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Esportes

Tênis: Delpo supera cirurgia no pulso, derrota Federer e chega ao sexto lugar no ranking

Jornal do Brasil ATILA SANTOS Especial para o JB*

Faça sua aposta diante do seguinte cenário: será que um tenista destro, com um problema grave no punho direito, vai voltar a jogar bem - e a ganhar títulos importantes - depois de passar por uma cirurgia e ficar nove meses afastado das quadras (e do circuito)? Não, né? Ou alguém seria capaz de apostar suas fichas no argentino Juan Martín del Potro?... 

É quase impossível imaginar isto neste “contexto”. 

E com um detalhe ainda mais, digamos, perturbador: quando passou pela cirurgia e ficou afastado das quadras, o argentino tinha ganhado, pouco tempo antes, o Aberto dos Estados Unidos  de 2009. Deve ter sido duro. E, certamente, “apareceu” na cabeça dele a possibilidade de não conseguir voltar a jogar em alto nível. 

O argentino Juan Martín del Potro beija o troféu pela conquista em Indian Wells após derrotar Federer, o seu primeiro título de um torneio Masters 1000

Delpo, como é conhecido no circuito, talvez seja um daqueles poucos sujeitos — tenistas ou não — que sintetizam uma frase que já virou quase um ditado: “Sem saber que era impossível, foi lá e fez”. 

E fez bonito. 

E uma curiosidade: a “trajetória tenística” de del Potro começou de maneira um tanto quanto inusitada, meio ao acaso, improvável, pra lá de fortuita. Os consagrados técnicos argentinos Guillermo Gianelloni e Daniel Musacchio, radicados no Rio de Janeiro e com 30 anos de experiência no treinamento de tenistas, contam que, em Tandil, terra natal de Juan Martín — aliás, onde ele mora e vive até hoje —, o garoto gostava mesmo era de jogar... futebol... E, segundo eles, era bom de bola. Até que, um dia, no clube, passou por uma quadra de tênis, “aquilo” chamou sua atenção, e não deu outra: encantou-se por aquele “novo” esporte que acabara de entrar na vida dele. Numa adaptação livre, foi amor à primeira batida. 

Pouco depois do Aberto dos EUA (setembro de 2009) — para ser mais preciso, no início de 2010 —, del Potro começou a ter problemas no punho direito. Já com muita dor no local, disputou em janeiro o Aberto da Austrália e foi eliminado nas oitavas de final pelo croata Marin Cilic. 

Depois disto, Delpo não voltou mais às quadras. Era o momento de parar, de se afastar, de se cuidar. E ele era o número cinco do mundo... 

Em maio daquele 2010, anunciou que tentou evitar uma operação, mas que não teria jeito: era mesmo preciso se submeter a uma cirurgia para corrigir o problema que o impedia de segurar uma raquete de tênis. E foram mais seis meses de afastamento. Nove no total.

Contrariando as apostas, os pessimistas e, talvez, até uma certa lógica, del Potro voltou ao circuito. E é claro que não foi fácil: os primeiros resultados naquele retorno foram pífios, desanimadores. Mas está aqui outra palavra que parece não combinar com o argentino: desânimo. 

Persistente, del Potro — e me perdoem o lugar-comum - deu a volta por cima e retornou ao circuito exatamente um ano após ter conquistado o Aberto dos Estados Unidos: em setembro de 2010, disputou o ATP 250 de Bangcok e perdeu logo na estreia para o belga Olivier Rochus. Era só o começo de uma longa caminhada, na tentativa de voltar ao topo (chegou a estar entre os quatro primeiros) do ranking mundial. 

Depois de tanto tempo parado, era lógico que o argentino de 1,98m despencaria no ranking da ATP: naquele setembro de 2010, era o 36º colocado. E a queda estava só começando. Afinal, após nove meses parado e uma cirurgia — e justamente na sua principal “ferramenta” de trabalho”, o punho direito —, foram quase dois anos de padecimento, de derrotas, de falta de títulos. Só para vocês terem uma ideia: em janeiro de 2011, Delpo ocupava a 236ª colocação do ranking da ATP. E, como não defendeu os 180 pontos que ganhou por ter chegado às oitavas de final no Aberto da Austrália um ano antes (2010), poderia despencar mais de 250 posições, ficando perto de sair do “top 500”. E, naquela época, del Potro tinha apenas 22 anos. 

