Jornal do Brasil

Segunda-feira, 16 de Julho de 2018 Fundado em 1891

País - Editorial

Violência. A fera está solta

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Tudo o que não se desejou para este Rio de Janeiro, alinhado e confundido com qualquer praça de guerra deste mundo afora, era a tensão provocada pela semana que termina, ao confirmar, se ainda dúvidas havia, que estamos inscritos na lista dos lugares mais sofridos, nestes tempos de insegurança que tomam conta das populações. Na verdade, a semana nem precisava terminar, depois dessa quarta-feira, um dia feito para mostrar que nada mais faltava para a cidade se tornar praça verdadeiramente em guerra.

Adolescentes baleados, vidas prematuramente interrompidas. Adolescência condenada à morte sem ter culpa de nada. O que faltaria acontecer para aumentar nossas angústias, se o anoitecer e o amanhecer já perderam o direito ao sono, sob a sinfonia sinistra dos tiroteios? Primeiro, eram apenas o som e os raios faiscantes dos fuzis que se limitavam às favelas; agora, a indesejável orquestra vai descendo os morros, sai dos subúrbios. A Zona Sul já não está mais blindada para enfrentar o confronto entre traficantes e polícia. E a população no meio, aterrorizada.

Por que lugares distantes andará a esperança dos cariocas, essa gente teimosa, que sofre e sofre, mas não abre mão de continuar amando sua cidade? Pelo menos isso, o que não é pouco nestes tempos confusos.

Passados quatro meses da intervenção federal nos serviços da segurança pública, o que temos a avaliar é um balanço nada confortador, porque, além de o problema permanecer e crescer, as mortes vão se tornando meras estatísticas; e um jogo aritmético, desfavorável para a polícia: um traficante sacrificado, para dois policiais mortos. Média de dois agentes por mês perdem a vida, o que impõe à população outra perplexidade, a se tomar em conta os números do próprio governo: se morre um traficante, outro, da mesma estirpe criminosa logo assume os arsenais e o comando do tráfico. Se morre policial, a substituição demanda tempo, concurso, nomeação, adestramento. O que ajuda a entender o porquê de o crime se articular com precisão. E progressão.

A intervenção federal decretada pelo presidente Temer foi recebida, inicialmente, como aceno de um alívio possível; chegando a hora de frequentar o campo de batalha, esbarrou com dificuldades alimentadas por problemas diversos, cuja profundidade e extensão - supõe-se – o próprio governo não imaginava. Não supunha, por exemplo, que no Rio a violência urbana assumiu roupagem de epidemia. O carioca olha para suas paisagens, sem saber exatamente o que pode fazer, o que mais é preciso fazer. Só percebe que ela avança, como se fosse um novo e violento surto, como aquela febre amarela de 1903, afinal vencida por Oswaldo Cruz. De tanto olhar, de sua janela, as mortes espalhadas nas ruas do Rio, ele quase se desesperou, ante o volume do desafio, algo semelhante a este de que padecemos hoje. “Se não posso fazer tudo que devo, devo fazer tudo que posso”, disse ele a si mesmo. Demorou três anos para erradicar a febre. Que vacina poderia nos imunizar contra a violência? Estaremos sujeitos a sacrifício tão duradouro, como aquele que enfrentou o grande sanitarista?

Frente à bandidagem, não podemos fazer tudo; mas sem entregar os pontos, sem nos contentarmos com o papel de cordeiros, façamos o que for possível. E o possível começa pela adoção de cuidados pessoais, preservando-se, não desafiando a insegurança, em defesa da própria pele. Melhor assim, enquanto o lobo não vem.



Tags: intervenção federal, polícia, segurança pública, temer, violência

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