Jornal do Brasil

Terça-feira, 23 de Dezembro de 2014

Economia

Ermírio Moraes, o empresário brasileiro, é sepultado aos 86 anos

Familiares e amigos se despediram com cerimônia simples e tranquila, em São Paulo 

Jornal do Brasil

Foi sepultado na tarde desta segunda-feira (25) o mais bem visto e exaltado empresário brasileiro, Antonio Ermírio de Moraes. Mesmo figurando em rankings mundiais entre os mais ricos do planeta, ficou conhecido pela simplicidade e generosidade. Contribuiu para o país em diferentes frentes, da política às artes cênicas, e ganhou biografia um ano antes de sua morte, escrita pelo sociólogo José Pastore. Por um estilo de vida que se chocava com suas condições financeiras, chamou a atenção do mundo inteiro e é lembrado agora por diversas entidades e personalidades brasileiras e internacionais.

"Sou um homem rico em responsabilidade", disse certa vez em entrevista
"Sou um homem rico em responsabilidade", disse certa vez em entrevista

A cerimônia, simples e reservada a familiares e amigos próximos, marcou a despedida do empresário incansável, conhecido por nunca tirar férias, que lutava há anos contra o mal de Alzheimer e que faleceu por insuficiência cardíaca em sua casa, em São Paulo, neste domingo (24). O velório ocorreu na Beneficência Portuguesa.

Em entrevista para o Roda Viva em 1991, Ermírio foi questionado sobre como se sentia sendo tão "sendo tão rico num país tão pobre", e respondeu: "Olha, eu acho que sou um homem rico em responsabilidade. Eu nunca usufrui da riqueza que tenho, nunca falei sobre a minha riqueza porque eu acho isso ridículo. (...) Eu tenho profundo respeito por aqueles que trabalham. A maior homenagem que eu posso prestar àqueles que trabalham é exatamente não afrontá-los mostrando exatamente o que o dinheiro podia eventualmente comprar."

Seguindo ensinamento do pai, costumava dizer que a ajuda ao pobre não precisava ser anunciada. Sua dedicação a algumas causas, no entanto, acabava se tornando pública. "A Beneficência Portuguesa de São Paulo vem expressar publicamente seu sentimento de pesar e prestar condolências à família de Antônio Ermírio de Moraes. Perdemos um grande líder e um grande empresário, alguém dedicado à família, à sociedade e que prezava pelo investimento e apoio às ações na área de saúde. Presidente de Honra da Beneficência Portuguesa de São Paulo, Antônio Ermírio de Moraes esteve à frente da Instituição por mais de três décadas, participando ativamente do seu desenvolvimento e sendo determinante para que ela pudesse atingir a excelência no atendimento médico prestado à população", declarou a Beneficência Portuguesa em nota.

Nascido em São Paulo em 1928, filho do engenheiro pernambucano José Ermírio de Moraes, que criou o Grupo Votorantim comprando ações de uma empresa de tecelagem, Antônio Ermírio se formou em engenharia metalúrgica pela Colorado School of Mines (EUA). Iniciou carreira no Grupo Votorantim em 1949, ajudando a empresa a se destacar na produção de cimento, extração de alumínio, agronegócio e finanças, entre outras atividades. Em 1955, Moraes foi o responsável pela instalação da Companhia Brasileira de Alumínio.

No campo das artes, escreveu três peças de teatro e diversos livros, ganhando uma cadeira na Academia Paulista de Letras. Em 1986, candidatou-se ao cargo de governador de São Paulo pelo PTB e ficou em segundo lugar, atrás de Orestes Quércia (PMDB).

Ele trabalhava 12 horas por dia, mas ponderava que era preciso moderação. "Na vida, o meio termo é o correto, nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Eu acho que é preciso trabalhar, mas não se descuidar do lazer, para você, para sua família, para sua saúde inclusive", disse durante uma entrevista à rádio CBN.

