Jornal do Brasil

Domingo, 22 de Julho de 2018 Fundado em 1891

País - Editorial

Boatos causam temores

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No Supremo Tribunal Federal, o ministro Luiz Fux proferiu recente advertência, com justificada repercussão, sobre a ameaça que representaria um grande volume de notícias confusas ou tendenciosas na campanha e em vésperas das urnas que se avizinham. Avançou em sua reflexão, lembrando que situação dessa natureza poderia até levar ao ponto de anular a eleição de outubro. Certamente que, aprofundando sua incursão no problema, ele chegaria à conclusão de que a anulação de um pleito nacional, destinado a alterar amplamente a composição dos poderes Executivo e Legislativo, seria algo de tamanha complexidade, que só fatos gravíssimos e imprevistos poderiam justificar a medida. O que modernamente se convencionou chamar de fake news, poderia tumultuar ou mesmo prejudicar resultados de muitas urnas e seções eleitorais, mas não suficientemente para que o Tribunal Superior Eleitoral concluísse pela necessidade de nova votação; que, aliás, realizando-se logo após a primeira, eivada de suspeições, correria os mesmos riscos antecedentes. Inevitável contaminação. Chover no molhado.

Há, de fato, um temor em relação aos prejuízos que podem ser causados pelo mau uso dos meios de comunicação eletrônicos, preocupação que também acaba de ser revelada pelo presidente Michel Temer, ao sugerir que os usuários defendam seus votos. Não devem acreditar, precipitadamente, em tudo que leem e ouvem. E recomenda com prudência: quando houver suspeita quanto à veracidade da notícia, melhor é esperar o dia seguinte, para avaliar o fundamento, recorrendo-se aos jornais e à televisão.

O TSE, pela voz de seus ministros e dos analistas políticos, que se recomendam pela experiência, tem estudado mil e uma fórmulas capazes de evitar danos aos fatos e às pessoas. Nada fácil a tarefa a quem tem se dedicado a ela, o que autoriza acreditar que nenhuma eficácia poderá se comparar aos cuidados que cabem aos próprios eleitores, medindo a carga de informações que recebe, principalmente as que lhes chegam à sua revelia. É preciso duvidar, em particular, quando revelam evidências de maquinações contra candidatos e partidos, sem que seja possível a comprovação das denúncias. Estão nesse caso, em primeiro lugar, as abomináveis agressões à honra e à família. Depois, a violência política, quando se juntam a não informação e a desinformação.

É preciso observar, quando críticas a um ou mais candidatos invadem a internet, o instrumento que se fez mais adequado para propalar acusações, preservando a identidade do denunciante, é o exagero nas agressões. Na eleição de 2010, uma campanha anônima nominou vários deputados federais candidatos à reeleição, que teriam sido autores de projeto destinado a extinguir o décimo terceiro salário, conquista irremovível dos trabalhadores. Tal projeto, que seria uma aberração, não existiu, mas muito eleitor acreditou, influindo na votação de alguns dos hostilizados. Restam casos em que a boa-fé vem parelhada com a ignorância. Para um difamador, nada mais estimulante.

Para escapar dos efeitos perversos da falsidade, o eleitor, por mais modesto que seja sua formação, não pode cair nessas ciladas, que se tornaram conhecidas como fake news. A defesa de quem está no alvo é defender-se das deturpações, que, mesmo camufladas, em algum ponto sempre deixam escapar a intenção da maldade. Os caluniadores podem se trair nos detalhes. É aí que o eleitor deve derrubá-los.

Apesar de tudo, muitos, não apenas o ministro Fux, temem que, em outubro, uma faixa dos cidadãos votantes ainda se revele vulnerável às maldosas ofensas, que nunca faltaram em qualquer eleição; não seria agora que estariam dispostos a se aposentarem. Pois aos vulnerabilizados espera-se, enquanto há tempo, que o tribunal e os partidos intensifiquem campanha esclarecedora, para que o eleitor escape das emboscadas que a difamação e a injúria armam pela internet.



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