Jornal do Brasil

Quinta-feira, 19 de Julho de 2018 Fundado em 1891

País - Editorial

Exército não pode ser desmoralizado

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Anunciada a intervenção militar, com toda pompa, pelo presidente Michel Temer, como a “salvação” no combate à guerra civil que vive o Rio de Janeiro, não se deram a conhecer, pelo menos até o momento, os efeitos positivos que a sociedade esperava da medida intervencionista no Estado. O que temos assistido, tão simplesmente, é ao envio de tropas para bairros e comunidades pobres, cujos resultados – quais? - continuamos esperando que sejam apresentados. Mas, por dever de respeito à verdade, digamos logo: os fatos permitem a nós, cariocas, afirmar que o efeito dessa intervenção beira ao nulo. 

Por outro lado, os cariocas ouvem, presenciam e quedam perplexos diante dos tiroteios diários que acontecem nessas mesmas comunidades que, geograficamente, encontram-se no seio dos bairros mais conhecidos e valorizados. O que permite acrescentar: em outras palavras, a guerra civil na cidade não se restringe aos bairros mais humildes e pobres. Por extensão, ela invadiu as ruas e se faz presente em toda a urbe. É aqui que essa gente criminosa e impune fez conosco o que, nos grandes conflitos, se faz com as populações civis. Como o Rio, em guerra, mas desarmado.

Na última sexta-feira, o carioca não acreditaria no que foi obrigado a ver: a guerra entre traficantes, que nos ofendem e amedrontaram, diariamente, atingiu não só bairros. Os bandidos impuseram, com o tiroteio travado no Morro do Pasmado e no Chapéu Mangueira, que o Bondinho do Pão de Açúcar parasse suas operações! E assim foi feito. O maior símbolo da Cidade Maravilhosa, junto com o Cristo Redentor,  rendeu-se a essa marginalidade que tomou conta do Rio. Aliás, cabe lembrar outro caso constrangedor, mais uma vitória da violência: o Morro do Corcovado fecha às 7 da noite, por questões de segurança... Quem diria que ainda chegaríamos a esse ponto? 

Mas, muito mais grave que a suspensão dos serviços do bondinho, foi assistirmos, perplexos, a essas quadrilhas de traficantes agirem fora e muito além dos territórios onde suas armas são a lei. Chegarem diante das instalações do Exército e da Marinha, localizadas no Bairro da Urca, onde criaram um palco, para o seu “teatro de guerra”.  De um lado, as forças do tráfico, do outro, nossas Forças Armadas. Frente a frente! Meu Deus, no Rio de Janeiro! 

Se esses bandidos não respeitam mais a sociedade civil, o simples cidadão que é humilhado diariamente, sem poder ir e vir, disso já sabemos; se não respeitam o governo do Estado, a Polícia Militar e todas as demais instituições do aparelho do Estado, também não ignoramos. Mas esses marginais, cujos efetivos calcula-se em cerca de 10 mil fortemente armados, espalhados por toda a cidade, chegaram ao limite da desfaçatez, ao desfilar com seu poder de fogo, audácia e coragem, no Bairro da Urca e, consequentemente,  afrontando as Forças Armadas, colocando-as no mesmo patamar do desrespeito que já praticam contra o povo e o patrimônio da cidade do Rio de Janeiro. Ora, ninguém em tempo algum, poderia imaginar que tal pudesse acontecer.

Se não se conseguiu reprimir a violência por meio da intervenção militar, o Exército brasileiro – pelo menos ele - merece respeito, e não pode ser desafiado e desmoralizado por acontecimentos como o desta sexta-feira. Seria permitir que o mal, definitivamente, vencesse as forças democráticas e jogasse o Brasil no abismo. Aí seria o caos absoluto.



Tags: brasil, exército, forças armadas, intervenção, violência

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