Jornal do Brasil

Quinta-feira, 23 de Outubro de 2014

Economia

Síntese da conjuntura: política social e distribuição de renda

Jornal do BrasilErnane Galvêas

É um fato notório na maioria dos países, que a Renda Nacional se distribui, basicamente, em proporções tradicionais de cerca de 40% para o Governo que recebe tributos, 40% para os trabalhadores que ganham salários e 20% para os empresários que auferem lucros.

Se, a partir de um certo momento, o Governo decide aumentar em 5% a participação dos trabalhadores na Renda, isso só será possível mediante uma perda equivalente para o Governo e/ou os empresários. Como, no caso do Brasil, o Governo vem aumentando a carga tributária, subindo 30% de 2000 para cerca de 37% em 2014, e os trabalhadores já obtiveram aumentos reais de salários de 82%, nesse mesmo período, é fácil entender que o único perdedor nesse “jogo” é o empresário. Isso explica porque o índice de confiança dos empresários vem caindo, assim com a sua propensão para investir, e explica também porque a indústria vem perdendo participação relativa no PIB.

Ao que tudo indica, a desigualdade social no Brasil é muito grande e justifica a continuidade de uma política social de transferência de renda em favor dos trabalhadores. A questão crítica é saber de onde tirar essa transferência e a resposta óbvia deveria ser a redução da elevada parcela que o Governo tem, hoje, na Renda Nacional. Só que isto não tem se mostrado politicamente possível. E o caminho mais fácil é jogar todo o peso dessa transferência de renda sobre a classe empresarial. Pode parecer que isso seja viável, a curto prazo, mas o resultado é o baixo crescimento da produção nacional, a perda de competitividade e a tendência de agravamento do mercado de trabalho.

A mais longo prazo, a solução ideal será promover a repartição social desejada na medida em que ocorrerem os acréscimos anuais da Renda. Se o PIB nacional cresce 4%, por exemplo, pode-se pretender que 60% desse crescimento beneficie as classes trabalhadoras.

 

O GOVERNO PERDEU O RUMO

Para inicio de conversa, pensando controlar a inflação o Governo desestruturou a Petrobras e a política petrolífera, está destruindo o etanol já com 60 usinas fechadas e 30 em concordata, assim como a Eletrobrás e a política energética, comprometendo o quadro geral da segurança jurídica. Ao mesmo tempo em que o Banco Central tentava controlar a inflação elevando a taxa de juros, o Governo expandia desbragadamente o crédito no BNDES e na Caixa Econômica, com juros subsidiados. Ainda mais, o BC passou a controlar a inflação valorizando a taxa de câmbio, com o que não só agravou a situação da indústria, como gerou um assustador déficit nas contas externas e desestruturou o Balanço de Pagamentos.

A politica fiscal se tornou refém dos políticos e, na medida em que todos só pensam na reeleição, as contas públicas vão deteriorando, com permanente expansão da dívida pública. Em consequência, não há recursos suficientes para os investimentos na infraestrutura, que também padece de gestão deficiente. A falta de investimentos entravou o crescimento econômico.

Na área social, ao lado dos resultados positivos dos Programas Bolsa Família e Minha Casa, Minha Vida, prevalece um quadro lamentável na saúde na educação e no transporte urbano. No mercado de trabalho, a baixíssima taxa de desemprego (5,0%) conflita com impressionante volatilidade que, segundo o CAGED, se expressa por um total de 11.278 mil de admissões contra 10.689 mil de rescisões de contratos de trabalho, no primeiro semestre deste ano.

Pairando sobre todo esse conjunto de desvios institucionais, está presente uma asfixiante burocracia oficial, que começa com o exagero de 39 ministérios, dotados de impressionante estrutura burocrática, 78 super-autarquias e excessivos quadros de pessoal.

Para sustentar toda essa “barraca”, o Governo impõe sobre a comunidade uma insuportável carga tributária de cerca de 37% do PIB (a maior entre todos os países emergentes)e ainda absorve 3% da poupança privada mediante acréscimos constantes da dívida pública. A carga tributária e a complexidade do Sistema são a “saúva” do Brasil. Não dá para ficar como está.

