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Esportes

Polêmica na Alemanha por decisão de Özil de abandonar seleção

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A decisão do jogador de futebol alemão de origem turca Mesut Özil de deixar a seleção alemã futebol, acusando seus críticos de "racismo", abriu polêmica na Alemanha, enquanto vários ministros da Turquia elogiaram sua luta contra o "fascismo".

"Com muita dor e depois de muitas considerações sobre o ocorrido, não continuarei jogando para a seleção alemã enquanto houver esse sentimento de racismo e desrespeito", declarou Özil, no domingo, em um longo comunicado publicado no Twitter.

Campeão do mundo com a Mannschaft em 2014 e peça-chave para o técnico Joachim Low, Ozil marcou 23 gols em 92 jogos pela seleção.

De acordo com uma porta-voz do governo alemão, a chanceler Angela Merkel respeita a decisão do jogador.

"Como sabem, a chanceler tem muito apreço por Mesut Özil. Mesut Özil é um jogador de futebol que fez muito pela seleção nacional. Mesut Özil tomou agora uma decisão que tem de ser respeitada", disse Ulrike Demmer, porta-voz de Merkel.

No entanto, a Federação de Futebol recusou as acusações de racismo.

O jornal Bilb pedia a saída de Ozil há semanas, depois de o atleta se encontrar com o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, em maio e tirar fotos ao lado do chefe de Estado, também acompanhado de outro jogador de origem turca, Ilkay Gundogan.

A foto valeu muitas críticas, sobretudo, após a eliminação da seleção alemã na primeira fase da Copa do Mundo da Rússia. O encontro foi interpretado como apoio a um líder considerado autoritário pela Alemanha.

O jornal denunciou nesta segunda-feira uma "renúncia cheia de chororô" e reprovou o apoio do jogador a um "déspota" que quer impor uma "ditadura islamista".

Já o ministro turco da Justiça, Abdülhamit Gül, elogiou o jogador: "Felicito Mesut Özil que, ao deixar a seleção nacional alemã, marcou seu melhor gol contra o vírus do fascismo", tuitou Gül.

O ministro turco dos Esportes, Mehmet Kasapoglu, afirmou no Twitter que apoia "totalmente a posição honrada do nosso irmão Mesut Özil".

- 'Alemão quando vencemos, imigrante quando perdemos' -

Nascido na Alemanha e de pais turcos instalados no país, o jogador abandonou sua nacionalidade turca em 2007 para se nacionalizar alemão.

As relações entre Turquia e Berlim estão muito tensas desde a frustrada tentativa de golpe de Estado em julho de 2016. Enquanto Berlim acusa Erdogan de autoritarismo, o mandatário turco não hesitou em comparar a Alemanha atual com a era nazista do país.

O jogador acusa em particular o presidente da Federação Alemã de Futebol (DFB), Reinhard Grindel, ex-deputado conservador que sempre criticou o multiculturalismo durante sua carreira política.

"Para Grindel e os que o apoiam, sou alemão quando vencemos e imigrante quando perdemos", alfinetou o jogador.

Em um comunicado, a federação disse recusar "categoricamente que a DFB esteja associada ao racismo".

- Críticas da extrema direita -

Outros jornais, apesar de criticarem a dureza da carta de Ozil, reconhecem que existe um problema de racismo na Alemanha, onde a extrema direita, representada pelo partido Alternativa por Alemanha (AfD), vive um auge sem precedentes desde 1945.

Segundo a ministra alemã da Justiça, Katarina Barley, "é um sinal de alarme quando um grande jogador de futebol alemão como Mesut Ozil já não se sente representado em seu país por causa do racismo".

O diário Berlim Tagesspiegel denuncia "um ambiente populista no país", onde a renúncia de Ozil abre "uma ferida esportiva, política e social".

O líder da comunidade turca na Alemanha, Gokey Sofuoglu, disse que a "diversidade" da seleção alemã, que até agora foi um "modelo", está ameaçada.

Ozil, que nunca ocultou sua religião muçulmana, está na mira da AfD há dois anos. Alice Weidel, uma das líderes do partido de extrema direita, disse nesta segunda-feira que o meia é "um típico exemplo do fracasso da integração das pessoas que vêm do mundo turco-islâmico".

Desde maio, quando se reuniu com Erdogan, Ozil manteve silêncio. Já Gundogan pediu perdão pelo caso.

Depois da polêmica, o jogador do Arsenal anunciou no Twitter, no domingo, que não voltaria a jogar com a seleção e que não tinha "qualquer intenção política".

"Como muita gente, minhas raízes vão além de um país. Cresci na Alemanha, mas minha história familiar tem suas raízes solidamente arraigadas na Turquia. Tenho dois corações, um alemão e outro turco", acrescentou.

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Agência AFP


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