Jornal do Brasil

Sábado, 25 de Outubro de 2014

Economia

Queda do GES representa crise que desacredita as elites, diz Cadilhe

Economista, ex-ministro das Finanças, deu entrevista ao jornal português 'Económico'

Jornal do Brasil

O Económico publica entrevista na noite desta quarta-feira (20) com o economista, ex-ministro das Finanças de Portugal, Miguel Cadilhe sobre o colapso do Grupo Espírito Santo (GES). Para ele, a queda do GES representa uma crise institucional que desacredita as elites. Ele ainda se disse "chocadíssimo" com a situação do grupo, que tem atuação no Brasil desde os anos 1970, quando o regime salazarista foi derrubado e os negócios da família foram transferidos a outros países.

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"Pior que surpreendido, fiquei chocadíssimo. Não é que não houvesse alguns indícios de que algo podia acontecer. Ao longo dos anos, o BES (Banco Espírito Santo) aparecia associado a alguns processos mais complicados do ponto de vista comportamental e de conformidade com a lei. Acreditei que poderiam ser apenas indícios, não o que infelizmente veio a ocorrer. Mas a Justiça o dirá", disse Cadilhe ao Económico.

Enquanto o Banco Espírito Santo (BES) recebeu uma intervenção do Estado português, provocando a saída do líder dos negócios da família, Ricardo Salgado, a holding do GES, Rioforte, deu um calote de 897 milhões de euros na Portugal Telecom, em processo de fusão com a Oi, gerando prejuízos a acionistas e atrapalhando a criação da CorpCo. 

Wall Street Journal publicou nesta semana que o Credit Suisse teve participação no colapso do BES, reunindo bilhões de dólares em ativos emitidos por veículos de investimento offshore do BES e vendidos aos clientes de varejo do banco português. Ainda não se sabe se essa participação era direta ou indireta, mas a questão seria que os clientes não tiveram conhecimento de que os veículos de investimento continham emissões de dívida de várias companhias do grupo, servindo, então, como um mecanismo para financiar o mesmo. O Credit Suisse, no entanto, negou que tenha vendido ativos ou aconselhado clientes do BES a comprar veículos financeiros fora das contas do banco.

Fernando Pinto, presidente da companhia aérea Tap, também em conversa com o jornal Económico, já havia comentado sobre o caso: "O BES, o Grupo como um todo e até a figura do Ricardo Salgado são ícones de Portugal e a destruição de um ícone desses preocupa-me muito".

Inquérito Parlamentar sobre o BES é discutido em Portugal

Políticos portugueses discutem a abertura de um inquérito parlamentar, para apurar responsabilidades no caso do Banco Espírito Santo. O presidente do grupo parlamentar do português PSD, Luís Montenegro, ressaltou à agência Lusa que é relativamente fácil que haja hoje uma conjugação de esforços para que um inquérito parlamentar seja criado. No início deste mês, o líder do PCP, João Oliveira, já havia anunciado que seu partido iria propor a criação da comissão de inquérito.

À imprensa brasileira, Ricardo Salgado nega ser pivô da crise

Ricardo Espírito Santo Salgado, líder dos negócios da família Espírito Santo, deu entrevista ao Estado de S. Paulo neste domingo (17). "Não sou o pivô [dessa crise]. Cada um [da família] respondia por uma atividade de negócio. O Ricciardi pela presidência do BESI, o Manuel Fernando pela 'holding' Rioforte, e por aí em diante", afirmou. 

"Estou no meio do olho do furacão porque sou um banqueiro à frente de uma instituição de quase 150 anos", continuou. O líder foi forçado por reguladores a deixar o cargo de presidente-executivo do Banco Espírito Santo, agora sob controle do Banco de Portugal, depois do prejuízo semestral de 3 bilhões de euros.

A ata da última reunião do Conselho de Administração, realizada no dia 13 de julho, revela, inclusive, que Salgado tentou até o último momento impedir que o BES recebesse uma ajuda do Estado português. Ele alegava que a solução do banco seria uma parceria estratégica e/ou financeira, que não envolvesse a participação estatal. O documento foi divulgado pelo jornal Sol.

Ricardo Salgado, durante a reunião, faz um elogio ao Conselho, "pela forma extraordinária como ao longo do tempo foi capaz de fazer evoluir o BES, tornando-o uma referência incontornável no sistema financeiro nacional, apesar das dificuldades e crises, com especial relevo para a capacidade demonstrada no passado recente em evitar ter de, ao contrário de outras instituições, recorrer a fundos públicos para a recapitalização do banco".

Os braços do Grupo Espírito Santo no Brasil

Como o Jornal do Brasil já publicou no início de julho, o Grupo Espírito Santo desenvolve atividades financeiras no Brasil, direta ou indiretamente, desde 1976, dois anos após a Revolução dos Cravos que derrubou o regime salazarista em Portugal. Na época, os acionistas viraram alvo de intensa perseguição política, o banco foi nacionalizado e os principais sócios deixaram Portugal. Iniciaram, então, atividades financeiras no Brasil, na Suíça, na França e nos Estados Unidos, com destaque para a multiplicação dos negócios em terras brasileiras. Informações dão conta de que eles se associaram a grupos brasileiros, participando de operações ilícitas e causando grandes prejuízos. A família retomou o Banco Espírito Santo posteriormente.

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O processo de internacionalização da Portugal Telecom, iniciado em 1997, esbarra com o mercado brasileiro de telecomunicações em 1998, com a aquisição de importantes entidades, como a Telesp Celular, Telesp Fixa e a Companhia Riograndense de Telecomunicações (CRT). Uma das etapas de privatização no Brasil aconteceu no governo de Fernando Henrique Cardoso, tendo como marco a aprovação da Lei de Concessões, em fevereiro de 1995. O objetivo era criar regras gerais para o governo conceder a terceiros o direito de explorar a produção de serviços públicos, a exemplo do setor de geração de energia elétrica e de telecomunicações. A privatização dessas áreas exigiu um esquema complexo de regulação, para alcançar a maior competição do setor, na promessa de eliminação do monopólio público. A maioria dos compromissos de investimento feitos pela Portugal Telecom na época ainda estão no papel.

Tags: banco, cadilhe, Espírito Santo, oi, portugal telecom

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