 

SATISFAÇÃO E INSATISFAÇÃO SOCIAL

Em recente pesquisa de opinião pública realizada pela FGV, nas seis principais regiões metropolitanas, chega-se a duas conclusões opostas dos entrevistados, em relação aos últimos cinco anos:

1) Do ponto de vista da satisfação econômica pessoal, para 4% a vida melhorou muito; para 41%, melhorou; para 32% ficou igual; para 19% piorou e para 3% piorou muito.

2) Em relação aos próximos cinco anos, o otimismo coletivo é marcante: Para 66% a vida vai melhorar muito ou melhorar e para 30% vai ficar igual, piorar ou piorar muito. Há insatisfação em relação à prestação dos serviços públicos.

3) Na área da SAÚDE, 79% estão muito insatisfeitos ou insatisfeitos; 12% satisfeitos; 1% muito satisfeito e 8% indiferentes.

4) Na área da EDUCAÇÂO PÙBLICA, 66% estão muito insatisfeitos ou insatisfeitos; 18% satisfeitos e 1% muito satisfeito.

5) Na área da SEGURANÇA PÙBLICA, 80% estão insatisfeitos ou muito insatisfeitos; 10% satisfeitos e 1% muito satisfeitos.

6) Na área do TRANSPORTE PÚBLICO, 73% estão insatisfeitos ou muito insatisfeitos; 16% satisfeitos e 1% muito satisfeito.

 

Em resumo, pode-se afirmar  que, para a população brasileira, A VIDA MELHOROU DENTRO DE CASA E PIOROU DA PORTA PARA FORA.

 

ATIVIDADES ECONÔMICAS

Segundo o índice ICE da FGV, o atual clima econômico é o pior, desde 1991, tenho recuado 22,5% em julho ante abril. A morte trágica do presidenciável Eduardo Campos veio aprofundar o quadro de incertezas politicas econômicas. A primeira reação foi a forte queda na BOVESPA das ações da Vale, Petrobrás e Eletrobrás.

Além das preocupações politicas, o cenário econômico é agravado pela perspectiva da crise de água e energia da Região Sudeste especialmente São Paulo e Rio de Janeiro, com pronuncia do desentendimento entre a CESP e a LIGHT. A estação seca deve terminar em outubro e se não começar a chover em novembro fica desde já comprometido o crescimento econômico também em 2015.

A última previsão FOCUS para o PIB 2014 é de 0,8%, a da CNC é de 7%, tendo em vista a retração esperada de - 0,6% para a indústria. Em julho, foram realizados 141 pedidos de falência, alta de 23,7% sobre junho (Serasa).

Não há como concordar com o presidente do Banco Central, com a afirmação de não haver uma crise econômica no País.

 

Indústria

Segundo o IBGE, a produção industrial recuou 1,4% em junho ante maio e -6,9% em relação a junho/2013, a maior queda desde 2009. A produção caiu em 11 dos 14 centros pesquisados, com destaque para Amazonas (-9,3%), Paraná (-7,5%), Pernambuco (-7,4%) e Ceará (-5,4%).

De acordo com a CNI, entre maio e junho, o faturamento caiu 5,7% e a utilização da capacidade instalada chegou a 80,1%, ante 80,6% em maio,com queda de 0,5% no nível de emprego e de 0,8% na massa salarial.

A produção da linha branca, no 1º semestre tem o pior desempenho dos últimos 10 anos. Em julho a produção industrial automobilística manteve a tendência de queda, em recuo de 20,5% em relação a julho/2013, embora tenha crescido 17% sobre junho.

Em junho, a produção de petróleo e de gás registrou recorde de 2,79 milhões de barris, 2,5% acima de maio. Em julho, a produção de petróleo chegou a 2,152 milhões de b/d, com alta de 2% sobre junho.

Segundo o IABr, a produção brasileira de aço deverá cair 2,5% em 2014. As vendas de etanol cresceram 2% entre junho e julho, mas caíram 19,7% em julho, sobre o mesmo mês de 2013.

