Jornal do Brasil

Domingo, 15 de Julho de 2018 Fundado em 1891
Futebol & Cia.

Futebol & Cia.

Renato Mauricio Prado


Bagá e a rede do mal

Jornal do Brasil

O celular passou zunindo na minha orelha direita e se espatifou no tronco de uma das velhas amendoeiras da Praça General Osório, provocando uma apavorada revoada de pardais. Claro, tomei um baita susto e me virei para ver de onde partia a inesperada e insólita tentativa de agressão. Era ele!

- Desculpe, chefia! Nem tinha te visto. Meu ódio é desse telefone maldito.

Bagá com celular, pra mim, já era uma formidável surpresa. Com uma ira santa contra o pobre aparelho, mais ainda. Mas do sacrossanto crioulo rubro-negro, como se sabe, tudo se pode esperar:

- Mas o que houve, Bagá? Porque espatifou o telefone? Não estava funcionando?

- Funcionava. Bem até demais. Daí o ódio...

Custei a entender o problema e o colosso de ébano, bufando sem paciência, iniciou sua revoltada peroração:

- A questão não é a ligação. Falar ele falava. O diabo é a tal da internet...

- Conexão ruim? – arrisquei.

- Não, chefia! Insuportável é ter que ler as m.... que escrevem aqui!

Só, então, a ficha começou a cair. Até o Bagá, pelo visto, tinha se viciado em acompanhar o mundo pela telinha do celular e não gostava do que via.

- Na minha frente, ninguém tem coragem de me zoar! (Óbvio, pensei eu.) Mas na tal da internet, neguinho lasca cada barbaridade que vou te contar! Depois das semifinais do carioquinha, já quebrei a cara do português da quitanda, dei um corridão no italiano, da banca de jornal, e uns bons pescotapas no botafoguense do açougue. E o pior de tudo é que gostava deles. Eram todos meus parceiros. Mas o que escreveram sobre o Mengão, não engulo, não!

Tentei acalmar o ciclope, explicando-lhe que na internet é assim mesmo, gozações e provocações – e, muito pior, ofensas, insultos, ódio etc – são livres, mas ele não se conformava. E, de repente, mudou o lado da prosa:

- Você diz que é tudo livre, mas noutro fui brincar com um tricolorzinho alegre e veio um bando de gente me xingar, me chamando de “momofóbico” e outros palavrões, que nem entendi No dia da prisão do Lula, fiz uma piada boba, me ameaçaram até de morte! Qual é, chefia, não se pode mais nem zoar com os amigos??

A velha síndrome (e um dos principais defeitos) da internet. Todos querem impor suas opiniões e fazer suas brincadeiras, mas não aceitam e se enfurecem com a dos outros. Por conta disso, velhas amizades vão azedando, admirações de uma vida inteira se desfazendo e o mundo inteiro se resumindo a um Fla-Flu cada vez mais encarniçado, com discursos radicais e estupidamente sem sentido como “nós contra eles”, “pobres contra ricos”, “petralhas x coxinhas”, “esquerda x direita” e por aí vai.

Tentar explicar tal problemática para o Bagá soava como um dos doze trabalhos de Hércules. Preferi o caminho mais curto:

- Melhor pular fora disso tudo, amigo. Essa tal de internet é “do mal” - simplifi quei. Volta pro papo olho no olho, em que há mais calor humano, respeito e cuidado. Até porque, como você mesmo disse, na sua frente, todo mundo é gentil, né? – conclui, rindo.

O monstro coçou a pança, abriu o tradicional sorriso de poucos dentes e muitas gengivas e balouçou a cabeçorra, positivamente. Ato contínuo, com o calcanhar cascudo esmigalhou no chão o que restara do pobre celular, abriu os braços, encheu os pulmões e soltou o vozeirão roufenho:

- Mundo real, tô de volta!

Boa, Bagá! Ah, se todos fossem iguais a você...

Desconfiança 

Bagá já ia pelo meio da praça, quando parou, como se tivesse esquecido de dizer algo, virou-se para mim e berrou a plenos pulmões:

- Chefia, dizem que essa turma do futebol do Fla dá uma importância gigantesca às redes sociais. Deve ser por isso que só fazem m...

Como de hábito, o negão está prenhe de razão.

Confortável

O Fluminense não jogou bem contra o Nacional, mas o placar de 3 a 0 me parece confortável o bastante para garantir sua classificação à próxima etapa da Sul-americana, mesmo tendo que jogar a próxima partida nos 4.000 metros de altitude de Potosí. Abel reclamou das vaias da pequena torcida que foi ao Maracanã (6 mil presentes), mas não tem razão. O primeiro tempo foi horroroso e o tricolor precisa melhorar muito se quiser ter futuro na competição e no Brasileirão.

Boa surpresa 

E o Pablo Dyego, hein? É bom de bola mesmo ou teve apenas uns lampejos? Até Abelão se surpreendeu com ele.



Tags: coluna, futebol, jb, mauricio, prado, renato

Compartilhe: