Jornal do Brasil

Domingo, 22 de Abril de 2018 Fundado em 1891
Futebol & Cia.

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Renato Mauricio Prado


Melhor que o Pelé? Tá bom..

Jornal do Brasil

Atuações de gala de Messi e Cristiano Ronaldo fazem renascer aquela velha (e eterna) polêmica a respeito do melhor jogador do Mundo em todos os tempos. Por conta dela, resolvi desencavar uma antiga crônica que escrevi sobre o assunto. Espero que você goste. 

Tudo começou durante o Globo Esporte. Distraído com seus brinquedos, o garoto – de pouco mais de dez anos – não estava muito ligado na coisa. O pai e o avô, entretanto, vibravam com os dribles e os gols do “negão”. 

- Olha só esse, contra o País de Gales! E esta “boca” no Mazurkiewic... Que golaço contra o Benfica! Meu Deus do Céu... 

Embalados na magia da telinha, o pai e o avô viajavam no tempo, deliciando-se com a genialidade de Pelé – destacada num programa especial em homenagem ao maior jogador do Mundo. Pois foi exatamente quando se falou em “maior jogador do Mundo” que o guri embirrou: 

- Maior do Mundo? E o Zico? 

O pai e o avô se entreolharam, espantadíssimos. 

- Que é isso, menino? Ficou maluco? Olha só o que o crioulo fazia. Desde quando o Zico foi tão bom assim? Quando ele ganhou três Copas do Mundo? Nem repita uma bobagem desta! – ralhou o avô. 

Em sua inocência, o pequeno deu de ombros e, num muxoxo, repetiu: 

- Para mim, o Zico é melhor. E, aliás, o Sócrates e o Falcão também... 

A heresia começava a ficar grave e embora o pai balançasse pacientemente a cabeça, o avô resolveu pegar em armas. 

- O Pelé é tão melhor que o Zico quanto eu sou melhor que você no futebol de botão. Não jogo há mais de 30 anos, mas se você topar encaro um desafio, aposto que ganho. A sua geração pode ser muito boa em videogame. Em botão, que é bom, quero ver.

Agora era irreversível. Apesar dos protestos da mãe e da avó – o almoço já estava para ser servido – a mesa de botão foi armada às pressas e o garoto tratou de ir arrumando o seu time, vistoso e colorido, enquanto ia anunciando solenemente a sua escalação: Fillol, Leandro, Oscar, Mozer e Júnior; Falcão, Cerezo e Zico; Bebeto, Sócrates e Adílio. 

Uma equipe capaz de fazer babar qualquer técnico, na década de 80. Um time insuficiente, porém, para assustar o esquadrão de botões de osso que o avô desencavou do seu baú de guardados: Gilmar, Djalma Santos, Domingos da Guia, Orlando e Nílton Santos; Zito e Didi; Garrincha, Pelé, Leônidas e Zagallo. 

Com a arbitragem do pai, começou a partida e, ganhando o “toss”, o garoto partiu logo para o ataque: 

- Falcão toca para Sócrates, que se livra de Zito e passa de calcanhar a Júnior; cruzamento alto sobre a área, sobe Zico... Vai mais, garotinho... 

Atento na cabeça de área, o botão de Domingos da Guia interceptou a jogada e foi a vez do avô passar ao ataque, igualmente, irradiando a partida:

- Tarde de céu azul no maior e mais lindo do mundo. Cabeça erguida, segue o “Divino” Domingos para o ataque. Um passe precioso para o grande Pelé. Lá vai o Deus de todos os estádios... 

Lá ia, pois a bolinha de galalite escapou-lhe ao controle e, uma vez mais, coube ao menino organizar o ataque, que só não terminou em gol porque o medonho petardo de Bebeto explodiu no travessão de Gilmar. E, logo, a coisa começava a ficar preta para o avô. Mais afeito ao novo material, a seleção do guri ganhava as divididas, chutava e passava com maior precisão e, tudo levava a crer, o gol era apenas questão de tempo. Já um tanto apavorado, o avô tratou de recuar os “arfes” para (no melhor estilo Gentil Cardoso) evitar a “catastre”.

- O almoço está na mesa. 

O aviso da mãe soou como a salvação para o já desesperado avô. Salomonicamente, o pai – no papel de juiz – decidiu: 

- Na primeira bola fora, acaba o jogo. 

O ataque ainda era do pequenino. E era Zico quem tinha a bola dominada. 

- Pra gol! –sentenciou o neto. 

Trêmulo, o avô colocou o seu Gilmar da melhor maneira possível. Veio a bomba e a bolinha bateu no travessão, repicou no cocuruto da caixa de fósforos chumbada que encarnava o goleiro e rolou para o outro lado do campo, indo parar rente à linha lateral, numa posição meio morta.

 - Não saiu, você ainda tem um ataque – disse o pai ao avô, enquanto o pequeno urrava contra o azar e queria dar o jogo por encerrado. 

- É zero a zero mesmo, vô! Pelé não ganha do Zico, nunquinha, viu! 

- Para o gol! 

A decisão do avô surpreendeu o menino. Perto da bolinha não havia um botão sequer em boa posição de chute. O mais próximo – e mesmo assim enviesado e de longe – era o botão de osso número dez. 

- Para o gol, com o Pelé – insistiu o avô.

Displicentemente, o pirralho colocou o seu Fillol na altura da marca do pênalti. O avô calculou a tangência e disparou o Pelé com tudo. Bola de efeito, por cobertura, fundo da rede. Um a zero, fim de jogo. 

Enquanto o avô saía a saltar, socando o ar, em uma alegria de menino, o menino, inconformado, dirigia-se para a mesa, resmungando, como um velho ranzinza, contra essa “maldita mania do Fillol jogar adiantado”. 

O pai? O pai deu um beijo na mãe e saiu a balouçar a cabeça, parafraseando o cronista: 

- Esse crioulo? Esse crioulo, até em botão, é indigesto...



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