Jornal do Brasil

Sexta-feira, 24 de Maio de 2013

Heloisa Tolipan

Sob um dilúvio, Beija-Flor lava a alma e arrepia em ensaio técnico na Sapucaí

Além da escola de Nilópolis, Porto da Pedra e Portela também se apresentaram, neste sábado (19)

Jornal do BrasilPor Pedro Willmersdorf

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Neste sábado (19), presenciamos mais uma noite de casa cheia e belas apresentações na Sapucaí, com três escolas em seus respectivos ensaios técnicos: Porto da Pedra, Portela e Beija-Flor. Noite também de muita chuva, principalmente sobre a escola de Nilópolis que, aproveitando o enredo sobre a força e o vigor do cavalo Mangalarga, marchou forte na Avenida, naquele que, talvez, tenha sido o melhor ensaio técnico a cruza o Sambódromo desde que esta prévia oficial se tornou parte do calendário da folia.

A seguir você confere o que a coluna viu das três agremiações que brilharam ontem na Passarela do Samba.

Porto da Pedra

Em 2012, a Porto da Pedra teve um ano dificílimo: como se não bastasse a brusca queda para o Grupo de Acesso (hoje oficialmente chamada de Série A), o Tigre de São Gonçalo passou, em outubro, por um incêndio em seu barracão e no espaço de um ano trocou de presidente quatro vezes. E ainda teve de promover o assessor de imprensa da escola Leandro Valente ao posto de carnavalesco faltando pouco mais de um mês para seu desfile, com a saída de Fábio Ricardo (que assina o Carnaval da São Clemente, no Grupo Especial).

E diante de tantas adversidades, a Porto da Pedra acusou o golpe, com a visível fragilidade apresentada no ensaio técnico realizado neste sábado. O enredo 'Me diga o que calças e eu te direi quem és' deu origem a um belo samba-enredo, como há tempos a escola não levava à Avenida, cantado com firmeza pelo intérprete Igor Vianna e embalado pela bateria cadenciada e segura do competente mestre Thiago Diogo. No entanto, pecados fragorosos em relação à harmonia e evolução comprometeram a performance da agremiação.

Comissão de frente da Porto da Pedra, comandada por Márcio Moura, que faz dobradinha na Portela
Comissão de frente da Porto da Pedra, comandada por Márcio Moura, que faz dobradinha na Portela

Apesar do samba de fácil leitura, foi possível observar alas inteiras sem cantar sequer o refrão principal, o que foi pouco corrigido pelos diretores de ala durante o desfile. Assim como a delimitação das alas, que tiveram de correr deliberadamente em frente ao setor 9, após a entrada da bateria no recuo.

Diversas falhas que precisarão de atenção máxima e uma rigidez acima da média no dia do desfile. Uma prova de fogo para a Porto da Pedra diante de uma vulnerabilidade explícita e demonstrada a olhos nus na noite de ontem.

Portela

Outra escola que teve um ano difícil, principalmente em seu âmbito político, é a Portela, que em 2013 leva à Sapucaí o enredo 'Madureira... Onde meu coração se deixou levar', desenvolvido pelo carnavalesco Paulo Menezes, que sofre com a correria no barracão da maior campeã do Carnaval carioca. Bom lembrar que até poucos dias atrás as alegorias da Águia para seu desfile estavam apenas sob a forma de ferro retorcido, enquanto muitas co-irmãs já acertam os últimos acabamentos de seus carros.

Guerreiros da Águia, umas dentre várias torcidas oficiais da Portela: amor maior em tempos de crise
Guerreiros da Águia, umas dentre várias torcidas oficiais da Portela: amor maior em tempos de crise

No entanto, a despeito de qualquer crise, a torcida portelense marcou presença nas arquibancadas para conferir o ensaio técnico da Águia, com balões e bandeiras celebrando o samba-enredo cantado pela potente voz de Gilsinho e moldado pela bateria de mestre Nilo Sérgio, com uma apresentação bastante conservadora na noite deste sábado. E por falar no samba da Portela, apesar de muitos elogios nesta fase pré-Carnaval, o hino não rendeu o esperado. Muito por conta de sua letra carregada de referências a Madureira cantadas em ritmo veloz, mas também pela ausência do canto pleno dos componentes da escola. O chão da Portela não ferveu como deveria ter fervido.

