Salgueiro cria fama, mas Mocidade deita na cama com sua bateria arrepiante!
Na 1ª noite de desfiles, Tijuca enfrenta problemas, Ilha faz desfile discreto e Portela se supera
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Na primeira noite de desfiles do Grupo Especial do Rio, a fama não subiu à cabeça do Salgueiro, escola que apresentou o desfile mais perto da perfeição do domingo (10), mesmo não empolgando como em anos anteriores. Já a Unidos da Tijuca, atual campeã, demonstrou certo esgotamento de suas fórmulas, enfrentou problemas em seu percurso, mas ainda se mantém forte em busca de mais um título. No entanto, entre o esmero técnico do Salgueiro e os incidentes da Tijuca, encontramos pelo caminho uma bateria que arrepiou a Sapucaí do início ao fim de sua apresentação. Na noite de ontem, não existiu nada mais quente. Confira:

Inocentes de Belford Roxo - Estreante no Grupo Especial, a escola da Baixada mostrou um desenvolvimento moderno para o enredo histórico sobre os 50 anos de imigração coreana no Brasil, assinado pelo carnavalesco Wagner Gonçalves. No entanto, não chegou a empolgar, principalmente por conta do canto discreto de seus componentes. As fantasias também pecavam em acabamento em alguns setores, contrastando com alegorias de fácil leitura e resolução criativa de baixo investimento. Destaque para a comissão de frente, com animais de pedra representando os signos do horóscopo coreano, o casal de mestre-sala e porta-bandeira formado por Lucinha Nobre e Rogerinho e o intérprete Wantuir, com uma afinação e um fôlego que há anos não apresentava.

Salgueiro - A escola tijucana apresentou, sem dúvida, o desfile mais correto da noite, com um enredo cercado de suspeitas no período pré-folia. Mas, assinado por Renato Lage e Márcia Lage, o tema proposto pelo Salgueiro conseguiu abordar a fama de forma abrangente e autocentrada, o que valorizou ainda mais o trabalho da dupla. O abre-alas, por exemplo, deixava à mostra as verdadeiras celebridades do Carnaval do Salgueiro: as pessoas que fazem a agremiação funcionar durante o ano inteiro. Com alegorias menores que em desfiles anteriores, uma evolução fluida e um canto consistente, o Salgueiro, se não chegou a empolgar as arquibancadas como em outros anos, pode creditar este porém a seu samba, muito fraco. Para compensar, uma bateria realmente furiosa, com uma rainha exuberante e competente diante de si: ela, claro, Viviane Araújo.

Unidos da Tijuca - Campeã de 2012, a escola mais uma vez apostou na fórmula de Paulo Barros: alegorias e muitas alas coreografadas, o que já demonstra certo desgaste diante do público, agora à espera de uma nova proposta. Pela pista, fantasias muito luxuosas (e também muito quentes, o que pareceu deixar a evolução da Tijuca mais arrastada que o habitual). O samba, de bela melodia, emplacou, aliado à bateria cadenciadíssima de mestre Casagrande e à rainha estreante Juliana Alves, muito bem integrada aos ritmistas.
Quanto ao enredo, Barros conseguiu transformar a Alemanha em uma nação pop, com sua visão de carnavalesco do entretenimento. Um acerto louvável que quase foi ofuscado por problemas inesperados pelos quais a escola passou, como uma integrante que passou mal na alegoria dos cogumelos e o abre-alas, que bateu na grade do setor 1 ao entrar na Avenida.

Ilha - Vinicius de Moraes ganhou homenagem suntuosa e luxuosa pelas mãos do carnavalesco Alex de Souza, com seu estilo clássico. Na pista, alegorias belíssimas, de acabamento primoroso e fácil leitura. Fantasias com altos costeiros demonstravam mais uma marca de Alex, que apostou nas plumas como base de suas ideias. No comando do samba, Ito Melodia em mais um desfile inspirado, rumo a mais um Estandarte de Ouro, talvez. Muito auxiliado, bom que se diga, pela bateria redondinha dos mestres Riquinho e Odilon. Quanto à evolução e harmonia, a irreverente escola desceu o tom, levando à Sapucaí menos voz que em outros anos, o que transformou um tributo que poderia ser inesquecível em uma bela e morna homenagem ao Poetinha.

Mocidade - Uma das escolas no foco da crise financeira dos barracões tão comentada nos últimos meses, a escola de Padre Miguel apostou na criatividade para voltar a faceta moderna que marcou os desfiles de sua história. O carnavalesco Alexandre Louzada, de um enredo delicado e uma fase de vacas magras, conseguiu extrair a felicidade da Mocidade, que cantou como há tempos não cantava, mesmo diante de um belo samba sobre um enredo espinhoso. Enredo, aliás, que também ganhou tintas pesadas de criatividade por parte de Louzada, que não levou à Sapucaí uma pluma sequer, investindo no acetato como fórmula para dar brilho e aspecto metalizado no visual da escola. Uma acerto maiúsculo, mas não tanto quanto a bateria de mestre Bereco, que levou ao desfile uma incontável série de bossas e paradinhas que enlouqueceram o público e construíram o resgate daquela que sempre foi e, depois de ontem, voltou a ser a bateria mais quente. Nota 10.

Portela - Assim como a Mocidade, a águia de Madureira foi protagonista de reportagens sobre atraso de barracões e bolsos vazios nas diretorias das escolas do Rio. E, assim como a agremiação de Padre Miguel, a Portela demonstrou superação. Se o visual do carnavalesco Paulo Menezes ficou devendo (mais nas fantasias do que nas alegorias), o 'chão' deu demonstrações de que a comunidade de Madureira jamais perdeu (ou perderá sua força), principalmente diante de um dos sambas mais elogiados do ano e de uma bateria segura como a de mestre Nilo Sérgio. E, ao cantar suas origens, seu bairro, sua história, a Portela apostou na emoção como mecanismo para equilibrar as forças diante de limitações orçamentárias. Uma luta árdua, mas vencida na base do amor à maior campeã do Carnaval, que, no saldo geral, mostrou realmente que Madureira é muito mais do que um lugar.

Por Pedro Willmersdorf

