Jornal do Brasil

Domingo, 24 de Junho de 2018 Fundado em 1891

País - Editorial

O assassinato do Maracanã e a morte do futebol carioca

Jornal do Brasil

Para os cariocas, o Maracanã representa muito mais que um estádio de futebol. É um símbolo, com a história de todas as gerações da cidade do Rio de Janeiro, que sempre amaram  nosso esporte mais popular, e que, por enquanto, com ele ainda somos líderes no talento e em Copas do Mundo. 

O Maracanã sempre foi local de encontro de famílias e, claro, de torcidas contrárias. Mas, em épocas áureas, nunca foi a praça de guerra a que está condenado hoje por quadrilhas organizadas, que vão ao estádio para brigar, para espalhar ódio e terror. E, muitas vezes, morte. 

Tão importante quanto agressões que acontecem entre as torcidas, é a morte anunciada do nosso querido e mundialmente conhecido Estádio Mário Filho, o Maracanã. Sua morte começa a ser planejada da mesma forma como estão tentando assassinar nossa democracia com o punhal da corrupção. 

Tudo começa com o advento da Copa do Mundo no Brasil. Inventaram a necessidade de se fazer meia dúzia de novos estádios, sendo que quatro deles servem para nada. Serviram somente para empreiteiros e políticos enriquecerem, através de  roubo direto dos recursos públicos, com sobrepreços de mais de 200%. Três desses novos estádios sequer têm jogos de futebol: o de Manaus, Cuiabá e o de Brasília. 

E, durante a possibilidade de atraso nas obras, Ronaldo Fenômeno, declarou que “tinha vergonha do Brasil”. Isto porque o diretor da Fifa, o francês Jérôme Valcke, em entrevista para a mídia mundial, disse que “não era possível tamanha irresponsabilidade com o atraso nas obras dos estádios, e que havia risco de não ter Copa no Brasil”. O sr. Valcke foi afastado da Fifa, banido do futebol. Motivo? Corrupção por ter recebido comissões durante a estruturação da Copa no Catar. Será que o Ronaldo sente vergonha, hoje, por ter apoiado um corrupto? Nosso grande ídolo deveria pedir desculpas aos brasileiros. 

Fora a construção de novos estádios, roubou-se de forma ainda mais acentuada na reforma de outra dezena de estádios Brasil afora, sendo o Maracanã o mais emblemático, onde a corrupção ficou totalmente fora de controle. Na realidade, não houve reforma no Maracanã. Construiu-se um novo estádio. E pra quê? Não era, comprovadamente, necessário. Bastava modernizá-lo, colocando cadeiras confortáveis na arquibancada, e reformar todos os banheiros, dentre outras pequenas intervenções. Com essas obras, teríamos um “novo Maracanã”, sem gastar sequer um terço do que foi roubado. 

Orçado em R$ 500 milhões, a quadrilha de Sérgio Cabral e as empreiteiras lideradas pela Odebrecht, roubaram R$ 1 bilhão a mais que o previsto e orçado! Em outras palavras, a obra de “reforma” do Maracanã custou ao povo brasileiro, R$ 1,5 bilhão! 

Tão escandaloso quanto à roubalheira que fizeram no Maracanã (e em todos os outros estádios Brasil afora), é o resultado da “reforma”: zero! Em outras palavras, no pacote de corrupção implementado pela quadrilha de Sérgio Cabral com as empreiteiras fez parte a entrega do estádio para a Odebrecht, a líder de todos os roubos de dinheiro público. Com a lava-jato, a empreiteira se desinteressou pela administração do Maracanã e o palco da maior paixão do carioca, o futebol, encontra-se praticamente desativado. 

Mais grave que sua desativação e abandono são as consequências para o futebol carioca. Se no passado, com desconfortáveis arquibancadas de cimento e com a “geral” que humilhava os torcedores, era absolutamente normal que os clássicos do campeonato carioca levassem mais de 100 mil torcedores ao Maracanã. Todos os domingos, as famílias do Rio de Janeiro, cidade e Estado, encontravam-se para festejar a paixão pelo futebol. Hoje, quando o Maracanã recebe 30 mil torcedores os cartolas acham o máximo! Isso quando Flamengo, Botafogo, Vasco e Fluminense não vendem seus jogos para outras cidades. Que vergonha! 

Os clubes e, principalmente a Federação de Futebol do Estado do Rio, são também culpados da derrocada do futebol carioca. A Federação por fazer regulamentos impossíveis de atrair torcedores. E, os clubes, mais fácil ainda de explicar: até o começo dos anos 80, era raro um jogador brasileiro ser vendido ao exterior. Times espetaculares como foi o Botafogo de Garrincha e Nilton Santos, ou de Jairzinho e Paulo César, do Flamengo de Zico e Júnior, do Fluminense de Rivelino, ou do Vasco de Roberto Dinamite, montavam e permaneciam com os mesmos times durante anos. Hoje, nenhum jovem torcedor consegue mais escalar seus times, pois os craques são vendidos ainda no “berço”. Em outras palavras, os jogadores brasileiros de grande talento ou os “fora de série”, já têm seus passes comprados aos 12, 14 anos. A última revelação do Flamengo, o garoto Vinicius, foi vendido, ainda com 16 anos, para o Real Madrid. 

Por tudo isso, a torcida que mais cresce no Rio é a do Barcelona. Os dirigentes não pensam mais no futebol. Pensam como podem ganhar mais dinheiro. E, assim, o nosso futebol tornou-se uma máquina de se fazer jogadores para serem vendidos para o exterior. A resposta é que não temos como competir financeiramente com os times europeus. Não concordamos. O orçamento do Flamengo é de US$ 200 milhões/ano. Está entre os maiores orçamentos de times de futebol do planeta. Corinthians no mesmo patamar. 

O abandono do Maracanã, aliado à máquina de vender jogadores, está acabando com o futebol carioca. A continuar assim, o campeonato estadual deve acabar, e os times, mesmo os chamados “grandes”, terão enormes dificuldades para sobreviver. Prova disso é que os cariocas não ganham há anos o campeonato brasileiro, muito menos chegam às finais da Libertadores. 

Vasco e Botafogo já possuem dois bons estádios. Para tentar reverter esse quadro desalentador, que anuncia a morte do futebol carioca, o governo do Rio devia fazer um comodato do Maracanã para o Flamengo e Fluminense. Com esses dois  clubes à frente daquele que já foi o maior do mundo, o estádio teria grandes chances de se tornar importante novamente; importante, pois se faria um calendário exclusivamente para o futebol, com preços razoáveis para incentivar o torcedor e as famílias a irem ver os jogos



Tags: artigo, editorial, futebol, jb, time

Compartilhe: