Jornal do Brasil

Sexta-feira, 24 de Outubro de 2014

Esportes

Copa 2014 terá trabalho de 18 mil pessoas sem remuneração

Mesmo com lucro, Fifa contará com trabalho voluntário para execução de diversas atividades 

Jornal do Brasil

A Fifa vai ter um lucro em torno de US$ 3 bilhões com a Copa no Brasil, mas 18 mil pessoas vão trabalhar sem remuneração. Eles se preparam para prestar serviços durante os jogos do Mundial, com jornada de até 10 horas diárias. Milhares de pessoas de todos os estados brasileiros e de outros países se candidataram. A legislação brasileira diz que o trabalho voluntário só deve ser prestado a entidades sem fins lucrativos. Ano a ano, de acordo com números da própria entidade, ela registra lucros e paga salários altos aos funcionários. Mesmo assim, de acordo com a legislação suíça, ela é uma associação sem fins lucrativos. Por isso, também, a Fifa não paga impostos. 

Os voluntários vão trabalhar com garantia de alimentação, transporte na cidade-sede, o uniforme que precisarão vestir e seguro, mas não ganha remuneração, hospedagem e transporte até a cidade-sede. Só é preciso ter mais de 18 anos, ficar disponível por mais de 20 dias corridos no período do evento e estar disposto a trabalhar até 10 horas por dia. Em 2010, na África do Sul, o programa apresentou falhas antes, durante e depois do torneio, de acordo com reportagem do Portal 2014, que entrevistou a arquiteta Lilian Oliveira, que fez parte do grupo. Ela também trabalhou nos Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro em 2007 e disse que a organização da Fifa precisa melhorar.

Voluntários da Copa de 2010 apontaram falhas na realização do programa
Voluntários da Copa de 2010 apontaram falhas na realização do programa

Durante a Copa das Confederações, no ano passado, a média de ausência dos voluntários foi de 30%, segundo informações divulgadasdo Comitê Organizador Local (COL) do torneio. De acordo com o gerente de Voluntariado do COL, Rodrigo Hermida, alguns voluntários se inscreveram mas sequer se apresentaram para trabalhar, enquanto outros desistiram durante o evento.

A Fifa lucrou US$ 89 milhões em 2012 chegando a US$ 1,37 bi em reservas, como mostra aponta Rodrigo Capelo em artigo na Época Negócios. A receita de 2012, como divulgou a entidade em março do ano passado, foi de US$ 1,16 bilhão, vinda principalmente da venda de direitos de transmissão e patrocínios. As despesas ficaram em US$ 1,07 bilhão. Como apontou Capelo em seu artigo, o salário do presidente Joseph Blatter não é revelado, mas o balanço da entidade mostra pagamento de US$ 33,5 milhões a um grupo de executivos considerados "chave". 

"Na equação da Fifa, há receitas gigantescas de um lado e despesas muito mais baixas do que as de governos e clubes, aqueles que têm de financiar estádios e salários dos atletas que estarão na Copa. No fim, há lucro todo ano, um resultado que melhora nos anos mais próximos da realização do evento (...). Assim, as reservas financeiras da Fifa – que mantém o status de 'associação sem fins lucrativos' e, portanto, fica livre de pagar impostos – crescem sem parar. E você achava que negócio bom era a China", concluía Capelo.

Em 2012, a Comissão de Trabalho, de Administração e Serviço Público da Câmara dos Deputados realizou Audiência Pública para tratar do assunto. A iniciativa, do deputado Laercio Oliveira (PR-SE), terminou sem um consenso entre os deputados, empresários e dirigentes do governo federal.

"Eu entendo que a Fifa não se enquadra no 'sem fins lucrativos'. O esporte é importante. Aliás o futebol é um esporte muito profissional, traz muito dinheiro para muita gente. Mas o Brasil deveria dar o exemplo para o mundo, acabar com esse negócio de explorar voluntários, principalmente nos países mais pobres. Precisa acabar com isso. O lucro da Fifa não pode se tirar do direito do trabalhador, do salário do trabalhador", disse Ermínio Lima Neto, da Federação Nacional das Empresas de Serviços de Limpeza, na ocasião.

Já o deputado Laercio reforçou que, como somos um país com um bolsão de jovens desempregados, esta seria uma oportunidade das pessoas serem inseridas temporariamente em uma atividade esportiva, com os resultados econômicos que a gente sabe que gerará. "Quer gerar mão de obra do meu país? Acho válido. Agora, pague por isso", alertava o deputado. 

O representante do Sindicato dos Empregados nas Empresas Prestadoras de Serviços e de Trabalho Temporário no Estado de São Paulo (Sindeepres), Amâncio Luís Coelho Barker, disse que pode até ser legal, mas o voluntariado de 18 mil pessoas na Copa não é justo com o trabalhador. 

