Jornal do Brasil

Quinta-feira, 17 de Abril de 2014

Heloisa Tolipan

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Preconceito: histórias reais de Ariadna, Adriana Bombom e tantos outros no país

Empresário da moda, Gabriele Benedetti convoca a todos para a luta contra o racismo e homofobia 

Com Pedro Willmersdorf

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Antes de acompanhar a ação na Praia de Ipanema, na tarde de ontem, que colocou a moda na guerra contra o racismo, a homofobia e o preconceito - promovida pelo dono da grife Brasaimara, o italiano Gabriele Benedetti -, estive na cobertura, na Rua Farme de Amoedo, onde o empresário e as modelos se reuniram. Entre um acerto de roupa e uma maquiagem, conversei com Ariadna Arantes, transexual que participou do reality show BBB, da TV Globo, Adriana Bombom, que tem um quadro no TV Fama, da Rede TV!, com a também ex-BBB Diana Balsini, e as modelos Hanna Ribeiro e Isabel Correa, segundo lugar em dois concursos de Miss Rio de Janeiro (2008 e 2012, respectivamente). Todas engajadas na causa e com histórias de preconceito e racismo difíceis de acreditar que ocorram em um país, que está entre as 10 maiores potências econômicas no mundo, e em uma cidade como o Rio tão plural e que dita moda de Norte ao Sul do Brasil. O preconceito ainda está arraigado no brasileiro quer a gente queira ou não. Como acabar com isso? As armas estão com a geração atual e no poder da educação dos filhos.

Leia os relatos a seguir:

Ariadna mergulhou de corpo e alma na campanha contra o racismo e contra o preconceito idealizada pelo noivo, Gabriele Benedetti. Diz que é conhecedora de carteirinha do que é ser julgada pelas pessoas. "A sociedade ainda é cruel com quem tem uma orientação sexual que não segue o senso comum. Tudo ganha um eco absurdo. Desde muito jovem, eu sentia que era uma mulher e corri atrás do meu sonho de passar por uma cirurgia na Tailândia para mudança de sexo. Nunca me arrependi. E é hora de as pessoas pararem, definitivamente, de julgar o outro pela cor, pela classe social ou pelo sexo". 

"Durante um grande período da minha vida, eu tinha de entrar pela porta dos fundos dos prédios, quando ia visitar uma amiga", dispara Adriana Bombom. Na escola, os colegas mandavam ver no bullying: "Eles cantavam a música da Sandra de Sá que diz: 'Sarará, crioulo'. Eu chegava em casa e perguntava: 'Meu Deus, qual o motivo de a minha pele negra ser tão criticada?'", relembra. E Bombom, qual foi o episódio que mais a machucou? "Eu procurava emprego. Entrei em uma loja que tinha na vitrine uma placa com o aviso: 'Precisa-se de vendedora'. Quando perguntei sobre os requisitos, uma mulher disse: 'Para você, só se for emprego para faxineira ou passadeira'. Você sabe o que é ouvir isso?".

Depois de alcançar a tal fama, Adriana Bombom disse que muita coisa mudou. "Agora, me tratam como celebridade. Mas, eu sei muito bem até onde vai a falsidade do ser humano. Já passei por poucas e boas, minha amiga". 

Diana Balsini, produtora executiva, publicitária, modelo e que teve uma passagem pelo BBB11, foi forte o bastante para assumir em frente às câmeras e para todo Brasil a sua sexualidade. "Nunca devi nada a ninguém quanto ao meu caráter, mas fiquei chocada com a hipocrisia das pessoas depois dos 84 dias de confinamento na casa". Diana conta que as redes sociais serviram para pessoas "inescrupulosas" a xingarem e sempre comentarem sobre a questão de ela também sentir atração por outras mulheres. "Olha, a internet é fundamental nos dias de hoje, mas é um território livre para o preconceito, a arrogância, o racismo de pessoas que se escondem atrás de um computador. Até o Chico Buarque comentou que ficou chocado com tantas críticas negativas que recebeu no Twitter. Confesso que isso me deixou muito triste", desabafa. Diana diz que, atualmente, tem no bolso o projeto de um programa de TV voltado para temas como sexo, comportamento e games. "É bem leve e seria perfeito para mães e filhos assistirem juntos. Vamos quebrar tabus e hipocrisias". Dá-lhe, Diana!

