Jornal do Brasil

Quinta-feira, 2 de Outubro de 2014

Economia

"Brasil afundando?", questiona artigo no 'Project Syndicate'

Estrategista da Moore Europe diz que país precisa de novo modelo de crescimento

Jornal do Brasil

Atividade econômica em queda, intensificação das pressões inflacionárias, confiança do empresário e do consumidor desmoronadas, "as perspectivas econômicas do Brasil parecem cada vez mais fracas", alerta o estrategista global da Moore Europe Capital Management, Gene Frieda, em artigo publicado no Project Syndicate. Ele se propõe, então, a traçar o quão "doente" estaria a economia brasileira, e como esse mal-estar deve influenciar o desempenho da eleição presidencial em outubro.

À primeira vista, alerta Frieda, o crescimento fraco do país parece efêmero, considerando a posição da presidente Dilma Rousseff nas pesquisas de intenção de voto e ainda a contribuição do Partido dos Trabalhadores, nos últimos 12 anos, para o mais forte crescimento do PIB per capita em mais de três décadas; menor desigualdade de renda com um sistema extenso de transferência de renda, que atinge um terço dos lares brasileiros, e ainda redução do desemprego formal para o índice recorde de 4,5%.

"Mas mesmo um olhar superficial nos dados econômicos recentes revela que o modelo de crescimento do Brasil pode muito bem estar batendo em uma parede de estagflação", pondera, ao lembrar o resultado do PIB do segundo trimestre, uma queda de 0,6%, que junto com a revisão do primeiro para -0,2% levou à recessão técnica.

"E o crescimento anual durante a presidência de Dilma Rousseff tem, provavelmente, uma média de menos de 2% - o mais lento para qualquer presidente brasileiro desde os anos 1980, quando o país começou sua transição de caso perdido hiperinflacionário e inadimplente para a economia de renda média estável e cada vez mais próspera", continua.

>> Recessão técnica se confirma e alerta para declínio da indústria e da confiança

Além disso, atesta, se o governo não cortasse impostos e atrasasse "aumentos tão necessários" nos preços da gasolina e da eletricidade, a inflação média anual seria de 7,5% - um nível não alcançado em décadas. Ele lembra que onde o governo não tomou medidas, nos serviços, a taxa já ultrapassa 9%. 

Para o o estrategista, é só "cavar mais fundo" para encontrar desequilíbrios e fragilidades na economia brasileira, que apontam para uma substancial perda de competitividade. Até mesmo os pontos fortes da economia, que para o estrategista seria um setor de serviços próspero e o baixo desemprego, descansam sobre políticas de crédito insustentáveis. "Rápido crescimento do crédito é uma consequência natural da queda das taxas de juros reais. Mas, no Brasil, os empréstimos concedidos por bancos estatais superou a dos bancos privados de forma significativa desde 2008", diz Frieda.

Para ele, a próxima eleição presidencial é a mais importante do país, desde sua transição para a democracia em 1985. Mas, apesar da queda nas desigualdades entre brasileiros, 70% dos brasileiros expressam desejo de mudança de governo.  O que não chega a surpreender, acredita, vide os protestos de junho que tomaram as ruas contra a baixa qualidade dos serviços públicos e alto custo de vida. 

"Mas a culpa é inteiramente do governo Dilma?", questiona, apontando em seguida que uma resposta curta seria "não". "Enquanto o governo de Dilma Rousseff é o grande responsável pelo recente surto de debilidade conjuntural e convulsão social, os problemas do Brasil estão enraizadas em uma indisposição mais ampla para sacudir as políticas adotadas durante mais de duas décadas de regime militar."

Frieda defende que o Brasil precisa de um novo modelo de crescimento, baseado em quatro elementos-chave: política fiscal mais apertada, política monetária mais frouxa, um papel reduzido para os bancos estatais na concessão de crédito, e medidas para reduzir os custos de empréstimos privados "astronômicos" do Brasil. De direita ou de esquerda, o novo governo precisaria enfrentar a difícil tarefa de reformar o sistema de direitos adquiridos, para tornar os benefícios sociais mais flexíveis e acessíveis. Essa abordagem, alerta, é que vai determinar se o Brasil seguirá o caminho da Venezuela, de estagflação, ou se seguirá os passos do Chile, considerada a melhor economia da América Latina.

Tags: brasil, crise, economia, estagflação, repercussão

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