Jornal do Brasil

Segunda-feira, 20 de Agosto de 2018 Fundado em 1891

País - Editorial

Novo tempo para a mulher

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Um maior número de mulheres nas chapas para a próxima eleição majoritária e o reconhecimento de um justo critério para sua participação na distribuição dos recursos do Fundo Partidário contribuem para reativar atenções sobre o papel feminino na política nacional; um papel sempre desejado e defendido, mas nunca suficientemente contemplado. Outra contribuição, no presente momento, é a abertura de ampla discussão sobre a eficácia da Lei Maria da Penha, importante documento a exigir reajustes, de forma a conferir consistência a seus objetivos, longe de estarem suficientemente atingidos, já que sobrevivem trogloditas da violência.  

Mas o que importa considerar, na abertura da campanha eleitoral, são os sinais de uma crescente participação delas, como haviam revelado as convenções partidárias, das quais resultou a candidatura de duas mulheres à Presidência da República e quatro para disputar a vice. Números não registrados em disputas anteriores. Numa visão geral sobre os  preparativos eleitorais nos estados, apurou-se que mais de 60 foram lembradas para compor chapas. Alvíssaras!, como diria Doutor Ulysses, na promulgação da Constituição de 88, ainda frustrado, ao lembrar que da elaboração do documento maior haviam participado apenas 26 deputadas, nenhuma senadora.

Sob o clima das disputas e das negociações entre convencionais, não escapou o fato de que em muitos casos elas foram instrumento de composições emergenciais; mas seria equívoco achar que não têm competência para cativar a confiança de eleitorado. Podem arregimentar votos em terrenos muitas vezes resistentes aos homens, principalmente quando eles forem figuras já desgastadas.

Fato é que vão ampliando seus espaços nas decisões da sociedade, ainda que timidamente. E, de certo, com apoio de alguns fatores que fizeram balançar um pouco a realidade da escassa participação feminina. Influíram as alterações recentes nas regras eleitorais. Uma das inovações, com poder de convencimento e apoio logístico, foi a decisão do Tribunal Superior Eleitoral, em maio, de alocar R$ 510 milhões (30%) do fundo de financiamento eleitoral para candidaturas femininas. Até então queixavam-se dos diferentes tratamentos a que eram condenadas também nesse particular.

A presença no processo eleitoral é que pode garantir, verdadeiramente, autenticidade ao desempenho da mulher na condução dos destinos políticos do país. Porque já foi possível observar que não bastam cargos executivos para gerenciar programas e verbas. Relembrando passado recente, elas ganharam visibilidade, na gestão da então presidente Dilma Rousseff, nas nomeações com que se beneficiaram em cargos de alta expressão, inclusive em secretarias especiais com honras protocolares de ministério. No episódio do impeachment da presidente, haveriam de ganhar mais espaço, seja através de advogada proponente do processo de impedimento ou de senadoras e deputadas em defesa do mandato, que acabaria interrompido. Não basta, portanto, que sejam poderosas; precisam ter o respaldo e a bênção das urnas.

Sejam detentoras de mandatos executivos ou legislativos, definidos nas eleições de outubro, as que se elegerem haverão de assumir, em contrapartida, a responsabilidade de atuar com firmeza nos esforços para fazer a sociedade avançar. E trazer sua contribuição para aperfeiçoar aspectos desgastados da Constituição, que dentro de poucas semanas marcará seu trigésimo aniversário. Também ali inscreveram-se iniciativas que, pretendendo socorrer a população feminina, acabaram por prejudicá-la. E, mais que os homens, elas sabem disso. O efeito bumerangue acabou transformando em prejuízo alguns benefícios bem intencionados.

Sem que se saiba quantas serão as exitosas no embate das urnas, sendo muitas ou poucas, uma coisa de que não convém prescindir é permanente mobilização em defesa de seus ideais. É destino histórico da mulher: tudo resulta de luta e persistência, desde Olympie De Gouges, na Revolução Francesa, até a árdua comparação aos homens no direito de votar e ser votada no Brasil.



Tags: editorial, jb, mulher, urnas, votação

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