Jornal do Brasil

Terça-feira, 21 de Outubro de 2014

Economia

Estagflação: período de recessão leva pessimismo aos mercados populares

Desde a Copa, comerciantes não conseguiram aquecer as vendas e desemprego é inevitável

Jornal do BrasilCláudia Freitas

Corredores cheios, lojas lotadas, vendas aquecidas e produtos a "preço de banana". Os mercados populares não são mais os mesmos desde a Copa do Mundo. Em uma visita esta semana a três dos principais polos de venda do Rio de Janeiro - Mercadão de Madureira, na Zona Norte, Saara, no Centro, e Mercado Popular da Rocinha, na Zona Sul - foi possível perceber o fenômeno econômico conhecido como "estagflação", caracterizado por um cenário típico de recessão, com a diminuição das atividades econômicas e o aumento dos índices de desemprego. A palavra é uma fusão de estagnação (econômica) e inflação. 

Ênio Bittencourt, presidente da Saara
Ênio Bittencourt, presidente da Saara

Os três mercados, que neste período do ano recebem um número significante de consumidores, amargam atualmente tímidas vendas e os comerciantes foram levados a diminuir o seu quadro funcional e tentar nas promoções uma saída para movimentar os estoques.  Um dos efeitos mais evidentes dos períodos de estagflação são as demissões em massa. Na prática, o processo começa com o baixo faturamento, a estagnação dos estoques de mercadorias, levando a classe empresarial ao prejuízo e a tomar as devidas medidas emergenciais de contenção de despesas: dispensa dos funcionários e estampar as prateleiras com os avisos de promoção, na tentativa de estimular o consumo.   

>> Alarmes sobre 'estagflação' soam em meio a leque de resultados negativo

O presidente da Sociedade de Amigos das Adjacências da Rua da Alfândega (Saara), Ênio Bittencourt, acredita que os comerciantes do mercado popular da Saara, no Centro do Rio de Janeiro, nunca viveram um período tão crítico de recessão. Com um ar de seriedade e preocupação, Ênio já revelou no início da entrevista a dificuldade que vem encontrando nas vendas - "você acredita que quinta-feira (21) nós fechamos o dia com menos de mil reais de faturamento?. Isso nunca tinha acontecido", lamentou o comerciante. 

Afrânio Alves, gerente da Loja Lealtex
Afrânio Alves, gerente da Loja Lealtex

Ciente do período de estagflação no país, Ênio pondera que, além do processo econômico, outros fatores contribuíram para o desaquecimento das vendas no mercado do Saara, que segundo ele teve como marco a Copa do Mundo. "As pessoas realmente estão endividadas, o governo tomou medidas financeiras que refletiram no bolso do consumidor, mas aqui no Centro do Rio tivemos dois agravantes: as obras da prefeitura para a Copa e a mudança radical no trânsito, que com certeza afugentou a nossa clientela", enumerou. 

Atuando há 53 anos no mercado do Saara, Ênio classifica a atual crise como "muito séria", com queda aproximada de 60% das vendas no primeiro semestre deste ano, além das demissões dos empregados das 650 lojas associadas, que numa contabilidade geral atinge 10%. O faturamento dos comerciantes caiu em 40% e os estoques de antes da Copa ainda estão parados, de acordo com o panorama dado pelo presidente da sociedade de amigos. 

Isaías Souza Damasceno, gerente da Padaria e Confeitaria La Doce Vita
Isaías Souza Damasceno, gerente da Padaria e Confeitaria La Doce Vita

O gerente de loja Lealtex, uma das mais tradicionais do Saara, Afrânio Alves, faz uma avaliação bem próxima à de Ênio, revelando que o seu negócio teve uma queda de 50% no faturamento desde o mês de junho. "Não é hábito na nossa empresa demitir funcionários, isso é muito raro, mas estamos preocupados e receosos de chegar ao ponto que essa medida seja inevitável", disse Alves. Segundo os números fornecidos por ele, a loja recebia há dois meses atrás uma média de 130 clientes. Hoje, os talões acusam, no máximo, 60 vendas diárias. 

Lojas vazias são sinônimo de recessão também no comércio de alimentos no entorno dos mercados populares. "Tivemos períodos aqui de descer as portas depois das 22 horas, ainda com clientes procurando por lanches. Agora, 18 horas já está tudo vazio. Realmente, estamos sentindo os efeitos da crise", disse o dono da Padaria e Confeitaria La Doce Vita, no Saara, José Alves Gomes. O gerente da padaria, Isaías Souza Damasceno, acrescentou que as vendas caíram 20% nos últimos meses e, com isso, a direção da loja teve que enxugar o quadro de funcionários na mesma proporção. 

Enquanto os comerciantes procuram na promoção uma alternativa de movimentar os estoques, os consumidores gastam mais tempo na procura da melhor oferta. "Tem que pesquisar, mesmo com os cartazes de promoção. Eu ando o dia inteiro anotando os preços para depois optar pelos produtos e locais mais baratos", disse a dona de casa Maria Rosevania, de 27 anos. Para a subsíndica da associação de comerciantes do Mercadão de Madureira, Sheila Reis, houve um pequeno aumento no preço de alguns artigos, decorrente dos impostos e contribuição tributária. "Estamos com queda nas vendas e ainda temos que manter em dia as nossas obrigações tributárias, com isso não temos outra alternativa senão repassar para o consumidor", analisou a comerciante.

