Jornal do Brasil

Sexta-feira, 28 de Novembro de 2014

Esportes

Com estádio da Copa, MT tem média de 640 pessoas em Estadual

Portal Terra

Ao custo de R$ 570 milhões só para a Arena Pantanal e um forte trabalho de bastidores do então governador Blairo Maggi, o Mato Grosso conseguiu ser uma das sedes da Copa do Mundo. O estádio com padrão Fifa tem 95% das obras concluídas, receberá quatro jogos do Mundial, mas dá para se dizer que o futebol local ainda não saiu dos primeiros tijolos. 

Com dois desistentes, o Estadual do Mato Grosso tem nove clubes participantes e média de 640 torcedores por jogo, segundo levantamento do site especializado Sr Goool. Para se ter uma noção do pouco apelo, as 14 partidas já disputadas totalizam 14.204 pagantes, insuficiente para preencher um terço dos 42.968 lugares da Arena Pantanal. 

Experiência administrativa para aproveitar o boom da Copa, por sinal, não falta a Carlos Orione. À frente da Federação Mato-Grossense de Futebol desde 1979, Orione é o presidente mais longevo entre todos de sua categoria no Brasil, mas não tem satisfeito os clubes afiliados - seis deles pediram mais transparência. De quebra, o Ministério Público do Estado do Mato Grosso intimou a Federação a apresentar contratos após receber denúncia de possíveis irregularidades. 

?Enquanto a Federação não consegue seduzir a população local para ir ao estádio, alguns clubes têm conseguido ótimos resultados. Graças, principalmente, às próprias iniciativas. O Luverdense, por exemplo, meses depois de endurecer a vida do Corinthians na Copa do Brasil, recolocou o Mato Grosso na Série B do Campeonato Brasileiro pela primeira vez após 18 anos. O Cuiabá lutou contra o rebaixamento, mas jogará também a Série C em 2014. Ainda assim, nada que possa sugerir um reflexo da Copa no futebol sem tradição do estado. 

A fórmula de disputa do Mato-Grossense 2014 merece atenção. Um grupo tem cinco equipes, o outro tem outras quatro. Elas se enfrentam dentro da própria chave, em turno e returno, para definir oito classificados. É isso mesmo: quatro equipes se enfrentam por seis rodadas para que as mesmas quatro se classifiquem até o mata-mata. Assim fica difícil atrair público. 

Entre os estádios com atrasos para a Copa do Mundo que começa em menos de quatro meses, a Arena Pantanal custa cerca de R$ 570 milhões, além do inicialmente previsto de R$ 454 milhões. 

À parte a Copa do Mundo, seu uso além de duelos regionais deve ser restrito à Copa do Brasil (Mixto-MT x Santos), e à Série B, com o Luverdense. A distância entre Cuiabá e Lucas do Rio Verde, porém, é de cerca de 400 quilômetros.

No Mundial, são quatro jogos previstos para Cuiabá, sempre na primeira fase: Chile x Austrália, Rússia x Coreia do Sul, Nigéria x Bósnia, Japão x Colômbia. 

Vila Aurora e Sorriso, desistentes, prejudicaram o sistema de disputa. O último não tinha presidente e sequer voluntários para assumir o cargo deixado por Celso Kozak. Já o primeiro sofreu com desavenças internas e também abdicou de participar. Curiosamente, o mesmo Vila Aurora havia conseguido o direito de participar da competição via STJD, mas abriu mão. Os casos não são novidade: em 2013, o Crac-MT também desistiu de jogar a primeira divisão. 

Futebol de base praticamente inexiste no Mato Grosso

Se nos profissionais as condições são ruins, quem dirá a base mato-grossense. Até as equipes consideradas mais fortes na capital, como o Mixto-MT, mais tradicional, e o Cuiabá, um emergente, sequer têm trabalhos regulares com os jovens. Os times são montados esporadicamente para os Estaduais Sub-19 e Sub-17. 

A exemplo do que ocorre nos profissionais com o Luverdense, as divisões de base do estado mostram progresso graças a ações isoladas. Referência no trabalho de formação, o Rondonópolis Esporte Clube venceu os torneios Sub-17 e Sub-19 do ano passado e vem de boas campanhas na Copa São Paulo já há três anos. Assim, projetou garotos do Estado para as bases de clubes como Fluminense, Palmeiras, Cruzeiro e Internacional, em que atua o garoto Valdivia. 

Em entrevista recente ao Blog Futebol Clube, no Terra, Helmute Lawische contou as dificuldades em gerir o Luverdense, clube mais sólido do futebol profissional do Mato Grosso. Segundo o presidente, foram sete edições consecutivas sem receber R$ 1 da CBF. O progresso do último ano foi o custeio das passagens aéreas, graças a uma parceria firmada pela entidade. 

"O Mato Grosso é uma terra de oportunidades, agora uma terra de oportunidades para quem sabe fazer futebol. Eu conheço o Brasil inteiro, muitos lugares fora do Brasil, e aqui é espetacular", contou Helmute. "Hoje o futebol tem uma cultura muito errada. Tem muito dinheiro para poucos clubes e pouco dinheiro para muitos clubes", reclamou. 

Sem apoio da Federação, sem apoio da CBF e sem uma competição local forte no primeiro semestre, o Luverdense vai à Série B sem saber se poderá levar os mato-grossenses à elite do Brasil. Com estádio de padrão de Copa do Mundo e um futebol pobre de modo geral, o Mato Grosso só verá esporte de alto nível durante alguns poucos dias. 

Tags: Campeonato, fiasco, futebol, mato grosso, público

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