Segundo a ABIQUIM, a produção de produtos químicos teve redução de 0,7% no 1º semestre, com queda de 0,8% entre maio e junho. As vendas de papelão ondulado caíram 2,34% em junho, ante maio, e -3,38% em relação a junho/13.

O Grupo Gerdau está reduzindo ligeiramente sem investimentos no Brasil, com elevação no México e Estados Unidos.

Importante: A Petrobrás anuncia nova descoberta na área de Júpiter.

 

Comércio

Após leve alta em maio, as vendas do comércio varejista voltaram a cair -0,7% entre maio e junho, com destaque para veículos e peças(-12,9%), livros, etc (-5,3%) e equipamentos e material de escritório (-4,2% ). No ano, a maior queda se deve ao setor vestuário (-3,8%). Em relação a junho /13, houve alta de +0,8%, principalmente em artigos de uso pessoal (+7,9%) e farmacêuticos e médicos (+7,7%).

Geograficamente, no acumulado do ano, destacaram-se Acre (+11,8%), Rondônia (+9,4%) e Ceará (+8,8%). Até maio, as vendas caíram 0,4%.

No setor atacadista (ABAD), o 1º semestre fechou com alta de 1,65%, mas entre maio e junho houve queda de 10,47%. O comércio online. Teve crescimento de 26%.

A CNC estima em +4,0%, o crescimento do varejo em 2014 e a ABRAS prevê expansão real de 3%.

 

Agricultura

Um registro estatístico intrigante é a expansão de apenas 1,1% na produção agropecuária, em 2012, ante o aumento de 6,9% em 2011, 16,2% em 2012 e 16,2% em 2013. Para 2014, estima-se crescimento de 2,2%.

A safra de cana de açúcar 2014/2015 pode ter queda de 14% (Unica). Na agricultura como um todo, há perspectiva de redução da renda, devido à queda dos preços, e demissão de pessoal empregado, mas a área de plantio de trigo sinaliza aumento, principalmente no Paraná.

A crise de água em São Paulo já começa a prejudicar a safra agrícola. A venda de máquinas agrícolas recua, mas a de adubos bateu recorde no 1º semestre.

Para a safra 2014/15, o Governo está prometendo financiamento de R$ 156,1 bilhões, 14,7% acima da safra anterior.

Atenção: segundo a Embrapa, em 25 anos o Governo federalizou quase 35% do território nacional para unidades de conservação, reservas indígenas e quilombolas e assentamentos rurais.

 

Mercado de Trabalho

A geração de emprego com carteira assinada caiu pelo quarto mês seguido e registou queda de 79,5% em junho ante junho/13. No 1º semestre, foram abertos 588.671 vagas, o menor resultado desde 2009. Em junho o emprego da indústria caiu 0,5% (-28,6 mil vagas) e em relação a junho/13, houve recuo de 3,1%, a 33ª queda consecutiva.

Na indústria automobilística, o nível de emprego recuou 4,2% em julho (Anfavea). As empresas estão aumentando o número de funcionários em “layoff”.

Segundo o DIEESE, a taxa de desemprego passou de 10,9% em maio de para 10,8% em junho. A freada econômica e a desaceleração nas vendas levaram o comércio a demitir 83,6 mil empregados, no 1º semestre.

O Senado aprovou a manutenção politica do salario mínimo, criado no Governo Lula, até 2019.

 

Setor Financeiro

Em 12 meses até junho, o saldo dos empréstimos dos bancos, cresceu 11,8%.Segundo a SERASA, a demanda de crédito pelas empresa aumentou 15% em julho, ante junho, mas os empréstimos para pessoas físicas caíram 3,2% no 1º semestre. Os bancos também reduziram o crédito para as MPEs.

Em julho, o saldo das cadernetas de poupança aumentou R$ 2,25 bilhões, mas no acumulado janeiro/junho, houve queda de 63.7% (BC).

Segundo a CNC, o financiamento real ao consumidor deverá crescer 5,5% em 2014.Medidas recentes do Banco Central poderão aumentar o volume de credito em R$ 45 bilhões. Os estrangeiros estão retirando aplicações na BOVESPA.

