Jornal do Brasil

Quinta-feira, 23 de Outubro de 2014

Esportes

Torcidas violentas argentinas podem chegar armadas ao Brasil

Portal Terra

Responsáveis por conflitos que mataram ao menos 72 pessoas nos últimos 10 anos, as torcidas organizadas argentinas, conhecidas como Barras Bravas, estarão nos jogos e na concentração da seleção de Lionel Messi no Brasil. Informações de agentes de segurança que acompanham a movimentação apontam que integrantes dessas barras estão no Brasil e devem chegar com armas ao Rio de Janeiro, onde o jogo é contra a Bósnia no dia 15.

Por conta de uma lista de mais de mil nomes de torcedores com histórico de violência em eventos esportivos, alguns integrantes das organizadas argentinas podem ser barrados na fronteira do Rio Grande do Sul, e por isso, o caminho alternativo seria a entrada pela Bolívia e Paraguai, segundo tem noticiado a imprensa local.

No Brasil os torcedores das barras já têm recepção garantida. Os torcedores ligados ao grupo Hinchadas Unidas Argentinas (HUA), composto por barras de diversas equipes da Argentina, devem ficar hospedados em Sapucaia do Sul (RS) na Copa do Mundo, sob os cuidados do líder da torcida colorada Guarda Popular Gilberto Viegas, conhecido como Giba.

Ele negociou com líderes da barra do Independiente no final de março, prometendo ingressos vindos de políticos brasileiros (cerca de 200, segundo declarações dele ao jornal Olé) e outras benesses. Ao Terra, Gilberto negou que tenha esses ingressos. O jornal Clarín, da Argentina, publicou em 19 de maio que a Federação de Futebol Argentina (AFA) cedeu ao grupo HUA 900 ingressos para a Copa, 500 deles para revenda no Brasil. A AFA nega a informação. 

Integrantes da torcida Guarda Popular próximos de Viegas, que preferem o anonimato por conta da repercussão que a vinda dos argentinos tem causado, disseram que não tem conhecimento de qualquer informação sobre a entrada ou disponibilização de armas para as Barras. Eles disseram ainda que os argentinos são pessoas conhecidas da torcida gaúcha, ligados ao Independiente, e que a Brigada Militar (PM local) e demais autoridades brasileiras foram informadas sobre a vinda dos torcedores.

Mas Viegas, na verdade, assumiu a recepção dos argentinos depois de o ex-líder da Guarda Popular Hierro Martins desistir da empreitada. Segundo o jornalista Gustavo Grabia, do Clarín, Hierro se negou a facilitar a entrada de armas brancas e drogas, e por isso as barras resolveram negociar com seu principal rival, Viegas.

Quando questionados sobre o risco das Barras no Brasil, as autoridades desconversam. As polícias temem qualquer vazamento de informações sobre o que está sendo investigado, para não prejudicar ações futuras das forças de segurança. Entretanto, Viegas foi convocado para conversar com a Polícia Civil de Sapucaia do Sul nesta sexta-feira sobre a vinda dos argentinos.

No Rio Grande do Sul, a Brigada Militar está de prontidão desde o dia 21 de maio, com os batalhões da Copa e o Batalhão Especial de Pronto Emprego (Bepe) na capital. O planejamento contempla o atendimento a todos os torcedores que vão estar no Rio Grande do Sul, não só argentinos. Foco em aeroportos, hotéis, rodoviária, pontos turísticos. Há planejamentos específicos para dias de jogos do Brasil, dias de jogos em Porto Alegre, dias sem jogos em POA e do Brasil. “Nosso planejamento está pronto”, afirma o Comandante do Batalhão Copa, coronel João Diniz Prates Godoi.

“Quanto aos argentinos, até o momento não temos nenhuma notícia de ingresso de qualquer torcedor no Estado. O acompanhamento é feito pelo setor de inteligência da Brigada, e até agora não recebemos nenhum tipo de informação sobre o ingresso, tanto de torcedores quanto de armas. Todos os sistemas de inteligência em nível estadual, municipal e federal estão integrados. Como eu sou a parte operacional, até agora eu não recebi nenhuma informação a respeito dessas situações”, completou.

A coordenação das ações policiais durante a Copa são feitas pela Secretaria Extraordinária de Segurança para Grandes Eventos (Sesge), vinculada ao Ministério da Justiça, que afirma ter um trabalho permanente de cooperação internacional com os países envolvidos na Copa. Junto a isso as policias estaduais e federais estão identificando torcedores que possam protagonizar atos de violência.

A lista fornecida pelas autoridades argentinas contém nome de torcedores que respondem a processos ou se envolveram em atos de violência em jogos de futebol. Cada caso será avaliado pela segurança local.

Barras na África do Sul

As Barras Bravas viajaram organizadas pela primeira vez na Copa de 2010, e a proximidade deve aumentar bastante a participação: 1,2 mil torcedores argentinos devem chegar em solo brasileiro. Nos últimos 40 anos, a violência relacionada as torcidas organizadas argentinas já deixou um saldo de 187 mortos.

A primeira Copa com a participação das torcidas organizadas argentinas no exterior foi a da Espanha, em 1982. A presença se repetiu em 1986, no México, onde a Argentina venceu a competição, e também na França, e 1998. Mas o marco da violência destas torcidas ocorreu na África do Sul, onde episódios de agressividade resultaram na prisão e deportação de 10 torcedores, entre os 130 que foram ao país.

A ONG Hinchadas Unidas Argentinas (HUA) surgiu em 2009, formadas por torcedores de diferentes organizadas, com o intuito de arrecadar fundos para o mundial sul-africano. Tendo em vista a facilidade de acompanhar a Copa no Brasil, 38 organizadas voltaram a se reunir com o objetivo de conseguir ingressos para as partidas e impedir, por via judicial, a entrega da lista com o nome dos envolvidos em episódios de violência.

A advogada da organização, Débora Hambo, afirma que as barras têm ingressos obtidos pelas suas relações no Brasil. No início de maio, torcedores ligados à HUA protestaram contra a ausência de torcida visitante nas partidas na Argentina e disseram que vêm ao Brasil em clima de "não-violência". Ao Terra, Débora declarou que considera errada a atitude das polícias em criar uma "lista negra" de torcedores. "A informação é vinculada com os antecedentes deles. Os antecedentes são propriedade exclusiva dos titulares dos dados, porque existe o 'direito ao esquecimento'. Esse direito existe para reinserir na sociedade aqueles que têm suas condenações cumpridas. É importante não estar condenado por toda a vida", diz a advogada. 

Tags: Argentina, barras, estádios, Mundial, violência

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