Jornal do Brasil

Quinta-feira, 19 de Julho de 2018 Fundado em 1891

País - Editorial

Dia melancólico de presidentes

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Com a ressalva das exceções que nunca faltam, a cena da despedida dos presidentes é e haverá de ser sempre marcada pelos tons da melancolia, explicável, em grande parte, pela incapacidade de não terem podido realizar tudo que pretenderam ou, pelo menos, prometeram. Não há como escapar dessa sina. Como haveria de ser a partida do presidente Temer, que já percebe um horizonte sombrio para sua hora? Tanto que tem dito confiar à História, somente a ela, e não agora, o julgamento de sua acidentada passagem pelo governo. É certo que está a concluir um dos períodos mais complicados e desafiantes da República, mas nada suficiente para eximi-lo da tradicional melancolia, sentimento dele e dessa sociedade que governou, que muito esperava e pouco pôde receber. O que não se fez e o que não mais pode ser feito: deduz-se já no crepúsculo de sua administração.

O ocaso se agrava quando a Presidência da República mergulha em baixa cotação. Não diferentemente para quem mais amargou essa experiência: em 1902, o pobre do Campos Sales saiu esquivando-se das pedras lançadas contra o vagão em que viajava de volta a São Paulo, depois da humilhação de ver o povo substituir Sales por “Selos”, alusão aos muitos impostos selados que criou. Ocorrem casos em que a despedida se opera assim, em clima de muito ódio e nenhuma ternura. Mas nada que pudesse causar surpresa ao presidente Jânio Quadros, que se retirou por livre e espontânea vontade. “Caro Tancredo, lembre-se que o povo não gosta de amar; gosta de odiar”.

E as coisas não são diferentes, às vezes até piores, quando se trata do vice, como o de hoje. É o plantonista chamado a assumir, em momentos graves, muitas vezes quando as instituições estão em risco. Foi o que o destino reservou a Michel Temer, para completar o resto do mandado interrompido da titular. Veio depois de Sarney, Collor e Dilma, igualmente deserdados da simpatia popular, no momento em que tiveram de virar as costas ao Planalto, chegando ao fim da raia.

A tarefa do vice nunca foi contemplada com longas temporadas de paz, tradição que se confirmou agora. O vice-presidente sempre chega, numa comparação rude, como fosse alguém a que se atribuísse a difícil missão de trocar as rodas de um carro em movimento... Enfim, não lhe sobram tempo e condições para consertar o que foi mal começado, nem tempo para começar o que seria necessário fazer.

Nada diferente do que devemos estar preparados para ver, dentro de alguns meses: ser presidente cessante é estar condenado a duas situações com peculiaridades bem definidas, e Temer certamente sabe disso. Os aplausos e encômios, quando chegou, nada a ver com a hora da partida solitária e empobrecida de prestígio, sentimento que domina os que pretenderam favores não acolhidos, e os que, se nada podiam esperar, consideram-se com todo direito aos apupos. Há, portanto, um campo aberto aos descontentamentos, que, em parte, ficam debitados ao partido do presidente e seus candidatos favoritos, como Meireles é o herdeiro do momento. Deu-se com Juscelino, sucedido por um adversário temperamental, tendo que esperar a História para ser aclamado como grande realizador.

Esse destino comum, quase inevitável, cabe como tema de reflexão para o futuro presidente, que ainda não nos é dado saber; vale dizer, pois, é uma advertência a todos os presidenciáveis, pois um deles haverá de chegar ao Planalto, mas sabendo, ao subir a rampa, que será um dia muito diferente daquele em que tiver de descê-la.



Tags: editorial, governo, história, jb, política

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