Macksen Luiz, Jornal do Brasil
RIO - O musical é um gênero bem mais difícil do que possa parecer um bom roteiro de canções embrulhado em figurinos vistosos.
"Eu sou o samba", em cartaz no Teatro Carlos Gomes, incorre no erro de tratar o musical que pretende ser seleção de sambas, da sua origem à atualidade, como seqüência de composições, que se estende por quadros com pífia estrutura cênica.
Como em qualquer seleção se pode discordar da exclusão de alguma música considerada fundamental para figurar no painel do título, mas os “clássicos” estão todos lá, e este é o maior mérito de uma montagem sem a mesma qualidade das dezenas de sambas que desfilam, com pouco vigor, por dois atos.
O fio de texto que intenciona conduzir a evolução do samba é pouco mais do que rascunho de historietas, que vão se diluindo ao longo do espetáculo até ao ponto de desaparecer, completamente, no segundo ato.
A única tentativa de dar corpo à música se restringe aos quadros iniciais, quando fala-se, ainda que previsivelmente, das origens, e se estrutura o quadro da família convencional que cai no maxixe. São indícios, não desenvolvidos, de que se utilizariam referências ao antigo teatro de revista e às “cortinas” do gênero.
Mas fica nesta suposta intenção, já que há muito pouco além disso, numa montagem em que os figurinos de Rosa Magalhães são bem executados, mas não vestem o elenco senão com fantasias.
A cenografia evidencia a economia de recursos e tem sofrível acabamento.
A direção musical e arranjos de Helvius Vilela respeitam as qualidades do repertório, mas não são suficientes para compensar a modéstia vocal da maioria do elenco. Apesar de se perceber que houve preparação dos atores para o canto, os ensaios talvez não tenham sido suficientes para que ultrapassassem as limitações da maioria deles.
O descompasso entre o roteiro musical e o dos quadros se revela completa dissociação, na pretendida, ao que se imagina, apoteose final, com o elenco cantando o hino nacional, o que era comum nas revistas, mas que neste "Eu sou o samba" fica tão deslocado e já não é suficiente para levantar a
platéia.
[00:35] - 24/07/2008