Jornal do Brasil

Domingo, 17 de Dezembro de 2017

Heloisa Tolipan

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Tem algum ídolo na sua vida? Então, veja um 'Fã-Clube' seminu! 

Uma crônica sobre o mito da idealização de um ser humano. Luciana Maline confere peça no Rio

Com Pedro Willmersdorf

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Está rolando no Rio uma peça que todo fã de algum ídolo deveria conferir: Fã-Clube, em cartaz no Espaço SESC-Mezanino, em Copacabana. E foi o que Luciana Maline, amiga da coluna o fez. Ela analisa a desmistificação daquela celebridade que a gente tanto idealiza em sonhos e que somos capazes de coisas inimagináveis para chegar perto e ter alguns minutos a sós. Acompanhe:

Numa rua desimportante de uma grande capital, uma mulher que possivelmente você saberia o nome caminha sob a luz de hábitos rotineiros. Tudo quase normal até um carro ganhar movimento em uma fileira silenciosa; o sequestro da atriz é precisamente calculado e sem tempo para conclusões. Crime perfeito e a refém ganha rotina evidente no cativeiro físico e altar particular de seus maiores fãs. Mera ficção ou um déjà vu de manchete qualquer? Um mote para a peça Fã-Clube, em cartaz no Espaço SESC-Mezanino, em Copacabana, onde o trio-do-bom-desassossego Igor Angelkorte, Renato Livera e Camila Gama, da Cia Físico de Teatro dá as caras à boca do público na trama que expõe o lado demasiadamente humano da musa; no foco do refletor, a descoberta de manias imperfeitas e segredos desconexos a seus arquivos de fanzocas. Quem iria esperar do ídolo intocável o vício de engolir diariamente a pasta de dente, por exemplo?

De perto, todo mundo é normal, o ausente, porém, é sempre perfeito. É nessa busca por encaixar o desconhecido perfil do outro ao manequim dos sonhos íntimos que os quixotes de plantão esvaziam o espaço distintivo entre o artista e sua obra. Assim como os críticos de botequim que diminuem e ditam a análise da criatura de um criador apenas pelos dados espelhados de sua biografia. 

O que dizer, então, de Chico Buarque e tantas de suas letras que admitem vozes de puritanas à prostitutas? E Machado de Assis, teria protagonizado uma trama de adultério, tal qual a de seu “Dom Casmurro” em primeira pessoa? 

Não se engane, todo o artista é um fingidor. E tomando o fingir por seu sentido originário do ato de dar uma nova feição, torna-se o criador de um universo distinto, limpo de qualquer passado real e recém-nascido da prévia peneira da alma poética. Se qualquer um pode postar no Facebook aquela música que chama de sua-trilha-sonora-com-alguém é exatamente por haver essa autonomia à história de vida de seu compositor. Não queira que seja diferente...

O problema não é o desejo de construir uma sensação de proximidade com o simulacro de verdade voyeurizado pelos buracos da fechadura de artigos e programas de TV. Mas acreditar que a vida privada do artista é levada junto ao pacote já seria ingenuidade demais para esta altura do campeonato. Não há mais como negar: a real intimidade tem a nudez de um biquíni que cai durante o close de um banho de piscina. Só que sem silicone.

Renato Livera, Camila Gama e Igor Angelkorte 
Renato Livera, Camila Gama e Igor Angelkorte 

*** Luciana Maline é do ramo das Letras por formação, fotógrafa por qualificação e amiga da coluna (por coração). 

colunaheloisatolipan@gmail.com

Tags: TV, camila gama, celebridade, copacabana, espaço sesc-mezanino, fã-clube, heloisa tolipan, igor angelkorte, peça, polêmica, renato livera

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