Jornal do Brasil

Terça-feira, 19 de Junho de 2018 Fundado em 1891

País - Editorial

Tempos de intolerância

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Sucedâneo, colaborador, simpatizante ou roupa nova para sofisticar o terrorismo? Como definir a intensificação das ações de intolerância que vêm se espalhando pelo mundo? Percebe-se que, na busca de explicações e pretextos para sentimento tão negativo, já não bastam as causas políticas, sempre mais frequentes; o esporte passa a ser utilizado para alimentar dissidências. Lembremo-nos que ficou na memória do mundo a tragédia das Olimpíadas de 1972, em Munique, quando o Setembro Negro matou 11 atletas judeus; logo no cenário de um evento olímpico idealizado sob o eterno sonho das boas vizinhanças.

 Seguiram-se fatos isolados, não tão graves, mas todos com a intenção de provocar hostilidades, tanto políticas como raciais ou religiosas, sempre com sinais de terem tudo para se intensificarem. Mesmo assim, nunca faltou a esperança de que as relações proporcionadas pelo esporte acabariam por remover maiores temores. Porque o esporte, mais que qualquer outra atividade humana, concorre para unir os povos; e, nesse mister, superado apenas pela música, pois esta, universal e intemporal, está muito acima de habilidades físicas.

Agora, as preocupações voltam a pedir passagem, ante nova ameaça de utilização de desportistas e seus eventos para explicar o cancelamento de uma partida internacional de futebol amistosa, entre Argentina e Israel, por se realizar em Jerusalém. Percebeu-se nisso uma preocupação com os palestinos, que não reconhecem a Cidade Santa do estado de Israel. A intolerância entrou em campo. 

Concomitantemente, quase como peça de uma orquestração, surge novo fato, com o risco de atentados, quando os russos admitem manifestações de desagrado a atletas e visitantes, que chegam para a Copa do Mundo, alguns levando, em suas bagagens, a diversidade sexual. Oficialmente, o governo assegura boas-vindas, mas não terá como impedir atos de descontentes, muito menos suas consequências. Coisas que vicejam em pleno século 21! 

Uma Copa, que, segundo especialistas, ainda não conseguiu acionar, amplamente, o entusiasmo nacional e de outros povos, vê-se na contingência de enfrentar ameaças, quando paixões políticas e comportamentais não deviam chegar ao ponto de comprometê-la. Se um certame esportivo tem, entre seus objetivos, aproximar povos comprometidos com a paz, tornam-se inadmissíveis agressões e humilhações geradas pela intolerância.

O que uma partida de futebol tem a ver com discussão territorial  entre estados historicamente conflagrados? Ou exigir de atletas e torcedores atestado de opção política ou ideológica? A outros cobrar certidão de profissão de fé? Em Moscou, barrar homossexuais ou gente de diferentes etnias? 

A prosperar assim, o mundo estará inviabilizado dentro de poucas décadas, com a intolerância grassando em todos os ventos, já não mais contentando-se com os estádios e quadras, mas estendendo-se a outros campos da atividade, como nas artes. Veja-se o que acaba de se dar neste  Brasil, logo ele, que, sem grande honestidade, esforça-se para mostrar a inexistência de racismo: recusou-se uma atriz parda para interpretar compositora negra; precisava ser  negra. Felizmente, ainda um caso isolado. 

A ameaça de progressão desse aleijão sócio-cultural, com matizes políticos, étnicos e homofóbicos, tem tudo para compor um universo de intolerância, e justificaria até uma intervenção da Organização das Nações Unidas, de forma que os governos junto a ela credenciados, adotem campanhas repressivas e educativas. E que o mal possa ser contido e extirpado enquanto não se disseminou completamente. Pois, no dia em que não fosse mais possível exercer o esporte e as artes sem obstáculos políticos, ideológicos e de raças o mundo terá chegado ao fim.



Tags: intolerância, onu, respeito, sociedade, tolerância

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