Jornal do Brasil

Domingo, 22 de Julho de 2018 Fundado em 1891

País - Editorial

Imigração desafia o mundo

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Podemos nem perceber em sua verdadeira dimensão, mas torna-se cada dia mais evidente que a questão imigratória vai se consolidando como grande desafio para as relações internacionais, longe de se restringir apenas a sentimentos de natureza humanitária. Não é outra coisa a que se assiste no dia a dia das fugas nas embarcações improvisadas, que navegam em costas africanas e asiáticas, para aportar nas enseadas da Europa. Bem distante de lá, o Brasil não deixa de contribuir com sua cota nesses dramas, graças à chegada de levas de venezuelanos. São, em média, 430 que chegam diariamente para escapar dos sufocos do governo Maduro. Tema que se repete, pela importância que vem arrastando.    

Diz-se que o problema já assumiu volume que o distancia dos sadios desígnios da solidariedade. Efetivamente, há outros componentes, todos contribuindo para denunciar que há algo mais – muito mais – além dos indispensáveis socorros. Estão presentes as interferências culturais sociais, religiosas, políticas e trabalhistas. Os Estados Unidos, acima de qualquer outro país, ainda se envolvem em temores quanto à segurança interna, mesmo que esta não seja uma preocupação consensual. Ainda agora, viu-se votação apertada na Suprema Corte, onde as restrições imigratórias passaram por cinco votos contra quatro. 

Portanto, limitações altamente controversas, sem que se negue, em qualquer parte do mundo, o risco da infiltração terrorista no colo dos que fogem. Concomitantemente, o Papa Francisco, que tem se revelado atento à tragédia, preconiza que a bondade cristã há de estar acima de eventuais riscos de desvirtuamento. Encontrar portas e espaços abertos para o refúgio a necessitados, é algo que todos os seres humanos têm direito, venham de onde vierem; mas não é menos claro que, para os maus governos, o deslocamento de multidões descontentes acaba se tornando bom negócio. 

No caso que nos atormenta diretamente, a Venezuela, o inconformismo dos que saem é um alívio para a presidência apodrecida de Maduro. Não fosse assim, ele cuidaria de envia tropas à fronteira, para deter os que pretendem atravessá-la. 

O Brasil ainda não fixou limites para ingresso dos vizinhos na fronteira, não obstante se veja na contingência de oferecer serviços que aqui já são precários e deficientes, como saúde, segurança e emprego. A Itália, antes amplamente receptiva, passou a pensar diferentemente: recebe mulheres e crianças; não os que pretendem aportar para fins que não sejam imediatamente humanitários.

Os países não têm direito de se fecharem às levas angustiadas, mas não se lhes pode tirar certos deveres, para que, sendo cordiais receptores, não estejam condenados a agravar seus problemas, entre os quais, que parece ser o mais ostensivo, a deterioração dos valores culturais. Os franceses, sendo os que mais padecem, viram-se na obrigação de alterar suas leis e construir mesquitas para imigrantes muçulmanos; mas seus padres e bispos não podem  erguer templos cristãos nas capitais de países marcadamente fundamentalistas.

Uma parte da discussão desse problema, que não para de se agravar, só agora começa a ser transferida a um organismo vastamente experiente nesse campo, o Alto Comissariado para Refugiados. Pode não resolver, mas é através dele que as imigrações se tornarão, como os políticos que se refugiam, uma questão prioritária na agenda das Nações Unidas, de forma a não ser mais tratada com base em improvisações e no incerto acolhimento humanitário. Disso certamente não discordou o vice-presidente norte-americano, Mike Pence, que acaba de visitar Brasília.

Já estamos diante de uma tragédia internacional. Como tal, com direito de invocar contribuição mais racional de todos os povos.



Tags: editorial, fronteiras, jb, miração, refugiados

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