Jornal do Brasil

Sexta-feira, 17 de Agosto de 2018 Fundado em 1891

Economia

Idosos na mira de golpistas

Falta de educação financeira e diversificação de investimentos deixam mais velhos expostos a riscos

Jornal do Brasil GABRIEL VASCONCELOS gabriel.vasconcelos@jb.com.br

Nas duas últimas décadas, o mercado financeiro global viveu um período de intensa diversificação de produtos para atender às diferentes necessidades dos investidores. Essas novas modalidades de investimento prometem rentabilidades muito superiores aos oferecidos pelo binômio renda fixa e renda variável ou, ao menos, um meio termo entre os dois, como é o caso das carteiras multimercados. Ao mesmo tempo, os donos do dinheiro envelhecem em todo o mundo, tornando-se mais suscetíveis a imperícias e, na pior das hipóteses, a golpes. 

No Brasil não é diferente. Em um cenário de juros mais baixos nas aplicações, ancoradas por uma taxa Selic de 6,5% ao ano, a tentação por taxas mais atrativas, em negócios heterodoxos como as moedas virtuais, preocupa a Comissão de Valores Imobiliários (CVM). Isso sem falar em estelionatos, como as armadilhas das “ações esquecidas” ou os “caçadores de indenizações”. 

Na Bolsa brasileira (B3), por exemplo, homens e mulheres com mais de 65 anos acumulam  R$ 88,6 bilhões em investimentos, o equivalente a 45% da soma de R$ 195,5 bilhões que gira na casa. Se baixarmos o corte para os 55 anos, a riqueza chega a 66,5% do total.

'Investidores seniores' podem ser alvos de abusos no mercado financeiro

Investidores seniores

Pelas projeções da Organização Mundial da Saúde (OMS), essa concentração deve se intensificar. Até 2050, a parcela da população mundial com 60 anos ou mais vais saltar de 12% para 22%. Então, cerca de 434 milhões de pessoas terão mais de 80 anos. Com serviços de saúde mais eficientes do que os acessados pela média da população, o grupo dos “investidores seniores” vai engrossar o caldo dos negócios financeiros, tornando-se alvo de abusos. Um levantamento da Organização Internacional das Comissões de Valores Mobiliários (IOSCO, na sigla em inglês), divulgado na semana passada reforça essa tese. O documento atesta que os maiores riscos para os investidores idosos são investimentos inadequados, fraudes financeiras cometidas por um não membro da família e capacidade cognitiva reduzida, que afeta a tomada de decisões. Depois, vêm produtos complexos, isolamento social, educação financeira deficiente.

O risco das bitcoins 

Este último fator de risco é o que mais aflige o mercado de capitais brasileiro, explica Florisvaldo Machado, inspetor da CVM. “A principal diferença entre o Brasil e países desenvolvidos é o baixo nível de educação financeira, que não se restringe aos seniores”. Apesar disso, ele lembra que, em geral, os donos de investimentos mais vultosos desenvolvem mecanismos de defesa próprios. A maior preocupação, portanto, são aqueles que investem sozinhos, de suas casas, pela internet ou telefone. 

Machado lamenta, ainda, o fato da B3 ter apenas cerca de 500 mil investidores registrados, número considerado baixo para um país com mais de 200 milhões de habitantes. “Nos Estados Unidos, o cidadão médio investe na bolsa. Isso não existe aqui, mas um milhão de pessoas já compra e vende bitcoins”, comenta. 

Não regulado no Brasil, marcado pelo anonimato e com alto risco de liquidez, o crescimento do mercado de moedas virtuais e tokens preocupa a CVM e não é de hoje. A reguladora já dedicou uma cartilha para o assunto.

O mesmo vale para o Mercado Forex e para as chamadas “operações binárias”. O Forex, que movimenta mais de US$ 5 trilhões todos os dias e só pode ser acessado por meio de corretoras ou bancos, envolve a compra e venda simultânea de moedas e oferece ganhos na diferença de câmbio entre elas. Já o mercado binário é uma verdadeira arena de apostas em que o investidor define um ativo e um curto período de tempo para arriscar sobre a tendência de alta ou de baixa. Se acertar, o investidor pode ter ganhos superiores a 70%. Se errar, tem prejuízo total. 

Não são apenas negócios de alto risco que ameaçam o investidor idoso. Segundo a IOSCO, em todos os países, o “uso crescente de comunicações online e a divulgação digital” têm dificultado ou mesmo impedido o uso de alguns serviços de consultoria financeira na terceira idade. Além disso, os golpistas continuam à solta. No mundo inteiro, usam as mesmas táticas para isolar as vítimas de consultores financeiros regulamentados, familiares e amigos. 

Um estudo da Autoridade de Conduta Financeira do Reino Unido (FCA) constatou que, muitas vezes, as vítimas são instruídas a não contar a ninguém sobre o investimento, sob a justificativa de que pessoas próximas poderiam se prejudicar caso a aquisição de risco fosse revelada, ou de que o investimento poderia se desvalorizar uma vez tornado público. Alguns idosos ainda eram obrigados a assinar “acordos de confidencialidade”. A FCA descobriu que, nos últimos 12 meses, 30% das pessoas próximas da idade da aposentadoria recebiam abordagens não solicitadas sobre pensões ou investimentos. 

O Brasil não fica longe. De acordo com o Portal do Investidor, da CVM, golpes antigos continuam a ser aplicados na praça. Um deles é a armadilha das ações esquecidas. Nesse caso, estelionatários telefonam para recuperar de ações antigas e vendê-las. Argumentam que é necessário o pagamento de um valor antecipado, atribuído à corretagem, tributação ou taxa cobrada pela CVM. Feito o pagamento, o interlocutor ou a empresa que diz representar somem do mapa. 

Outros perigos comuns são a oferta irregular de investimentos coletivos sem registro na CVM. Nesse caso, são prometidos retornos altíssimos para atrair um número crescente de aplicações capazes de remunerar os investidores mais antigos, um típico esquema de pirâmide. 

O golpe das indenizações 

O mais recente golpe contra os investidores ingênuos envolve as indenizações estabelecidas recentemente pelo Supremo Tribunal Federal para as vítimas de perdas com planos econômicos anteriores ao Real.  Mal foi fechado o acordo entre representantes de bancos e poupadores para ressarcir as perdas das cadernetas de poupança nas décadas de 1980 e 1990, os golpistas não perderam tempo. Os criminosos se passam por advogados e representantes de escritórios de advocacia e, por telefone, informam que há uma quantia disponível para ser resgatada de processos ainda em andamento. Para que recebam o valor, dizem, é necessário comparecer ao “escritório” para assinar uma “procuração” para que tais profissionais possam continuar acompanhando o processo. O documento, no entanto, uma cessão de direito que transfere o recebimento de valores para os suposto advogados.



Tags: banco, golpe, idosos, investimentos, velhos

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