Repercussão

A norte-americana Bloomberg News se valeu de uma publicação no Twitter com foto para comunicar a morte do empresário, remetendo a matéria com a trajetória de Ermírio e declaração dada em entrevista a programa de TV brasileiro: "Uma das coisas que eu nunca exatamente me preocupei foi com essa fobia de parecer rico."

Durante o velório, em entrevista à imprensa, Delfim Netto, ex-ministro da Fazenda, afirmou que o presidente de honra do Grupo Votorantim foi "um grande empresário, que ajudou a construir o Brasil": "É uma perda inestimável. Se quiser uma definição de empresário, use Antônio Ermírio."

O Grupo Votorantim, que tinha Ermírio como presidente de honra, comunicou o falecimento do "grande líder, que serviu de exemplo e inspiração para seus valores, como ética, respeito e empreendedorismo, e que defendia o papel social da iniciativa privada para a construção de um país melhor e mais justo, com saúde e educação de qualidade para todos".

A presidenta Dilma Rousseff se referiu ao empresário como "líder nato", que sempre acreditou no desenvolvimento do Brasil. 

Lázaro de Mello Brandão, presidente do Conselho de Administração do Bradesco, se referiu à Ermírio como um vencedor, cujo paradigma servirá para esta e muitas outras gerações de brasileiros. "O país perdeu um pioneiro na criação da economia brasileira moderna. Foi-se um homem de crença e coragem na defesa dos valores do investimento, do emprego e da produção. Entusiasmado e empolgante, ele conduziu o Grupo Votorantim ao mais alto patamar da iniciativa privada nacional. [...] Com sua passagem, todos perdemos um líder único, homem para quem cada obstáculo do caminho se transformava em força para seguir lutando."

Robson Braga de Andrade, presidente da CNI, em nota, ressaltou a obstinação e importante legado de "exemplo com sua vida de empreendedor e de defensor da ética nas relações humanas". Destacou ainda o trabalho de Ermírio em favor da educação e da saúde dos mais pobres, por meio de obras sociais a que se dedicou pessoalmente. "O Brasil precisa de mais cidadãos e empresários como ele."

Em 2013, a vida do empresário foi retratada pelo sociólogo José Pastore em uma biografia: "Antônio Ermírio de Moraes: Memórias de um Diário Confidencial". "No campo pessoal, a marca de Antônio Ermírio foi a simplicidade, sempre acompanhada de humildade e generosidade. Como empresário ele tinha como meta investir continuamente para gerar empregos de boa qualidade. [...] Como investidor ele pregava ser de responsabilidade dos empresários não apenas produzir e pagar impostos, mas também, ajudar o próximo. E para tanto, ele deu o exemplo ao longo dos seus 60 anos de trabalho", disse Pastore, em nota.

A Fiesp também destacou a contribuição à história da indústria brasileira: "É com profundo pesar que a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) lamenta a morte de seu presidente emérito Antônio Ermírio de Moraes, um dos mais importantes líderes empresariais do país. [...] Destacou-se também como cidadão brasileiro, no mais verdadeiro sentido da palavra, levando seu brilhantismo às ações voltadas às áreas social, da saúde, artística e política. Perdemos um parceiro, mas seu nome sempre foi e sempre será inestimável referência à história da indústria."

Geraldo Alckmin, governador de São Paulo, por sua vez, salientou a dedicação à Beneficência Portuguesa e o exemplo que se transformou Ermírio: "Antônio Ermírio de Moraes encarnava o que há de melhor no povo brasileiro. Apaixonado pelo país, era um homem empreendedor e de coração generoso. Expandiu seu grupo empresarial para mais de 20 países, em inúmeras áreas de atuação. Um verdadeiro orgulho para São Paulo e para o Brasil. Dedicou uma vida inteira à Beneficência Portuguesa, atendendo aos que mais necessitam. Nas muitas oportunidades em que estivemos juntos, pude testemunhar seu grande espírito público, sua honradez, sua capacidade de trabalho. A trajetória de Antônio Ermírio é um exemplo para todos nós. Nossos sentimentos à família, aos amigos e a todos que o admiravam."

 

Tags: antonio ermírio de moraes, enterro, morte, simplicidade, votorantim

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