Jornal do Brasil

Domingo, 24 de Junho de 2018 Fundado em 1891

País - Editorial

A vida por um fio

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Como as preocupações com a saúde passam, quase sempre e primeiro, pela experiência dos países com melhores índices de desenvolvimento, explica-se o empenho deles em alertar para perigos que podem se alastrar. É o caso dos Estados Unidos, que estão assustados com a revelação de que, em uma década, os suicídios aumentaram em torno de 23%, o que não deixa de ser motivo para preocupar. Mas não só os americanos são chamados a encarar o problema; vivenciam-no, igualmente, franceses, nórdicos, além de asiáticos e africanos; estes motivados pela guerra e pela fome, preferem não viver mais. Quando não, fogem para a Europa. 

Resultam desses quadros, sugestões cada vez mais frequentes para que o autoextermínio passe a figurar como questão de saúde pública, mesmo com a resistência dos que considerem aquela conduta um problema existencial altamente complexo, com escassos recursos de previsibilidade. Mesmo assim não faltam sugestões aos governos a adotarem ações mais ambiciosas de socorro aos deprimidos, considerando-se que entre eles sempre figura razoável contingente dos que estão em risco. Merecem atendimento prioritário, rápido; não poderiam padecer semanas nas filas desses INSS que funcionam aí pelo mundo. 

Os potencialmente desgostosos são, portanto, o grande desafio, que se coloca frente a uma complexidade imensa. E no Brasil, onde o problema também não pode passar batido, está à mão um dado estatístico, há pouco revelado aqui: nossos suicidas foram, no ano passado, a quarta razão de morte prematura. Até os índios falam em suicídios nas aldeias, embora nada a comprová-lo. 

Susceptível à tragédia, há uma população que requer atenção nessa particularidade médica a ser confiada à saúde pública. Esses enfermos não podem ser ignorados ou desprezados, muito menos sofrer referências preconceituosas. Tempos passados, nem direito a celebração religiosa de encomendação podiam merecer; qualquer que fosse o status do suicida, como se deu em 1954, quando a Igreja negou missa em memória do presidente Vargas. Sem perdão a quem abreviou a vida com um tiro. O que só Deus dá, só Deus tira. 

Os tempos são outros e as religiões também ficaram sabendo que a alma humana tem razões que a própria razão desconhecia; a alma vista como o que Blaise Pascal via nos corações atormentados. O suicida não é um fraco, mas um forte em guerra desigual e terrível com o seu íntimo. Mais ainda nestes dias que agravam a solidão dos arranha-céus e a invasão da privacidade pelo progresso insensível dos meios eletrônicos. Permanentemente fragilizada no mundo de inseguranças, a vida de portas fechadas não consegue impedir as frestas por onde o mundo tecnológico invade a privacidade. É difícil a convivência com esse tédio, que não se vê, mas pesa no peito e reclama o fim de tudo. São aquelas horas em que “os atos ficam enevoados”, no dizer de Edgar de Andrade. 

É tal, entretanto, a complexidade, que palavras não são suficientes. Nem mesmo com o dizer do melancólico escritor William Styron: difícil explicar o convite à morte. “A descrição da depressão só pode ser entendida por quem passa por ela”. Muitas vezes, nem assim para entender o insuportável, como não entendeu o gênio de Van Gogh, de Virginia Woolf, de Hemingway, de Maiakovski, de Santos Dumont, de Pedro Nava. 

Se são muitos e diversos os fatores (mais recentemente as drogas) e enfermidades que se associam para fazer de refém o suicida, vale incluir mais um, para estudar melhor o que a ciência convencionou chamar de Efeito Werther, isto é, uma certa capacidade de contágio, quando se tornam suicidas pessoas famosas. Acontece uma certa tendência a seguir os passos, para delas ganhar as glórias, nem que seja morrendo. No dia seguinte àquele de agosto de 62, em que se anunciou a morte de Marilyn Monroe, mais de dez pessoas, pensando nela, também puseram fim à vida. 

Custará algum tempo até que as políticas públicas tenham tempo e vagar para dedicar recursos ao tratamento preventivo desses enfermos. Enquanto isso, ouçamos os psiquiatras, psicólogos e estudiosos de desvios comportamentais, cada dia mais indispensáveis nestes tempos de dúvidas e tormentos.



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