Já o representante da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e do Comitê Organizador Local (COL) da Copa do Mundo, Weber Magalhães, destacou que o trabalho voluntário no evento esportivo ocorrerá dentro da legalidade e do compromisso de que a organização se responsabilizará pelo material, o transporte e alimentação dos ajudantes.

A secretária de Inspeção do Trabalho do Ministério do Trabalho, Vera Lúcia Albuquerque, por sua vez, informou na ocasião que o trabalho voluntário a ser executado na Copa do Mundo de 2014 está de acordo com a Lei do Serviço Voluntário (9.608/98). Apesar disso, garantiu que a fiscalização ficaria atenta para evitar que haja uma explorações desses trabalhadores.

Há os que defendem a escolha pelo trabalho voluntário, também, pela questão da burocracia que exigiria contratar 15 mil pessoas para um trabalho de 20 dias, como publicou Lívia Macedo, que já trabalhou em eventos esportivos como voluntária, em publicação na internet. 

"É preciso compreender que mega eventos necessitam de um numerário enorme de pessoas auxiliando em diversos tipos de tarefas e seria inviável 'contratar' profissionais para todos os postos, até mesmo por conta de diferenças na legislação, nos custos de cada contratação e dificuldades burocráticas em cada país.(...) Na minha experiência como voluntária em 2007, ganhei e aprendi muito: contatos com federações, conversas com profissionais com vivência e experiência maior que a minha em muitos eventos, indicações para outras empreitadas, pratiquei idiomas e como servir bem, e servindo pessoas que gostam e praticam esportes, assim como eu".

De acordo com a lei 9.608 de 1198, que trata do serviço voluntário, considera-se serviço voluntário a atividade não remunerada prestada a entidade pública ou instituição privada de fins não lucrativos, que tenha objetivos cívicos, culturais, educacionais, recreativos ou de assistência social. Trata-se, então, de um serviço solidário, altruístico, que não contribua para uma vantagem econômica da entidade. 

A Fifa diz que é uma associação sem fins lucrativos de acordo com as leis suíças e que descreve no seu estatuto a obrigação de investir todo o lucro no desenvolvimento do futebol e de eventos relacionados ao futebol. "Embora a Fifa esteja sujeita ao regime de tributação normal para associações na Suíça, a situação específica da entidade como associação sem fins lucrativos é plenamente tida em conta pelas autoridades tributárias suíças. Mais de 75% da renda é diretamente investida na organização de competições e projetos de desenvolvimento", disse o Departamento de Imprensa por e-mail. 

O Departamento de Imprensa da Fifa informa que o programa de voluntários é um dos principais responsáveis pela atmosfera de celebração, integração e intercâmbio cultural que faz da Copa do Mundo da Fifa um evento tão especial. O programa tem a capacidade, reforça, de ampliar a experiência da Copa do evento a um público muito maior que jogadores, técnicos e público presente no estádio, incluindo e integrando diferentes culturas, idades, países e camadas sociais, além de pessoas com deficiências. 

"A enorme procura nos últimos programas de voluntários da Copa do Mundo da Fifa mostra o interesse de pessoas do mundo todo por uma experiência que, embora não remunerada, representa uma satisfação pessoal inigualável. Esse sucesso pode ser observado não apenas na Copa do Mundo da Fifa, mas também em diversos outros grandes eventos de porte internacional, esportivos ou não", disse ao JB. 

A entidade destaca que as áreas para os quais os voluntários prestarão serviço envolvem orientação aos fãs e à imprensa, serviço de idiomas, transporte, protocolo, entre outras. Eles passam por um período de treinamento, elaborado de acordo com a função que vão exercer, "o que capacitará milhares de pessoas para eventos futuros e, em muitos casos, impactar positivamente a vida profissional dos participantes". A Fifa também reforça que como legado, ficará ainda a ampliação da cultura do voluntariado, fazendo com que a Copa do Mundo da Fifa seja a primeira de outras experiências que virão para os moradores de um país que se posiciona cada vez mais no roteiro de grandes eventos internacionais.

"A Copa do Mundo da Fifa representa a principal atividade da Fifa , e o montante gerado por meio da exploração global da Copa do Mundo da Fifa representa a grande maioria da renda gerada pela entidade durante o ciclo de quatro anos entre duas edições do torneio. Esses rendimentos servem não apenas para financiar os custos e despesas da Fifa em conexão com a Copa do Mundo da Fifa , mas também para financiar todas as atribuições estatutárias da entidade, compreendendo todas as 34 competições atualmente realizadas a cada ciclo de quatro anos, inclusive os torneios de base e femininos. Servem também para apoiar financeiramente as seis confederações continentais e 209 federações nacionais de todo o mundo, muitas das quais não poderiam sobreviver sem esse apoio. Além disso, financiam todas as campanhas de desenvolvimento e responsabilidade social corporativa da Fifa", afirma.

Tags: Copa, Fifa, Mundo, Trabalho, voluntário

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