eu conheci na gravação do DVD do Nelson Rufino, em Salvador. Os dois são portelenses de gerações diferentes e conheceram Clara Nunes de formas diferentes. Os dois estão na minha vida e na vida de Clara. Eu sugeri as músicas e eles as abraçaram. O Zeca combina muito com ‘Coisa da antiga’ por ser um cantor já consagrado e o Diogo canta ‘Juízo final’, uma canção que nós dois gostamos muito.

Mariene de Castro gravou 'Ser de luz' em show no Espaço Tom Jobim, no Rio
Mariene de Castro gravou 'Ser de luz' em show no Espaço Tom Jobim, no Rio

HT: No processo de produção de seus CDs você costuma entrar em uma espécie de retiro de imersão com a sua banda. Para gravar ‘Tabaroinha’, seu último álbum, lançado em 2012, vocês foram para um estúdio montado ‘no meio da mata’ e, para ‘Ser de luz’, vocês passaram 30 dias morando em uma casa no Recreio dos Bandeirantes, no Rio de Janeiro. Por que esta imersão é importante para o resultado final do álbum e qual é a diferença que ela imprime no trabalho?

Mariene: Minha banda está comigo há muito tempo, estamos em comunhão, já somos uma família há muito tempo. O processo de pré-produção coincidiu com o período do nascimento da minha filha e, como eu precisava ficar perto dela, ficamos juntos escolhendo as faixas, produzindo os arranjos e bordando cada detalhe do CD.  

A grande diferença que este ‘retiro’ imprime no trabalho é a concentração , a energia em comunhão, estamos sempre na mesma vibração, em família. Isso gera sintonia, calmaria, tranquilidade para todos e favorece a inspiração de todo mundo. Ficamos mais focados no trabalho.

HT: A evolução da tecnologia afetou muito o mercado musical. Seu primeiro CD, ‘Abre caminho’, foi lançado em 2005, no meio da revolução no mercado fonográfico impulsionada pelo crescimento do conteúdo digital e da internet e este, ‘Ser de luz’, saiu simultaneamente online e nas lojas físicas. Como foi o processo de adaptação a esta realidade?

Mariene: A gente vai acompanhando o crescimento das coisas e as mudanças tecnológicas. Esta semana tive a grata surpresa de ver que meu CD está no primeiro lugar de  vendas do iTunes na categoria samba, com apenas um dia após o lançamento. É uma realidade muito nova pra mim. Antes eu não sabia o que era  venda de disco na internet na proporção que hoje eu sei. Isso nos fortalece, abre muitos caminhos e dá uma maior acessibilidade ao produto. É possível comprar em casa, sem sair do sofá.

Mas é importante acompanhar sem perder a noção do que é a nossa verdade, não se prender a nada. Estou no mundo, mas no meu mundo.

Em 'Ser de Luz', Diogo Nogueira e Mariene dividem os vocais na música 'Juízo final'
Em 'Ser de Luz', Diogo Nogueira e Mariene dividem os vocais na música 'Juízo final'

HT: No início da sua carreira, em 1996, você foi convidada para passar uma temporada na França. Como foi essa experiência?

Mariene: Passei 20 dias lá fazendo shows, em uma turnê de intercâmbio cultural. Foi minha primeira experiência internacional, participei de grandes festivais, inclusive. Me marcou muito a repercussão de crítica e público, cheguei a ser comparada com Edith Piaf. Foi uma experiência bacana e pude ver o quanto a música brasileira é mais valorizada lá fora do que aqui. O samba e a MPB são muito importantes no exterior, principalmente na Europa. De lá pra cá, cantei várias vezes na França, na Itália e Espanha.

HT: Você acabou de rodar o longa ‘Quase samba’, de Ricardo Targino. Curtiu a experiência de ser atriz?

Mariene:  Adorei a experiência. Alguns atores que admiro muito estavam no elenco, como o João Baldasserini, o Cadu Fávero, o Leandro Firmino e o Otto. O filme é muito belo e mostra mais deste cineasta novo. Começamos a filmar há dois anos e só terminamos agora em 2012, estamos em fase de finalização. Rodamos em Minas Gerais e até antes de vir pro Rio para gravar o ‘Ser de luz’, estava em Minas Gerais filmando. Além de protagonizar, tenho três músicas na trilha sonora que já eram do meu repertório, entre elas ‘Ciranda de roda’ e ‘Filha do mar’.

Colaborou Beatriz Medeiros

colunaheloisatolipan@gmail.com

Tags: álbum, canal brasil, CD, clara nunes, diogo nogueira, heloisa tolipan, itunes, mariene de castro, show, tributo, zeca pagodinho

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Comentários

1 comentário
  • Marcos Lucio Pinto

    Depois de Gal e Bethânia, esta é a cantora baiana mais talentosa (além de bela) e de melhor repertório. Aquelas que fazem sucesso-as axezeiras-, são chatas, repetitivas e de repertório pífio, quase sempre. São mais arteiras , PRA PULAR, do que, de fato, artistas.

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