Jornal do Brasil

Domingo, 26 de Outubro de 2014

Esportes

'The New York Times': Olimpíadas podem fazer país mais feliz, mas não mais rico

Jornal questiona supostos avanços que Jogos Olímpicos poderiam trazer para país-sede

Jornal do BrasilRafael Gonzaga*

O jornal norte-americano The New York Times contestou, em matéria desta quarta-feira (6), as supostas vantagens econômicas que os Jogos Olímpicos trariam para o Brasil. O jornal disse que essa ideia de que grandes eventos esportivos são bons para o crescimento é algo relativamente novo e que o Brasil teria mergulhado em um alarde de infra-estrutura que pode atingir o valor de US$ 25 bilhões – sob o pretexto de aumentar a prosperidade da nação.

A matéria aponta situações de investimento discutível, como os US$ 300 milhões que teriam sido gastos de acordo com o jornal na construção do Arena Amazonas, apesar de a equipe profissional de futebol da cidade concentrar regularmente menos de dois mil torcedores por jogo.

O jornal alega que, surpreendentemente, existiriam poucas evidências de que grandes eventos esportivos aumentem o turismo ou estimulem determinantemente novos investimentos. Segundo o Ney York Times, realizar gastos exorbitantes em um evento de curta duração seria economicamente uma estratégia duvidosa, quando observada a longo prazo. Estádios, por exemplo, seriam uma linha de investimento que o jornal classifica como particularmente ruim, visto que custariam muito e produziriam benefícios econômicos mínimos.

Outro ponto que a matéria aborda é o de que seria enganoso calcular quanto dinheiro é gasto em uma cidade durante as Olimpíadas, visto que uma comparação justa necessita de estimativa do quanto teria sido gasto sem os jogos. Ele aponta que a chegada dos jogos impõe impactos negativos em outros setores, que sem eles funcionariam normalmente. O jornal exemplifica com os Jogos Olímpicos de 2012, quando por ocasião do evento esportivo o Teatro Adelphi de Londres suspendeu apresentações de “Sweeney Todd”, além de quedas consideráveis no número de visitantes em museus.

Os Jogos Olímpicos sempre teriam sido, de acordo com o The New York Times, objeto de desejo de países economicamente emergentes, como o Japão em 1964, a Alemanha em 1972 ou a China em 2008 – e haveria realmente alguma evidência de que funcionava. O jornal pontuou que um estudo de 2009 apontava que países que hospedam os jogos experimentam um aumento significativo de comércio. Contudo, o estudo, realizado por economistas da Universidade da Califórnia e do Federal Reserve Bank, disse que os países gastavam muito em investimentos para que houvessem os jogos. Ou seja, de acordo com o estudo, o benefício vinha pelo país ter sido aberto à negociações externas, e não propriamente a partir dos gastos internos.

O The New York Times diz também que o Brasil estaria ansioso para sinalizar ao mundo seu poderio econômico, mas que os Jogos Olímpicos poderiam macular uma característica já reconhecida internacionalmente: seu acolhimento. Em outro estudo mencionado pelo jornal, dessa vez sobre impactos das Olímpiadas de Sydney em 2000, pesquisadores australianos descobriram que sul-africanos haviam desenvolvido uma antipatia pela Austrália por conta da maneira como a questão aborígene foi destacada na mídia da África do Sul, estabelecendo pontes com a história de apartheid do país africano.

O jornal diz que, segundo economistas que avaliam o impacto de grandes eventos esportivos, não foi encontrada nenhuma mudança real na atividade econômica em países que sediaram os jogos. A razão clara para isso seria somente o fato de que as pessoas simplesmente gostam de sediar grandes eventos e que os especialistas tendem a prestar mais atenção ao fator econômico do que à felicidade das pessoas porque o dinheiro seria mais fácil de contar. De acordo com o jornal, os jogos podem fazer uma população mais feliz, mas não vai torná-la mais rica.

*Do programa de estágio JB

Tags: brasil, economia, estádios, gastos, investimentos, Jogos Olímpicos, lucros, olimpíadas

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