Inflação

Os levantamentos de julho revelam que a tendência da inflação continua em queda. A inflação de julho é a menor em quatro anos. O IPCA/IBGE caiu de 0,40% em maio e junho para 0,01% em julho. Todos os índices do atacado – IGPDI, IGPM E IPA – registraram deflação. O IGPM/FGV teve queda (deflação) em maio (-0,13%), junho (-0,74%) e julho (-0,61%).

 

Em 12 meses, o IPCA está em 6,50% e o IGPM em 5,32%.

Na 1ª prévia de agosto, o IGPM/FGV continua caindo: - 0,31%. Em São Paulo, segundo a DIEESE, o preço da cesta básica caiu 3,25% no período de 01 a 07 de agosto, com destaque para carne, sabão e feijão.

Importante: as tarifas de energia subiram 4,52% e julho e acumulam alta de 7,73% no ano.

Setor Público

Continua grave a situação deficitária do Governo. No 1º semestre, foram economizados apenas r$ 29,4 bilhões (superávit primário) para pagar R$ 120,2 bilhões de juros. O déficit nominal subiu para R$ 90,9 bilhões, (3,61% do PIB) contra R$ 65,9 bilhões no mesmo período de 2013 (2,82% do PIB). Em consequência, a dívida bruta do Governo chegou a R$ 2.941 bilhões, no acréscimo de R$ 193,1 bilhões frente a dezembro/13.

A dívida mobiliária subiu a R$ 2.111,2 bilhões, superior em R$ 83,2 bilhões a dezembro/13.

O Programa de Investimentos em Logística (PIL), lançado em 2012 prevê aporte de R$ 79,5 bilhões em 05 anos, mas, até agora, só foram liberados 2,5% do total. A crise de energia, resultado da seca mais ações do Governo, vai custar R$ 66 bilhões em 2014. O financiamento do consórcio de bancos, de R$ 11,2% bilhão, está sendo acrescido de mais R$ 6,6 bilhões,provenientes principalmente do BNDES, Banco do Brasil e CEF.

O Conselho Monetário Nacional aprovou novo adiantamento do Tesouro Nacional ao BNDES, no valor de R$ 30 bilhões, para reforçar o Programa PSI, com taxas subsidiadas.

O Senado aprovou a PEC que aumenta de 23,5% para 24,5% os recursos transferidos da União para o Fundo de Participação dos Municípios.

 

Setor Externo

Melhorou, em julho, a situação da balança comercial, com exportações de US$ 23,0 bilhões e importações de US$ 21,5 bilhões, acumulando, em sete meses, vendas de US$ 133,6 bilhões (-1,2%) e compras de US$ 134,5 bilhões. O saldo da balança comercial se reduziu de US$ 2,5 bilhões em junho para US$ 0,9 bilhão em julho.

As exportações para a China subiram 4,3%, para a Argentina caíram 22,1%, para a EU caíram 3,4% e para os Estados Unidos subiram 13,5%. Em termos de produtos, cresceram os produtos básicos (+6,1%) e caíram os industrializados (-7,6%). Nas importações, houve queda de 6,0% em bens de capital, de -7,9 % de petróleo e derivados e de -0,9 % de matérias primas. Em julho, a receita do agronegócio subiu 3,3 %, com destaque para o complexo de soja.

No cenário internacional, permanecem as expectativas negativas derivadas da questão Rússia/Ucrânia.A questão da insolvência da Argentina permanece sem solução.

Nos Estados Unidos, a situação econômica teve ligeiro retrocesso, derivado da queda nas vendas do varejo e da desaceleração do emprego.

Na Europa, a produção industrial voltou a cair 0,3% em junho, após a queda de 1,1% em maio. Entre abril e junho, o PIB da Alemanha recuou 0,2%, o mesmo que o da Itália. Portugal está em vias de solucionar o problema bancário gerado pelas dificuldades do Grupo Espírito Santo.

A Rússia liberou as compras de carne do Brasil.

Na Ásia, o PIB do Japão recuou 6,8% no 2º trimestre. A economia da China segue na direção de um crescimento de 7% em 2014.

 

 

 

 

Tags: análise, boletim, economia, ernane, galveas

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