Jornal do Brasil

Sexta-feira, 29 de Agosto de 2014

Esportes

Craques mirins do Alemão sonham em assistir a Copa

Moradores do "berço de craques" estão desanimados para o mundial

Jornal do BrasilCamila Funare*

O campo é humilde: As traves são velhas e as grades enferrujadas, mas para os craques mirins da comunidade da Matinha, no Complexo de Favelas do Alemão, isso não parece ser muito importante. Mais de 130 crianças participam da escolinha de futebol da Organização Não Governamental (ONG) Educap, no campo do Sargento, e tem o sonho de se tornar o próximo craque do Brasil. Contudo, segundo a presidente da ONG, Lucia Cabral, muitos nunca visitaram se quer o estádio do Maracanã, quanto mais pensaram em assistir aos jogos da Copa do Mundo, em junho.

Quando o assunto foi o mundial, o pequeno jogador de 8 anos, Gabriel da Silva, foi primeiro a desabafar: “Deve ser muito divertido ver todos aqueles jogadores famosos”. O menino, que sonha em ser jogador como seu irmão mais velho, que hoje joga no time juvenil do Flamengo, não faz ideia do preço dos ingressos, mas sonha alto. Com apenas 13 anos e uma carreira promissora, o irmão de Gabriel foi mais um “achado” no Complexo do Alemão, de onde também saiu o atual jogador do Atlético Paranaense, Adriano ou, mais popularmente conhecido, “o imperador”.

Para o técnico do time mirim, Vagner Silva, de 31 anos, que se classifica "nascido e criado no complexo", a expectativa das crianças vai além da Copa. "Eles ficariam felizes em simplesmente pisar no gramado de um estádio. Muitos craques estrangeiros, também ídolos da molecada, vão vir para o evento. Eles ficam doidos, mas muitos nem comentam sobre a possibilidade de ir, pois sabem que é um sonho distante. Ninguém aqui da comunidade vai pagar R$ 200 em um ingresso, porque vai faltar nas compras de mercado do mês", explicou o treinador.

Não é de hoje que as comunidades cariocas são consideradas o “berço dos craques” do futebol brasileiro. Contudo, será que essas pessoas que assistiram de perto o talento desses meninos e, que também são apaixonados pelo esporte, terão a oportunidade de assistir, da arquibancada, um jogo da Copa do Mundo? Para Thainá Medeiros, museólogo da ONG Observatório de Favelas, não.

De acordo com Medeiros, que mora e trabalha a 3 anos no Complexo do Alemão, os jogos são para uma classe específica. “Desde a Copa das Confederações ficou bem claro que os eventos internacionais que o Brasil está sediando não têm o objetivo de atingir um público de baixa renda. Os preços no Maracanã, por exemplo, desde a sua reinauguração, também refletem essa ‘inflação esportiva’. Os valores dos ingressos da copa são, apenas, mais um braço de todo esse abuso”, disse.

Ainda segundo o museólogo, as ruas do Alemão não devem ficar tão “verdes e amarelas” este ano, como nas copas anteriores. “Não estou vendo tanta movimentação no sentido de enfeitar as ruas e organizar eventos coletivos. As conversas em torno dos jogos da copa são sobre como assistir em alguma TV na casa de alguém. Mas ao vivo? Em algum estádio? Não conheço ninguém. Talvez seja por isso que não haja empolgação: Ver um jogo que está acontecendo na sua cidade pela televisão não é bacana”, explicou.

Crianças treinam no campo do Sargento, na comunidade da Matinha, no Complexão do Alemão
Crianças treinam no campo do Sargento, na comunidade da Matinha, no Complexão do Alemão

O artista plástico Ângelo Campos, de 32 anos, é um exemplo citado por Medeiros. Nascido e criado no Complexo de Favelas do Alemão, o morador disse que se recusa a pagar por um ingresso tão caro, como o da copa. "Eu não vou assistir por causa do valor da entrada. Acho que o valor dessas entradas tem uma estratégia de estética: agradar os turistas estrangeiros e excluir a população da favela, que apesar de ser maioria na cidade, é vinculada à marginalidade. Somos vistos como um problema social", afirmou.

Campos explicou que, além de não terem condição financeira para arcar com os ingressos, muitos moradores da comunidade vão aproveitar a circulação na cidade para trabalharem como ambulantes informais. "Para o pobre, a única vantagem do mundial é a demanda de turistas, que permite a venda de bebidas e comidas nos arredores dos estádios", contou o artista.

De acordo com Lúcia Cabral, assim como também para todos os entrevistados na matéria do Jornal do Brasil, o preço dos ingressos não levou em consideração o piso salarial do brasileiro. “O país vai ganhar tanto dinheiro com o turismo, porque não facilitar a participação dessa população de baixa renda nos eventos? Em nenhum momento foi analisado que o salário mínimo do brasileiro é igual ou menor ao preço de muitos ingressos à venda para a Copa. Nós que vimos muitos meninos conquistarem seu espaço no gramado não vamos nos alegrar com o sucesso deles", disse.

Todos os entrevistados nesta matéria também afirmaram que, para um morador do Complexo de favelas do Alemão, assistir a um jogo da seleção brasileira na Copa do Mundo seria um marco histórico em sua vida. Contudo, nenhum deles soube informar ao Jornal do Brasil algum conhecido que tenha comprado ou, pelo menos, pesquisado os valores das entradas.

*Do projeto de estágio do Jornal do Brasil 

Tags: alemão;, comunidade, copa;, fifa;, rio;

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