Jornal do Brasil

Quinta-feira, 26 de Abril de 2018 Fundado em 1891

País - Editorial

O inchaço das cidades

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Seriam dispensáveis maiores exemplos e consequências para se confirmar um dos fenômenos sociais mais complexos da vida nacional, agravado, impiedosamente, a partir de meados do século passado. É o êxodo rural, que figura entre os problemas a recomendar melhor estudo e participação perene nas preocupações governamentais. Um desafio que, se devia ter sido encarado nas décadas anteriores, nem perdeu prioridade em nossos dias, graças à evidência de questões que continuam gerando e acentuando desdobramentos, como o inchaço das metrópoles, saturadas de multidões que escapam do campo. Antes, o que se sentia era apenas o resultado da carência de perspectivas para os trabalhadores e suas famílias. Sonhavam com um futuro melhor, e, por isso, partiam. Depois, agravando as dificuldades desses sem-terra e sem esperança, a cansada mão de obra perdeu espaço para os recursos da técnica e da tecnologia, rapidamente absorvidos na pecuária e na agricultura.  

Ao processo ininterrupto de abandono do campo respondeu, de imediato, o avanço desordenado sobre cidades de porte médio e metrópoles. Rio, Fortaleza e Recife estão entre os casos mais evidentes, e, como resultado, o crescimento dos índices de desocupação de homens e mulheres, os subempregos, a emergência das tarefas a serviço do crime organizado. Daí para a violência, apenas um passo ou uma breve oportunidade. O crime sofre, em parte, o contágio com o sufoco populacional.  

Mesmo não estando à mostra pesquisas atualizadas, as que foram dadas a conhecer no segundo semestre do ano passado servem para confirmar que permanece alta a incidência migratória. Observe-se, como dado elucidativo, que, em outros tempos, os deslocamentos cuidavam de se realizar em duas tapas. Na primeira, os fugitivos experimentavam oportunidades em centros de porte médio. Depois, baldadas as expectativas, tomavam o rumo das capitais, preferentemente. Por isso, já em dias mais recentes, como revelam os levantamentos citados, tornaram-se cada vez mais raros os estágios intermediários. Estes são aqueles que não se desvinculam totalmente do interior, mas dispõem de certo número de serviços essenciais. É dali que, insatisfeitas, saltam multidões para as metrópoles, onde, em geral, não conseguem resolver os desafios pessoais, mas, com toda certeza, engrossam problemas comuns a todos. 

Sem disposição de partir vigorosamente em busca de soluções diante de tamanha gravidade, os governos preferiram o comodismo da omissão, e, por isso, sem merecer benevolência. Todos, sem exceção. De forma que até seria injusto atribuir apenas a um ou alguns, recentes ou antigos, as responsabilidades acumuladas. 

Hoje, como ontem, permanece o desinteresse em dar o primeiro passo para criar no interior motivações capazes de agregar e criar raízes para populações sequiosas de melhores tempos. Desejassem levantar a bandeira, aos palácios da União e dos estados, certamente nenhum roteiro seria melhor que estender àqueles rincões um pouco de saúde e de educação. Seria excelente começo. 

Setenta por cento dos brasileiros correm para as cidades grandes. Entre eles, se há quem tem qualificação para disputar espaço no mercado de trabalho, não  faltam – e aí vai a maioria – os que jogam apenas com a sorte e a aventura. Todo dia desembarcam, arrastando suas famílias e, nas malas ou no embornal, quase sempre apenas o desejo de deixar longe as privações sofridas no campo, onde as experiências que, se já não eram suficientemente robustas para enfrentar a avalancha do agronegócio em progresso, muito menos úteis nos subúrbios e favelas, onde passam a morar.



Tags: cidade, editorial, jornal, metrópoles, saturadas

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