Com tributo ao Salgueiro, Viradouro se destaca na primeira noite da Série A!
Santa Cruz e Rocinha também impressionaram; na Vila Santa Tereza, bateria desfilou sem fantasia
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Há quem afirme com veemência que a maior prova de amor que alguém pode dar ao Carnaval é assistir aos desfiles do Grupo de Acesso, hoje Série A da folia carioca. Teoricamente, lá estaria a essência das escolas de samba, o amor incondicional ao pavilhão, ultrapassando verbas exorbitantes, patronos e afins. E, mais uma vez, tal máxima ganha a comprovação de que faz todo o sentido.
A primeira noite de desfiles das agremiações que buscam a vaga para a elite do Carnaval trouxe tudo: luxo, irreverência e transtornos que emocionaram a Sapucaí. Foram nove apresentações que contaram com nossa observação in loco. A seguir, você confere a análise de cada um dos desfiles:

Unidos do Jacarezinho - Celebrando o centenário de Jamelão, a escola afilhada da Estação Primeira de Mangueira teve a árdua missão de abrir o grupo às 21h de uma sexta-feira. Tarefa que foi cumprida dentro dos limites expostos pela comunidade, recém-chegada do Grupo C. Com uma plástica modesta, graças à competência do jovem carnavalesco Marcus Ferreira, Jacarezinho conseguiu exibir seu enredo de forma clara, com um samba que, apesar de sua beleza melódica, pareceu um pouco pesado para inaugurar a noite. Fantasias e alegorias bem simples contrastavam com uma harmonia eficiente e uma evolução agradável da escola.

Porto da Pedra - Após 11 anos na elite, a escola de São Gonçalo voltou à segunda divisão apostando na criatividade de um enredo de fácil leitura, que traçou o panorama da relação entre homem e sapato ao longo da História. Dentro do confuso contexto que assolou o Tigre em 2012 (rebaixamento, seguidas trocas de comando e carnavalesco, incêndio no barracão), a agremiação conseguiu superar as dificuldades com uma apresentação irreverente, com alternativas bacanas em relação à escassez de material luxuoso (como as centenas de pares de sapatos do abre-alas, todos doados pela comunidade). No entanto, um grave problema deve tirar a Porto da Pedra da briga pelo título: em frente à cabine de jurados do setor quebrou o terceiro carro da escola, que representava a desigualdade social tendo o filme 'O diabo veste Prada' como mote. Alas passaram ao lado da alegoria, ocupando buraco que vinha se formando em frente. Resultado: evolução, enredo, harmonia e enredo prejudicados. Uma pena.

Santa Cruz - Desde 2002, quando venceu o Grupo de Acesso e conquistou uma vaga na elite, a Santa Cruz não fazia uma apresentação tão eficiente na Sapucaí. Com a plástica mais bem acabada da noite, a escola da Zona Oeste trouxe diversas lendas do ceará à Passarela, com um belo samba entoado de forma preciosa pelo veterano Paulinho Mocidade. Alegorias com esculturas muito bem trabalhadas (como a da festa junina, que encerrou o desfile) deram o toque de requinte a uma passagem tecnicamente primorosa, muito lembrando a Imperatriz Leopoldinense dos anos 90. Aplausos para o carnavalesco Sylvio Cunha, cujas fantasias muito bem elaboradas ganharam uma execução irretocável. A primeira a entrar na briga pelo caneco.

Unidos da Vila Santa Tereza - A escola de Coelho Neto vivenciou e nos fez vivenciar também o grande drama da noite: diversas fantasias da escola não chegaram a tempo, o que fez com que diversos setores desfilassem sem qualquer adereço carnavalesco.

A bateria, por exemplo, passou com os homens sem camisa e as mulheres vestindo tops. As passistas também não utilizaram suas fantasias e a ala das baianas contava com um contingente baixíssimo, o que também causou estranhamento às arquibancadas.
Várias composições de alegorias também desfilaram sem suas fantasias. Um contraste melancólico e, simultaneamente, emocionante em relação à garra e ao canto dos componentes, que trouxeram para si a responsabilidade de honrar não somente seu pavilhão, como também o samba da Vila Santa Tereza, considerado por muitos um dos melhores da safra de 2013. No entanto, no frigir dos quesitos, a agremiação deve perder muitos pontos, o que já a credita ao rebaixamento.