Sheila Reis, subsíndica do Mercadão de Madureira
Sheila Reis, subsíndica do Mercadão de Madureira

Segundo Sheila, após a Copa do Mundo o fluxo de clientes caiu em média 10% no Mercadão, mas o desemprego ainda não chegou ao polo comercial. Para driblar a crise, os lojistas criaram um esquema inteligente de funcionamento, que evita a concorrência. "A gente evita comercializar os mesmos itens que as lojas próximas, pelo contrário, combinamos artigos complementares e fazemos a indicação para o cliente. Assim todo mundo sai ganhando e evitamos uma recessão", disse Sheila. A variedade de produtos no Mercadão é o que mais agrada a aposentada Cristina Pastor, de 58 anos. "Aqui a gente consegue encontrar de tudo e com preços variados, o que facilita a pesquisa", disse a consumidora, que estranhou os corredores vazios no decorrer desta semana. "Tem um bom tempo que eu não venho aqui e realmente está com muito pouca gente comprando. Bem diferente de tempos atrás", observou a aposentada. 

José Gonçalves Branco, dono da mercearia JGBranco, no Mercadão de Madureira
José Gonçalves Branco, dono da mercearia JGBranco, no Mercadão de Madureira

O comerciante José Gonçalves Branco, que tem uma mercearia no segundo piso do Mercadão, encontrou uma alternativa para não ter muitas despesas nesse período de estagflação. "Só tenho um funcionário e é da minha família. Realmente tivemos uma baixa nas vendas", confirmou ele. 

Na Rocinha, vendas preocupam comerciantes que não têm mais como economizar

Sem saber muito bem o significado da palavra estagflação, a presidente da associação de lojistas do Mercado Popular da Rocinha, Iris Maria Santos, vem sentindo os efeitos do fenômeno na rotina do polo comercial, que conta com 220 barracas e tem uma circulação de cerca de 10 mil moradores da comunidade, diariamente. "Se todo mundo que passa por aqui comprasse, seria muito bom", comentou Iris. 

Segundo a comerciante da Rocinha, as vendas tiveram uma ligeira queda nos últimos meses, mas ela não sabe identificar os fatores que provocaram o declínio. A sua maior preocupação à frente da associação, é com a manutenção do local. "A gente depende das vendas para pagar os nossos colaboradores para varrer os corredores, esvaziar as lixeiras e manter o pólo sempre limpo. A nossa renda vem apenas dos moradores da comunidade que compram aqui, porque não temos consumidores de outros lugares do Rio", esclareceu Iris. 

Estagflação 

O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) do mês de julho, referente ao período de 15 de junho a 15 de julho, apontou para uma inflação discreta de 0,17%. No entanto, a alta nos preços dos alimentos no primeiro semestre e de outros serviços no período de realização da Copa do Mundo, como passagens aéreas e hospedagem, que primeiro tiveram um aumento de 30% e depois caíram vertiginosamente, impulsionaram a inflação para baixo.

Para o economista da Fundação Getúlio Vargas (FGV), André Braz, o termo estagflação deve ser usado com um certo cuidado, já que as projeções são de estabilização da economia nos próximos meses e as demissões não devem atingir índices críticos. Braz avaliou que geralmente o mês de agosto é marcado por uma baixa demanda no comércio. "É um período que não temos data comemorativa, o que desaquece as vendas, reduzindo o volume de negócios", esclareceu o economista, prevendo ainda que deve começar em breve os preparativos para as festas de fim de ano no comércio, quando as vendas tomam uma outra dinâmica e bem mais otimista. 

"Não é qualquer empresa que vai demitir nesse momento de preparação para o fim de ano. O funcionários treinado é importante para o comerciante, pois é ele quem vai ajudar nas vendas no período de maior aquecimento", destacou o economista. Em uma avaliação mais macro feita por Braz, o país está vivendo um ano mais complicado economicamente, o que naturalmente reflete nos negócios regionais. O perspectiva do PIB crescer abaixo de 1% este ano gera uma atividade mais discreta no setor de serviços, com menos contratação pelas indústrias e, consequentemente, o desaquecimento da economia. 

O economista da FGV observou ainda o crescimento da classe C nos últimos anos, levando o aumento do consumo de bens e serviços antes não utilizados por essa camada da população. "A mulher vai mais no salão fazer a unha, o proprietário de carro vai levar mais o veículo para um lava jato e a tendência é a elevação do valor desses serviços. Sendo que com o crescimento da economia em 1% vai desestimular esse quadro e, gradualmente, as pessoas vão novamente abrindo mão dos serviços mais caros e frequentes e tudo tende a estabilizar", esclareceu Braz.

Tags: econômico, estagflação, fenômeno, mercadão, Rio, rocinha, Saara

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