Até que... 

De tanto “insistir em não desistir”, vieram agosto de 2012 e as Olimpíadas de Londres. O argentino conseguiu chegar à semifinal e, nesta fase, enfrentou ninguém menos do que o então número 1 do mundo, o suíço Roger Federer. E foi uma batalha épica, inesquecível. O confronto entrou para a história como o mais longo duelo em melhor de três sets na Era Aberta (a partir de 1968) do tênis, com 4h26m de duração. O jogo terminou com vitória de Federer. Mas, depois desta partida e da medalha de bronze naqueles Jogos — na disputa pelo terceiro lugar, del Potro ganhou do sérvio Novak Djokovic por 2 sets a 0 (7/5 e 6/4) —, o argentino mostrou que estava “vivo”, de volta, jogando em alto nível e em grande estilo. 

Verdade que passou a, digamos, “pegar um pouquinho mais leve”, especialmente nos golpes de backhand (a esquerda), usando mais os slices — em que a raquete bate na bolinha de cima para baixo, numa espécie de “corte” —, considerados menos dolorosos e mais suaves para quem tem (ou teve) problema grave no punho. 

Depois de alguns bons resultados em 2013 — mas sem nenhum título de expressão (os destaques naquele ano foram uma semifinal em Wimbledon e um vice em Indian Wells) —, no dia 27 de janeiro de 2014 Delpo deu mais uma demonstração de que realmente estava em forma de novo: voltou a ser dele aquela mesma posição que ocupara no ranking da ATP em 2009: quarto.

Assim como em 2013, 2015 foi um ano de reafirmação, com um ou outro bom resultado, mas ainda sem nenhum título de expressão. Em 2016, outros Jogos Olímpicos na carreira de del Potro. Daquela vez, no Rio de Janeiro. E, depois de superar adversários como Djokovic (então número 1 do mundo) e o espanhol Rafael Nadal, Delpo chegou à final. Ele acabou ficando com a medalha de prata ao ser derrotado pelo britânico Andy Murray, mas mandou, para o mundo, mais um recado “à la Cristiano Ronaldo”: “Estou aqui!”. 

Ainda naquele 2016, ajudou — e muito! — a Argentina a conquistar a Copa Davis. Era a mensagem definitiva: del Potro tinha renascido. 

E não parou ali no ano passado, não! Anteontem, na final do Masters 1000 de Indian Wells, nos Estados Unidos, del Potro se superou mais uma vez: depois de perder um match point no segundo set e de salvar outros dois no terceiro, o argentino conseguiu uma vitória mais do que merecida sobre Federer, atual número 1 do mundo, por 2 sets a 1, parciais de 6/4, 6/7 (8) e 7/6 (2), em 2h41m.  Um jogaço, uma aula dos dois rivais; praticamente, um workshop de tênis. 

Foi o primeiro título de del Potro em um torneio do “tipo” Masters 1000, e, de quebra, o argentino acabou com uma invencibilidade de Federer na atual temporada — eram 17 vitórias seguidas — e ainda subiu do 8º para o 6º lugar no ranking da ATP. 

Como se não bastasse, em finais entre os dois, esta vitória em Indian Wells foi a quarta do argentino (incluindo aquela na decisão do Aberto dos Estados Unidos, em 2009), contra duas do suíço. 

E mais: agora, del Potro emplaca uma ótima sequência de triunfos neste ano, com dois títulos — além de Indian Wells, ganhou o ATP de Acapulco, no México — em apenas duas semanas, somando 11 vitórias seguidas.

É, não dá mesmo para duvidar de Delpo, um sujeito que tinha tudo para ser marrento, insuportável, intragável, inacessível, mas que está longe — muuuito longe — de ser assim. Acho que ele nem sabe agir desta maneira... E aí, será que alguém ainda ousa apostar contra ele?!  

*É jornalista e tenista



Tags: argentina, delpo, jogador, recuperação, tênis

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