Jornal do Brasil

Sábado, 21 de Julho de 2018 Fundado em 1891

País - Editorial

Nós e a guerra das sobretaxas

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Talvez por estarem com suas principais atenções voltadas para a Rússia, onde se realizam jogos de suas seleções, os grandes povos descuidem ou permaneçam insuficientemente atentos aos desdobramentos que poderão advir do impasse nas relações comerciais entre China e Estados Unidos, tendentes a se transformar numa vigorosa queda de braços. Há que se falar não apenas nos dois grande produtores, mas sem a exclusão de todos os demais países, onde quer que se encontrem, pois somos candidatos naturais a deparar com os respingos da grande batalha que está levando dólares e yuans ao campo de batalha. A poderosa arma, disponível para ambos, é a sobretaxa, que encarece os produtos que chegam, limitando-lhes o poder da concorrência interna. Terminada a copa, todos de volta à casa, governos e certamente a opinião pública desses países, terão de avaliar os desdobramentos diretos e indiretos da refrega desses interesses econômicos que permanecem em jogo.

De fato, se a disputa se trava entre americanos e chineses pelo domínio dos seus mercados de consumo, não significa que apenas a eles caberão os resultados, porque raros são os países que, a um dos dois, não tenha de vincular seus próprios objetivos comerciais. Por muito ou por menos, considerando-se que na bolsa internacional de ofertas e procuras todos têm algo a comprar, vender ou especular. Quando ocorrem oscilações, como recentemente se viu na linha de commodities, o aço do Brasil foi jogado na berlinda pelo governo americano. 

Os negócios comerciais compõem-se de balanças, nas quais pesam-se os interesses de importadores e exportadores. Quando os pesos tendem excessivamente para um dos lados, abrem-se discussões para um maior controle de contas. Estados Unidos e China, que são entre si, simultaneamente, os maiores compradores e vendedores, ameaçam uma guerra de sobretaxações. No lucro ou no prejuízo, os respingos serão inevitáveis para clientes menores, aos quais cabe atentar, se não para ganhar, pelo menos que não seja para perder. No caso presente, se for possível dar todos os créditos às ameaças do presidente Trump, pode-se aplicar sobre os produtos chineses uma sobretaxa de 25%, com imediata represália no mesmo nível. Ruim para ambos.

Esses embates, principalmente quando ocorrem em torno de grandes potências, sugerem a nós outros a procura de mercados menos acidentados, imunes às implicações políticas que extrapolam a interveniência e o controle da Organização Mundial do Comércio, da qual o Brasil figura entre os 159 países constituintes.  Se é impossível impedir algum tipo de reflexo, os estilhaços que ricocheteiam, nem por isso teria cabimento o mundo subjugar totalmente seus negócios comerciais a demandas que se travam em esferas particulares.

O Brasil há que descobrir novos mercados potenciais, como na semana passada analisava, no Congresso Nacional, o ministro Aloísio Nunes, das Relações Exteriores. Falava sobre o mercado do Irã, ainda não suficientemente atendido pelos exportadores brasileiros. Interessante observar que, não raro, os negócios comerciais não prosperam, por falta de maior e melhor conhecimento público do potencial importador. O exemplo do Irã vem a calhar. Um país tecnologicamente evoluído, dominando a energia atômica, alvo de afagos de investidores europeus, enquanto para muitos, entre nós mesmos, equivocadamente, aparece como país exótico, de religiosos radicais e mulheres de burca nas ruas. Nada mais equivocado. 

Precisamos muito vender, sejam quais forem os resultados da divergência entre americanos e chineses. Rumo aos mares e aos ares, enquanto os leões brigam.



Tags: americanos, chineses, editorial, jb, potências

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