Ala de passistas da Portela: canto abaixo da expectativa diante de um samba-enredo tão elogiado
Ala de passistas da Portela: canto abaixo da expectativa diante de um samba-enredo tão elogiado

O que emperrou um pouco também a evolução da escola, revezando alas com a letra na ponta da língua com outras arrastando pé e apenas entoando os refrões do samba. Destaque para as alas inicias e a das baianas, responsáveis pelo canto mais forte e 'salvador da pátria'.

Mas, de qualquer forma, a Portela precisa, no dia de seu desfile, mostrar muito mais do que foi visto em seu ensaio técnico, tanto para reafirmar a qualidade tão exaltada de seu samba como também para deixar esquecido qualquer resquício de crise que possa ter afetado a Majestade do Samba neste último ano.

Beija-Flor

Difícil descrever em palavras o que a Beija-Flor fez na Sapucaí na noite deste sábado. Talvez a melhor definição seja justamente a expressão que a agremiação ganhou ao longo dos anos 2000 (ela venceu seis dos últimos 10 carnavais): rolo compressor. Pois foi assim, com a intensidade de um rolo compressor que Nilópolis cruzou a Avenida, cantando, do início ao fim, da comissão de frente à Velha Guarda, o samba que versa de forma fascinante sobre o enredo 'Amigo fiel - Do cavalo do amanhecer ao Mangalarga', desenvolvido pela comissão comandada por Laíla.

Comandada pelos mestres Plínio e Rodney, a bateria da Beija-Flor mostrou o porquê de suas 'notas 10'
Comandada pelos mestres Plínio e Rodney, a bateria da Beija-Flor mostrou o porquê de suas 'notas 10'

E, junto ao canto a plenos pulmões, podemos somar uma evolução completamente envolvente, com os componentes brincando, sambando e, ao mesmo tempo, concentradíssimos em mostrar sua dedicação e apreço pela história escolhida pela Beija-Flor para marchar em busca de mais um título. Sob o comando sereno, pleno e carismático de Neguinho da Beija-Flor, além de uma bateria desconcertante, chefiada pela dupla Plínio e Rodney, a harmonia da escola ainda foi abençoada por uma chuva torrencial que caiu sobre o Sambódromo durante a passagem da escola, o que só fez incendiar os brios do seu chão, cantando de forma ainda mais voraz a letra do samba, tendo uma resposta imediata das arquibancadas, lotadas por um público que não arredou pé e quis conferir de perto a marcha inesquecível que a Nilópolis promoveu.

Selminha Sorriso e Claudinho: casal de porta-bandeira e mestre-sala da Beija-Flor foi ovacionadíssimo
Selminha Sorriso e Claudinho: casal de porta-bandeira e mestre-sala da Beija-Flor foi ovacionadíssimo

Um ensaio que diz bastante sobre o que podemos esperar da Beija-Flor em seu desfile: em um ano que atenções maiores forma divididas pela atual campeã Unidos da Tijuca e Vila Isabel (como samba mais badalado da temporada), a grande devoradora de campeonatos no século 21 mostrou que, no ritmo do cavalo Mangalarga, cavalgará e passará por cima de qualquer obstáculo, com a força de sua comunidade, em busca de mais uma vitória. A noite deste sábado foi marcada por aquele que, talvez, tenha sido o ensaio técnico mais incrível já visto. E a memória de quem presenciou este ensaio ficou marcada com o que a Beija-Flor promete fazer na noite do dia 11 de fevereiro.

Sambódromo, encharcado após uma bela noite de ensaios sob forte chuva. Neste domingo (20), Vila Isabel e Salgueiro cruzam a Avenida. No dia 3 de fevereiro, a Unidos da Tijuca fecha esta temporada
Sambódromo, encharcado após uma bela noite de ensaios sob forte chuva. Neste domingo (20), Vila Isabel e Salgueiro cruzam a Avenida. No dia 3 de fevereiro, a Unidos da Tijuca fecha esta temporada

Colaborou Beatriz Medeiros

colunaheloisatolipan@gmail.com

Tags: carnaval 2013, ensaio técnico, heloisa tolipan, Portela, porto da pedra

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