Jornal do Brasil

Domingo, 19 de Agosto de 2018 Fundado em 1891

País - Editorial

Uma reação à fome

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Grupos especializados na análise das dificuldades de sobrevivência entre pobres e ricos, formados por pesquisadores que geralmente abarcam trabalhos patrocinados pelas Nações Unidas, estão concluindo um estudo que, na visão de especialistas, devia, há muito, ter sido objeto de atenção dos povos, sejam eles desenvolvidos ou que padecem de misérias endêmicas, em sua maioria situados no continente africano. Trata-se, em última análise, de uma avaliação mundial de competências na produção, armazenamento e distribuição de alimentos essenciais.

Nem deixarão de figurar entre as questões levantadas, pela gravidade que representa, os hábitos do próprio consumo, linha final dos produtos, pois as sociedades industrializadas, mais ainda as do Ocidente, na pressa em comer e correr para os compromissos, vão se empazinando de produtos artificialmente conservados. Nada mais oportuno que esse trabalho, quando a própria instituição internacional admite, em recente relatório, que cerca de 30% das populações que passam fome no mundo poderiam estar parcial e temporariamente salvas dessa miséria se os alimentos fossem distribuídos racionalmente, independentemente de estarem as populações em países produtores ou não.

Um contraste que haverá de resultar em apelo aos países que figuram entre os maiores produtores é a necessidade de os mais ricos socorrerem os mais pobres – como sempre se desejou - até porque, entre eles, quase todos são os que dispõem de menor potencial produtivo; e exatamente por isso os mais famintos. Não plantam em terras áridas, não criam, ante a frequente escassez de águas. E assumem os mais dramáticos índices de mortalidade infantil, para não se ter de falar da população adulta. Não há como prever quantas décadas passarão até que se possa reverter esse quadro.  

Pelo que se insinua nas preliminares do aguardado estudo, haverá de nos caber participação em um dos capítulos. Razões não faltam, a começar pela extensão territorial que nos capacita a figurar entre os maiores produtores, com a vantagem concedida pela natureza de não impor ao Brasil grandes flagelos naturais destruidores, salvo enchentes de monções. Mas, antes que se confirme a posição do país entre grandes produtores, e, portanto, presente como notável empório para o mundo de um amanhã que vai se aproximando, há que se considerar, não como um mero detalhe, mas questão essencial, que o país, se muito produz, também muito desperdiça. Somos geralmente citados como exemplo dos lixos mais ricos do mundo, porque de tudo que a terra nos oferece uma terça parte acaba se perdendo, desde as dificuldades para o transporte entre o produtor e o distribuidor; e deste para o consumidor, que também merece educar-se melhor para saber comer.

São antigas as propostas de equacionamento de soluções. Uma delas, que há cerca de 15 anos foi tema de um congresso realizado em São Paulo, e pareceu estar mais fácil de viabilizar-se, sugeria a criação de entrepostos estratégicos para armazenamento, o que se tem feito, com êxito, em relação à soja. Salvo exceções, perde-se muito do que se produz por causa da ausência de um sistema apropriado de conservação, principalmente no caso de longos deslocamentos, como legumes e tubérculos, sem, contudo, serem os únicos sob risco de rápida deterioração.

Parece de todo procedente que, pelas virtudes naturais dadas ao Brasil, que a comunidade internacional espere daqui um papel mais saliente no aproveitamento racional de alimentos, sem que se cobre para isso algo que possa ser interpretado apenas como gesto de solidariedade cooperada entre povos. Um dia será possível saber que nada pode unir mais que uma guerra à fome e ao desperdício.



Tags: alimentos, consumo, desperdício, editorial, jb

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