Jornal do Brasil

Terça-feira, 17 de Julho de 2018 Fundado em 1891

País - Editorial

Campanha de segredos e omissões

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No centro das campanhas eleitorais residem sempre muitas dúvidas sobre a personalidade dos candidatos; dúvidas que geralmente se avolumam quando se trata dos presidenciáveis. Nunca se fica sabendo o que realmente prometem, e, prometendo, o que poderão cumprir, ou o que, de fato, estaria ao seu alcance para realizar, seja qual for a base política que conseguiriam organizar. Não se pejam alguns de afirmar que não podem dizer tudo que sabem ou o que podem, porque, se assim agissem, estariam municiando os adversários; o que, tratando-se de estratégia eleitoral, não há como condenar. Porque há sempre algum segredo capaz DE alterar a sensibilidade do voto.

Mas, seja dito, não é o que deve impedir ao eleitor e aos setores influentes da sociedade conhecer detalhes das plataformas que estarão proximamente em julgamento. Cabe aos concorrentes colocá-las à apreciação, com tempo suficiente para se submeterem a críticas e sugestões. Parece que não estão considerando que é imensa a obra que lhes será cobrada, bem como escasso o tempo para se julgar e fazer opção pelas propostas que se oferecerem mais adequadas. Ficam muito longe dos necessários discursos apenas otimistas, recheados de alvíssaras.   

Enfim, como abrir caminho nos terrenos tão acidentados, com nossa grande capacidade de acolher imprevistos, como esses em que o Brasil transita? O eleitor, que se supõe cada vez mais consciente e informado, não seria capaz de contentar-se com a simples e catalogada enumeração dos males que o afligem, para superficiais análises. Então, ao candidato, sem ressalvas significativas quanto às suas origens partidárias ou ideológicas, cabe explicar as soluções que defende, não se limitando apenas à abordagem de enunciados. É o caso, primeiro entre todos, da realidade econômica que, eleito, terá de enfrentar.

Nossa economia, desacreditada interna e externamente, não consegue desamarrar os grilhões do PIB, sempre modesto, altamente sensível, capaz de se encolher frente a fatos diversos que os economistas do governo não conseguem vencer. A inflação, em modestos patamares, não leva à população os frutos do esforço que se faz para contê-la. A produção industrial, se cresce, não rompe as muralhas do desemprego, algo difícil de entender, pelo menos no campo da simplicidade lógica: se produzimos muito mais, como garante o governo, como isso seria possível sem o concurso da mão de obra, que continua em crise?

Nossos problemas e o conteúdo de suas contradições estão postos aos candidatos, quando faltam apenas 78 dias para se submeterem ao voto popular. Portanto, a necessidade de se explicar é grande e o tempo, curto. Curtíssimo. Constituem realidades que, se não podem cair no esquecimento e no comodismo, mais ainda quando as urnas batem à porta.

Atacá-los, com rigorosa clareza, demanda coragem de quem é candidato; que tem obrigação de ferir aquelas e outras questões, que explicam, por si só ou como coadjuvantes, o conjunto de crises por que vem passando o Brasil. Uma delas tem sua origem em outra situação trágica, que muitas vezes o candidato prefere desconhecer. É o trato com as contas públicas, que geralmente são mais descontroladas nos países pobres. O gastar mais do que se pode, e gastar com o dispensável, é da natureza dos governos, pobres perdulários, com custosas assessorias, aposentadorias nababescas e viagens presidenciais e de ministros, que não levam comitivas; fazem-se acompanhar de séquitos.

O candidato de hoje, possível presidente de amanhã, tem de dizer, agora, numa linha de imposições prioritárias, a intenção de corrigir o mau trato que se tem conferido ao dinheiro do contribuinte, começando por reduzir drasticamente os caros quadros de auxiliares. “As pessoas devem novamente aprender a trabalhar, em vez de viver por conta do dinheiro público”, ensinava Tullius Cesar, 55 a.C. Já era tempo para aprender.



Tags: brasil, campanhas, editorial, eleições, presidência

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