Jornal do Brasil

Domingo, 22 de Julho de 2018 Fundado em 1891

País - Editorial

Esquerda, direita ou centro?

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Conduzir o processo eleitoral pela porta em que se pretenda definir candidaturas como sendo de direita ou de esquerda, e só por isso optar por uma delas, não parece ser agora o método adequado. Porque, diferentemente de circunstâncias anteriores, a estigmatização não é mais suficiente, embora fosse aceitável nos tempos em que se lutava para arrancar a democracia da excepcionalidade; lembrado que excepcionalidade é o outro nome que se costuma dar às ditaduras. Ainda assim, na atualidade, sob o clima das pré-convenções partidárias, percebe-se alguma tendência nesse sentido, tanto que se amplia, igualmente, a preocupação de alguns setores em localizar nomes para a alternativa do centro; mesmo que estejam ausentes propostas eleitorais claras que ajudassem a definir qualidades maiores em um desses rumos. Tal como a sociedade brasileira, as ideias andam confusas, atropelam-se. O que ganhariam os eleitores se adotassem o candidato de centro, de esquerda ou de direita, se o rótulo, só ele, nada mais que ele, leva a coisa alguma?

Uma primeira indagação, que parecer justificável, é quanto à real capacidade de um presidente da República conduzir seu governo totalmente para os extremos, ou que desejasse, por igual imprudência, exilar-se no centro, que muitas vezes nada mais é que o muro das indefinições. O mundo contemporâneo, e o Brasil como parte dele, caminha para condenar ao démodé essa antiga e pretensiosa divisão, que apenas se inspirou nos lugares tomados pelos membros do antigo parlamento francês. Na Europa de hoje, mesmo quando se elegem líderes com a roupagem de esquerda ou de direita, logo cuidam eles de montar alianças que resultem de procedências que não sejam apenas a sua própria. Na tarefa de administrar a jornada, sozinho seria verdadeiramente impossível. Sem ter de sair de casa: a recente experiência brasileira revelou um partido de essência esquerdista, o PT, que não se sentiu maculado, nem vexado, ao buscar apoio e oferecer altas recompensas a setores de ideologia e posicionamento partidário totalmente adversos. Os petistas mostraram que, qualquer que seja sua pia batismal, o governo tem de se abrir para abraçar. E no abraço poder andar para a frente.

Não haveria de ser exceção o futuro presidente do Brasil. Se para sustentar a candidatura e viabilizá-la já tem de revelar acessibilidade aos diferentes e namorar os contrários, quanto mais se eleito for. Vêm em apoio a esta observação os que, buscando pensadores de recentes reflexões, afirmam que hoje os extremos têm servido apenas para a troca de críticas ideológicas entre contrários, ou para definir o que seja pensar correta ou equivocadamente sobre política. Cabe também aqui uma forte dose de suspeição.

O divisionismo ideológico radical tem se mostrado inadequado, principalmente quando está em discussão o projeto administrativo, ainda que se admita a questão deslocada para o âmbito legislativo, pois ali as ideias conflituosas podem prosperar. Aliás, é recomendável que sejam consideradas. As lições parlamentares ensinam que é das diferenças e da capacidade de seus defensores de debatê-las que se identificam os caminhos. O grande Joaquim Nabuco, que enriqueceu o Congresso, não se cansava de exaltar a virtude das diferenças do pensamento nas tribunas. Mas só ali, porque para governar é diferente. No Executivo, o presidente, gerente dos negócios, se sobrepõe às convicções.

Vejamos como a campanha eleitoral, que neste momento retoca a maquiagem para entrar em cena, vai se comportar em relação ao papel da ideologia, se terá maior ou menor relevo. É esperar para ver.



Tags: brasil, campanha eleitoral, editorial, eleições, presidente

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