Jornal do Brasil

Quinta-feira, 16 de Agosto de 2018 Fundado em 1891

Internacional

‘Rússia caminha para nova era’

Presidente de think tank avalia que país foi muito subestimado pela comunidade internacional

Jornal do Brasil JOHANNS ELLER* johanns.eller@jb.com.br

Ex-integrante do Exército Vermelho e coronel do exército da Rússia, Dmitri Trenin, que preside um dos think tanks independentes mais importantes do país, o Carnegie Moscow Center, está no Brasil e falou ao JORNAL DO BRASIL sobre a saída dos Estados Unidos do acordo do Irã, do qual a Rússia é signatária, e traçou as ambições geopolíticas do Kremlin em palestra no Rio de Janeiro ontem. Trenin discursou na Escola de Guerra Naval (EGN) para uma plateia de almirantes, embaixadores, acadêmicos e estudantes a convite do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri). Para o coronel do exército russo, seu país abriu caminho para uma nova fase na política externa. “A atuação russa na Síria e na Ucrânia sinaliza uma aproximação com questões globais. Essa nova era será diferente da União Soviética e do Império Russo”,  ressalta, lembrando que, apesar dos seus numerosos problemas internos, como a economia derrapante e a política autoritária do presidente Vladimir Putin, a Rússia é uma grande potência - mas não nos moldes da Guerra Fria. 

Trenin na Escola de Guerra Naval, no Rio. “Hoje, Rússia não é vista como parte do Ocidente”

Nova Guerra Fria? 

“Na ocasião da crise na Ucrânia, em 2014, fui uma das primeiras pessoas a cunhar essa expressão”, afirmou Trenin. O russo lembra que na época dos protestos contra o presidente ucraniano Viktor Yanukovych naquele ano, Rússia e EUA protagonizaram uma verdadeira guerra de narrativas sobre a responsabilidade dos assassinatos de ma O povo russo não é guiado pelo Ocidente. Ele quer manter sua identidade” 

nifestantes, com uma disputa de interesses regionais como pano de fundo. No entanto, sua visão sobre o termo quatro anos depois é diferente.  “Me sinto culpado por isso. Mudei de ideia. A ordem mundial é diferente, assim como as circunstâncias. Não há um muro de Berlim”, disse Trenin, sem deixar de reforçar que o principal desafio da diplomacia russa é a relação com os EUA, assim como na Guerra Fria.  “A Rússia rejeita quem se coloca como superior a ela”.

O isolamento russo Segundo Trenin, na sequência do colapso da URSS, em 1991, a Rússia centrou os esforços da sua política externa na definição de duas diretrizes para garantir seu lugar no complexo esquema geopolítico pós-Guerra Fria: o investimento na integração com a Europa, notavelmente até os anos 2000, e a criação de uma zona de influência de Moscou na região conhecida como Eurásia, abrangendo ex-repúblicas soviéticas como Ucrânia, Bielorrússia e Cazaquistão. A condução dessa política desabou com a deposição de Yanukovych na Ucrânia, em 2014, o que levou à anexação da Crimeia. Para Trenin, esse é o grande ponto de virada na política externa russa contemporânea. A partir desse momento, o Kremlin acabou se isolando da Europa e dos EUA, mas o presidente russo se fortaleceu. “O povo russo não é guiado pelo Ocidente. Ele quer manter sua identidade. Há uma ligação forte com a Ucrânia, que foi a segunda maior republica soviética”. 

Acordo do Irã

 “Um simples protesto da França, Reino Unido e Alemanha como reação à saída dos EUA do acordo demonstra fraqueza”, alerta Trenin, que cobra uma postura mais ativa da Europa, especialmente dos alemães. “A Rússia trabalhará com esses países, que são mais próximos de Putin do que de Trump. O Kremlin passará a mensagem de que a Rússia e o Ocidente não são inimigos e que seu confronto é com os EUA”, afirmou.

* Com supervisão de Denis Kuck



Tags: comunidade, era, europa, evenço, putin, rússia

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