União do Parque Curicica - Sem pompa para disputar o título, Curicica entrou na Avenida com a proposta de um desfile digno que a mantivesse na Série A. E, com louvor, conseguiu conquistar seu objetivo, tendo como enredo uma releitura da Portela de 1994 ('Quando o samba era samba') e, como retrospectiva, um fim de ano confuso, quando a escola viveu a possibilidade de não desfilar em 2013. Mas, em três meses, Curicica botou a mão na massa e levou à Sapucaí uma apresentação redonda, sem grandes arroubos de luxo, mas com total capacidade de conquistar as notas suficientes para se manter no grupo.

Estácio de Sá - Nome de peso na história do Carnaval carioca, a Estácio impressionou com o belo trabalho de suas alegorias e fantasias, esbanjando um luxo até então ainda pouco desvendado pelo carnavalesco Jack Vasconcelos, com um enredo-homenagem ao maestro Rildo Hora.
Um desfile que, no entanto, teve problemas de evolução, lenta do início ao fim (muito por conta da longa apresentação de sua comissão de frente a cada cabine de jurados). Como consequência, a Estácio teve de apressar o passo na reta final. Mas, ainda assim, estourou em um minuto o tempo máximo de 55 minutos de desfile e perderá 0,1 pela infração. Uma penalidade que pode custar caro à tradicional agremiação.

Alegria da Zona Sul - Como já entrega o próprio nome da escola, o desfile da Alegria da Zona Sul apostou no riso de outros carnavais, com um tributo aos 95 anos do Cordão da Bola Preta. E, sendo assim, o carnavalesco Eduardo Gonçalves apostou na variedade extrema de cores, representadas pelas figuras diversas que compõem o cordão: piratas, ciganas, palhaços e havaianas cruzaram a pista apostando na força de um samba leve para compensar certas limitações estéticas. Um trabalho de compensação, aliás, bem executado (apesar das condições precárias do barracão), o que resultou em uma performance agradável, sem comprometer a permanência da Alegria da Zona Sul na Série A.
Rocinha - A escola de São Conrado levou à Sapucaí o desfile mais divertido e de fácil leitura da noite, versando sobre a mistura de sabores que forma a culinária brasileira. Sushis, salsichões, batatas fritas, macarronadas e, claro, uma bela feijoada: esse é um aperitivo do cardápio que o carnavalesco Luiz Carlos Bruno apresentou, com alegorias muito bem acabadas e fantasias leves, o que permitiu que a agremiação evoluísse de forma tranquila. O canto discreto em algumas alas pôde ser observado, mas nada que comprometa o desempenho da Rocinha, mais uma escola a entrar, desde já, na briga pelo título de modo consistente. E com fome de vitória.

Viradouro - Já passava das 5h da manhã deste sábado de Carnaval quando a Viradouro entrou na Avenida ao som de 'É campeã!', sem sequer colocar uma alegoria na pista. Euforia de uma torcida que não vê a hora de celebrar o retorno da escola de Niterói à elite. E, após o desfile de 2013, a esperança ganha ainda mais força. Pois, ao homenagear os 60 anos do Salgueiro, a Viradouro acertou em cheio. Com um samba sem refrão, a vermelha-e-branca do lado de lá da Ponte passou por um incidente em sua apresentação que ratificou a força de sua comunidade: com uma falha de som da Avenida, os componentes se viram obrigados a segurarem no canto o hino da escola. Resultado? Um ecoar emocionante de vozes que só fez a passagem da Viradouro crescer, moldada pelas fantasias e alegorias requintadas de Max Lopes, carnavalesco veterano que, como de costume, também desfilou (na última ala, formada pelos ciganos que Max tanto ama). Um trabalho competente de um mestre que poderia argumentar que nada tem mais a fazer no Carnaval. Mas que, como pôde ser visto ontem/hoje, talvez ainda tenha pelo menos uma missão: levar à Viradouro de volta ao Grupo Especial.

Por Pedro Willmersdorf

