Alta Costura vai para as ruas
Criações exclusivas trocam o horário das festas pelo estilo do dia a dia
Quem esperava ver vestidões bordados, plumas e adereços extravagantes nesta semana da alta-costura parisiense que acabou na quinta-feira deve ter levado um susto. Só faltaram as camisetas e as calças jeans, porque as propostas dos grandes criadores giram em torno de tailleurs, capas de chuva (ou trench coats), saias curtas e estampas orientais. Temas bastante banais, aparentemente esgotados pela moda produzida em escala, em medidas padrões.
Esta primeira impressão desaparece diante da riqueza dos tecidos e materiais, caros demais para serem produzidos em massa.
Ok, há capas de chuva. Mas são feitas de tafetá de seda pura e apresentadas como suntuosos longos, decotados nas costas, dignos dos tapetes vermelhos do mundo. Sim, os tailleurs são maioria, dando um arzinho antigo, lembrando o modelo Bar de Christian Dior, de 1949. Mas as tramas se renovam, em tweeds capazes de conter fios de lã, sedas e até retalhos e sobras de tecido. Nada mais moderno do que este reaproveitamento de referências e materiais.
Claro que sobrevivem os longos de gala, cobertos de bordados. Nomes como Elie Saab ainda encontram seguidoras ansiosas por roupas ostensivamente luxuosas. Elas formam o contingente que diminui a cada temporada de lançamentos, e serve para anunciar o fim da alta-costura. Pelo jeito, o que está acabando é este tipo de consumo e desejo de luxo. Porque a roupa sob medida invade as ruas, em manifestação clara da vontade de se distinguir da massa de adeptas do anonimato da fast fashion.

As fotos mostram os destaques da semana.
Armani Privé – Trocou a alfaiataria de sempre pelo colorido e exotismo do Oriente. Homenageou o Japão, onde sua grife vende muito, nas estampas Sakura e na modelagem inspirada pelo corte dos quimonos. Cerejeiras e crisântemos, desenhos até então bastante banais, ganharam a elegância dos modelos e um lindo styling no desfile
Dior – A saída de John Galliano provocou um estilo ainda meio sem rumo. Há boas ideias, ao lado de resultados que tentam reproduzir o jeito glamoroso e inesperado do inglês, que foi demitido do grupo LVMH em março. Saias arredondadas, tecidos com aplicações, cores blocadas – tudo isto está na moda, mas a versão da Dior ficou abaixo do esperado em uma grife deste porte. Note-se que alguns materiais e tecidos já foram vistos nas coleções brasileiras de Patricia Viera (cortes geométricos de couro sobre tela) e Maria Bonita (tecido suíço desenvolvido com geometrias sobre transparência). Vamos aguardar o desfile de setembro e avaliar o que Bill Gaytten e Susanna Venegas, a dupla que substitui Galliano, podem melhorar. Se é que continuam na Dior.
Jean-Paul Gaultier – O rei da irreverência e visionário das tendências aproxima mais as fronteiras das roupas masculinas e femininas. Desde o elenco com o louro Andrej (que veio ao Brasil para as semanas de moda do verão 2012) até Mylène Farmer, atriz e cantora considerada libertina, com canções censuradas pelo conteúdo pornográfico, Gaultier faz da roupa uma maneira de falar de sexo e novos costumes. Faltou a ala de listrados marinheiros, típica do estilista. Em compensação, o trench coat tem uma versão longa, decotada nas costas, maravilhosa. Lembrem que a capa tradicional é figurino dos tarados de rua, no mundo inteiro.

Chanel – A cereja do bolo, o melhor da festa, mais uma vez. O ambiente do Grand Palais foi transformado na Place Vendôme, a praça das joalherias famosas, do Hotel Ritz e do obelisco de Napoleão celebrando a batalha de Austerlitz. Tudo em preto, como se fosse noite, mais o brilho do asfalto, para emoldurar a coleção que combinou capacetes com conceitos de androginia, contrastes de feminino e masculino nos tailleurs e ternos. O destaque vai para os botões, verdadeiras joias. Nos acessórios, olho nas botas de tela transparente e os luminosos sapatos de plataforma. O que impressionou as editoras presentes foi a quantidade de propostas. “Quem quer um tailleur tem dez modelos perfeitos. Para as noites de gala, a escolha fica entre longos retos com camadas e volumes na barra, vestidos cheios de franjas, pregas e plumas ou simples (aparentemente) chemises repaginados com colagens de plumas, repuxados e sedas brancas”, comentou uma analista do WWD (Woman’s Wear Daily, jornal de moda diário americano). Segundo ela, Karl Lagerfeld afirmou antes do desfile que “muita coisa acontece nesta coleção”.

Variedade de opções, identidade com Paris, cidade lançadora de moda do mundo e fidelidade às referências da genial criadora da marca, mais o próprio talento do estilista atual em detectar os movimentos da sociedade: esta é a receita de sucesso da Chanel.

Glossário da moda
Basque – Parte de um casaco de tailleur que fica abaixo da cintura e em geral cobre os quadris
Sakura – Na moda, é a estampa inspirada nas cerejeiras em flor do Japão. Também é nome de várias personagens nos mangás, as revistas em quadrinhos japonesas
Tailleur – Palavra francesa que significa alfaiate, e designa a roupa feminina feita com as técnicas da alfaiataria
Trench coat – Capa de chuva criada pela empresa inglesa Burberry durante a guerra, para proteger os oficiais nas trincheiras (trench, em inglês)
Quem faz a moda
Designer – Adapta para produção os estilos derivados das tendências
Estilista – Adapta para coleções as tendências detectadas nas pesquisas
Criador – Inventa estilos, é referência para as pesquisas de tendências
