Vila emociona, mas Salgueiro é quem 'bota banca e respeito' em ensaio na Sapucaí
Bem cotadas na luta pelo título, escolas da Zona Norte desfilaram, ontem (20), para 50 mil pessoas
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Era uma noite mais do que especial para os amantes do Carnaval (e também para os cariocas): dia 20 de janeiro, tempo de celebrar São Sebastião, padroeiro da Cidade Maravilhosa. Na Sapucaí, tempo da tradicional lavagem da pista, com a presença das 31 alas de baianas do Grupo Especial e da Série, além de personalidades da MPB, como Arlindo Cruz, Dudu Nobre, Jorge Aragão, Emilio Santiago e Nelson Sargento. Com água de cheiro e defumador, a Passarela do Samba teve sua energia renovada não somente com a passagem do cortejo, como também pela chuva torrencial que caiu sobre todos durante a cerimônia, que contou também com uma bela imagem do padroeiro do Rio sobre um carro onde eram depositadas flores.

E após a bela demonstração de união e fé, as mais de 50 mil pessoas que na Avenida estavam, espalhadas pelas arquibancadas e frisas, acompanharam uma noite de gala, com a presença de duas grandes favoritas ao título do Carnaval 2013: a Vila Isabel, com sua emoção à flor da pele e o Salgueiro, com sua fúria e técnica apurada. A coluna, claro, acompanhou mais uma noite de ensaios técnicos na Sapucaí.
Vila Isabel
Pode ter certeza de que ensaio algum era cercado de expectativa maior do que o da Unidos de Vila Isabel. Motivo? A escola do bairro de Noel Rosa tem na manga o melhor samba (de longe) da safra deste ano, construído com a pena genial do time formado por Arlindo Cruz, Martinho da Vila, André Diniz, Tunico e Leonel, contando o enredo 'A Vila canta o Brasil, celeiro do mundo - Água no feijão que chegou mais um', desenvolvido pela carnavalesca Rosa Magalhães. E, para felicidade geral, a expectativa teve uma bela e emocionante resposta.

A comunidade da escola, sabendo da qualidade de seu samba, abraçou a 'causa' e levou para a Avenida uma performance passional, que conseguiu driblar a chuva durante sua passagem, mas encharcou com suor a pista, tamanha foi a entrega de cada componente. Não se pôde ver sequer um boca calada dentre todos que passaram pelo ensaio da Vila, que contou com uma evolução interessante, solta, livre em suas alas, mas cometendo o leve pecado da mistura das mesmas em determinados pontos (erro que, certamente, não passará batido no dia D por seus diretores de harmonia).

No carro de som, um Tinga que ainda precisa dosar certos arroubos de sua voz, muitas vezes soando 'selvagem' demais ao seu autocontrole. Tinga que, aliás, foi acompanhado por uma bateria que soou segura, porém conservadora, o que não é demérito algum quando se trata de mestre Paulinho (comandante dos ritmistas, ao lado de mestre Wallan). Para quem não lembra, Paulinho foi acusado, durante anos, de transformar a bateria da Beija-Flor em uma bateria 'quadrada'. Suas respostas vinham com uma avalanche de notas 10.

Nota 10 que pode ser dada também ao ensaio técnico da Vila, que, se não arrebatou como o da Beija-Flor, no sábado, emocionou mais. Pois, enquanto a escola de Nilópolis marchou forte e demonstrou sua garra, a escola da Zona Norte pegou pelo coração, com seu samba melodicamente perfeito e sua comunidade acreditando que pode, sim, chegar a mais um título. Crença mais do que justa, depois do que vimos na noite deste domingo.
Salgueiro
Seria injusto (mesmo) dizer que o ensaio do Salgueiro, outra forte postulante ao título, foi superior do da Vila. Mas é necessário registrar que, se não foi uma performance melhor nem mais emocionante, foi mais precisa, técnica, organizada. Características que também contam (e muito) na luta de qualquer agremiação pelo caneco. A escola da Tijuca, ontem, desfilou com banca, moral e respeito dignos de uma verdadeira campeã.

A começar pela bateria de mestre Marcão, talvez a mais ousada e, simultaneamente, eficiente dentre as que passaram pela Avenida nesta temporada. Com paradinha, bossas, convenções e uma cadência mais comedida que em anos anteriores, o que permitiu que os componentes do Salgueiro pudessem evoluir. E aí, no que envolve a evolução, vemos mais um ponto em que a vermelho-e-branca leva vantagem sobre a Vila: seus componentes, muito bem dirigidos, assim como os filhos de Noel, evoluíram bem, porém sem qualquer resquício de atropelamento de alas. Uma demonstração de preocupação louvável com um recurso técnico que faz diferença na hora H.

O canto da escola, se não foi brindado com um grande samba (que conta o enredo 'Fama', desenvolvido por Renato e Márcia Lage), executou de forma irretocável seu papel: forte, equilibrado e comandado por uma trinca de intérpretes que, Carnaval após Carnaval, exibe uma integração mais plena. Quinho, Serginho do Porto e Leonardo Bessa enfrentaram bem a missão de emplacar o hino do Salgueiro em 2013, visivelmente inferior aos dos recentes anos.

Com sua organização evidentemente priorizada (Regina Celi, presidente da escola, como de costume, percorreu cada ala conferindo o canto de seus componentes), uma bela evolução e uma harmonia forte, o Salgueiro pode não ter emocionado como a Vila (podem colocar este fato na conta do samba salgueirense), mas, como contraponto, exibiu mais maturidade e um vigor técnico dignos de uma agremiação que está prontinha para ganhar o Carnaval.


