A oratória da neta de Charles Chaplin

Rachel Almeida, Jornal do Brasil

RIO - A atriz francesa Aurélia Thiérrée costuma ficar danada quando alguém insiste em estabelecer uma relação de seu trabalho com o do avô, Charles Chaplin. Mesmo porque o criador do lírico Carlitos morreu quando a neta tinha apenas 4 anos. Aurélia não pode negar que foi uma daquelas crianças que, filhas de pais artistas, se criaram nas coxias dos teatros, associando labuta e brincadeira.

Não deu para fugir do DNA. Em turnê pelo Brasil com L' oratorio d'Aurélia (O oratório de Aurélia), que chega domingo ao Teatro Municipal, na Cinelândia, a atriz, contorcionista, bailarina e acrobata é dirigida pela mãe, Victória Thiérrée Chaplin, quarta dos oito filhos do mímico e neta de Eugene O'Neill.

O pai é o ator e diretor Jean-Baptiste Thiérrée, que já trabalhou com Federico Fellini, Alain Resnais e Peter Brook. Na França, os Thiérrée-Chaplin conquistaram a alcunha nobre de “a família dos encantadores”.

– O Chaplin influenciou toda uma geração. Não posso dizer que tento lembranças pessoais, sou mais uma fã – esclarece Aurélia ao Jornal do Brasil, por telefone, de Belo Horizonte, onde se apresenta hoje e amanhã, no Palácio das Artes – Assisti a seus filmes e fiquei comovida. Seu legado para mim é bastante abstrato, assim como o do O'Neill.

Estréia aos 3 anos

A delicada atriz tinha 3 anos quando fez seu début nos palcos. Ou melhor, no picadeiro. Criadores do Circo Bonjour, mais tarde Cirque Invisible, num movimento denominado Novo Circo Francês, hoje celebrado mundialmente, os pais sempre fizeram questão de reunir a família em cena. Por isso, tanto Aurélia quanto seu irmão, o ator James Thiérrée, não tomaram a decisão de serem artistas.

– Não tenho uma lembrança clara de como foi, mas uma série de sensações do começo da minha carreira no circo – comenta Aurélia. – Éramos muito pequenos e fazíamos participações nos números de mágica. Lembro que tinha uma aura misteriosa e também excitante de ter que estar ali, àquela hora, todos os dias. Era uma forma de manter toda a família unida.

A união durou até os 14 anos, quando a artista se desligou do circo da família e foi tomar seu rumo. Chegou a se mudar para os Estados Unidos, onde viveu por sete anos. De volta à Europa, morou em Londres, trabalhando como assistente de direção dos espetáculos do grupo cult inglês The Tiger Lillies. Mas o vínculo dos Thiérrée-Chaplin nunca foi cortado. Há cinco anos, estão, inclusive, mais fortes.

Desde 2003, ela excursiona com O oratório de Aurélia, concebido e dirigido pela mãe, que sofreu algumas mudanças ao longo do tempo.

– Fizemos uma apresentação em Cognac (cidade francesa) com 15 minutos do espetáculo – lembra a atriz.

– O sucesso foi tão grande que resolvemos investir em uma produção maior.

Trabalhar intensamente com a mãe foi

um processo prazeroso.

– Ela me conhece como ninguém, então o processo se torna realmente fácil – garante.

- Está autorizada a abusar de mim quando e o quanto quiser.

O oratório de Aurélia foi apresentado em Recife, no ano passado, com sucesso, o que motivou a turnê extensa atual. Depois de Londrina, São Paulo, Santos, Brasília, Recife, Belo Horizonte e Rio, ela segue para São José do Rio Preto, Fortaleza e Salvador.

Em cena, está acompanhada pelo ator e bailarino porto-riquenho, naturalizado americano, Julio Monge. Sem falas, com exceção da cena inicial com recados numa secretária-eletrônica, a encenação recupera elementos mágicos do teatro e do circo.

A dupla contracena com seres imaginários, investindo em truques simples. Entre os mais aplaudidos, está o em que a atriz senta em uma cadeira de cabeça para baixo. Ou o em que o ator leva uma surra de seu casaco.

– O show é bastante artesanal. E é realmente simples desvendar cada um dos truques que está em cena – revela.

– Mas o divertido é quando o público nem tentar desvendar, mas mergulha naquele universo imaginativo.

Entre mãe e filha

A idéia é que a parceria entre mãe e filha perdure.

– Este espetáculo foi construído aos poucos – explica. – Sempre que tínhamos um tempo livre nos reuníamos para criar uma ceninha nova. Agora temos uma idéias em mente que planejamos desenvolver. Queremos elaborar uma continuação de O oratório de Áurélia.

No fim de semana, a atriz esteve no Rio. Passou apenas um dia e meio, mas teve tempo de ir ao festival de artes plásticas Santa Teresa de Portas Abertas e almoçar no restaurante Nova Capela, na Lapa.

– Senti uma energia incrível no Rio de Janeiro. Confesso que estava um pouco receosa de conhecer a cidade, mas adorei. Estou ansiosa para voltar.

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[ 23:21 ]   08/07/2008