Segundo lugar por duas vezes no concurso de Miss Rio de Janeiro, em 2008 e 2012, Isabel Correa disse que sofreu muito para digerir as colocações. "Acho que existe um preconceito muito grande em relação às negras. A gaúcha Deise Nunes, a primeira e única Miss Brasil negra, na década de 80, sofreu muito para conseguir o título. E depois dela?". Só para vocês saberem: à época, a votação teve de ser repetida três vezes para a confirmação da vitória diante de tantas reclamações de famílias de outras candidatas. Isabel comentou ainda sobre a eleição da angolana Leila Lopes, ano passado, como Miss Universo, na primeira vez que o concurso foi realizado no Brasil. "Todos os brasileiros souberam aplaudir a angolana, mas, por que não sabem eleger uma Miss Brasil negra?". 

Ontem, no post sobre a ação na Praia de Ipanema contei que Isabel Correa saiu de Belford Roxo, na Baixada Fluminense, onde mora com os pais, em direção a Ipanema, Zona Sul, para se encontrar com Gabriele. No trajeto, ela ouviu gracinhas dentro do ônibus e nas ruas por onde caminhou. "Tem vezes que eu me aborreço muito com o que os homens dizem. Sempre falam da minha cor. Hoje até pegaram mais leve. Me chamaram de Naomi Campbell. Mas, isso todo o dia me incomoda". Isabel acrescenta que, em Belford Roxo, sofre menos preconceito do que na Zona Sul do Rio. Triste realidade em um dos locais onde o acesso à educação é muito maior do que na Baixada Fluminense. "Outro dia, fui a um restaurante na Zona Sul com o namorado. Todos me olhavam de forma estranha. É como eu pudesse ler o pensamento das pessoas: 'Olha lá, a prostituta com o gringo'", relembra.

E se você, leitor, tivesse uma avó que não fala com você, porque sua pele não é branca como ela? Por que é filha de uma "mulata do Sargentelli"? É o caso de Hanna Ribeiro, 19 anos, modelo que já fez campanha para Dolce & Gabbana. A moça está de volta ao Rio, mas são constantes as suas idas e vindas a Milão, onde a mãe, Marta Ribeiro, mora há muitos anos desde que se casou com um italiano. "Minha avó paterna não gosta de mim e de minha irmã, porque somos morenas", afirma. E como você lida com essa triste realidade? "Adoro a minha cor. É a cor da minha mãe", diz com orgulho.

colunaheloisatolipan@gmail.com

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Comentários

1 comentário
  • Marcos Lucio Pinto

    Qualquer tipo de preconceito é sinal claro de que ainda não existe o conceito, ou o conhecimento da questão, portanto, isto é sinal de ignorância explícita. Não existe na ciência, na antropologia, na sociologia, na psicnálise, enfim, no meio acadêmico, nenhum suporte ou subsídio mínimo para supor, delirantemente, que ser branco e hétero, por exemplo, demonstra qualquer tipo superioridade .Só é mais conveniente, digamos assim, por causar menos problemas, afinal , o padrão desejado é o heteronormativo e de cor branca, de preferência. Ninguém escolhe ser negro ou homossexual. Isto é tão natural quanto ser branco e hétero, nem mais,nem menos. Somente os "estúpidos" ou problemáticos pensam em "superioridades". Quando a idéia de felicidade depende ou dependeu da humilhação e desprezo por outras pessoas a quem se julgou ou se julga inferiores, torna-se impossível ser feliz deste jeito torto ou perverso.
    Lamentável esse culto ao conceito de felicidade que depende do subjugo, da humilhação, da submissão de outrem. Afinal, conforme certa vez expressou Mahatma Gandhi. "O que mais me impressiona nos fracos é a necessidade que tem de humilhar os outros só para parecerem fortes".
    Marcos Lúcio

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