Jornal do Brasil

Domingo, 23 de Novembro de 2014

Economia

Analistas reforçam possibilidade de recessão técnica em 2014

Economistas e mercado apostam em um crescimento inferior a 1% em ano de eleições

Jornal do Brasil

O temor de uma recessão na economia brasileira neste ano começa a aumentar com o anúncio de novos indicadores. Analistas reforçam que as chances do PIB ficar negativo nos próximos trimestres são grandes, e que pode haver uma recessão técnica (queda do indicador em dois trimestres consecutivos). Eles ainda revisam o crescimento deste ano para nível em torno de 1%, menor taxa desde 2009, um ano depois da crise que afetou o mundo inteiro.

Jornal do Brasil vem alertando para a queda significativa do crescimento do PIB em 2014, principalmente devido à Copa do Mundo e eleições. No início de junho, a divulgação do acréscimo de apenas 0,2% do PIB no primeiro trimestre, aliado à queda de 0,8% da indústria, retração do consumo das famílias em 0,1% e queda de 2,1% nos investimentos, entre outros dados, gerou expectativas pessimistas, com analistas reforçando as chances do PIB ficar negativo em dois trimestres seguidos - devido a resultado negativo no terceiro trimestre ou no primeiro, após uma revisão de seu desempenho, com o índice negativo do segundo trimestre já quase dado como certo.

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A média das expectativas de mercado para o PIB do Boletim Focus recuou para 1,05%. O Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), por sua vez, apresentou queda de 0,18% em maio, na comparação com abril - o segundo resultado negativo do ano. Com os dados revisados, a retração de fevereiro ficou em 0,09%. 

Com o resultado do IBC-Br, do comércio varejista e, principalmente, os indicadores antecedentes da indústria e de confiança, a Rosenberg & Associados revisou para baixo as estimativas de PIB para o ano e para o segundo trimestre. "Nesta nova rodada de projeções, revisamos a expectativa de crescimento de 0,3% do PIB na margem no segundo trimestre para 0,1%, destacando a revisão esperada do resultado do primeiro trimestre, de 0,3% para 0,0%." Para o ano, a consultoria aposta em um crescimento próximo de 1,1%. 

O Departamento Econômico do Itaú Unibanco já havia alterado sua expectativa de crescimento do PIB no ano de 1% para 0,7%, e aposta em um segundo trimestre também negativo. O Banco Bradesco também ajustou o índice para baixo, saindo de uma expectativa de 1,07% para 1,05%. O Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da FGV, em no Boletim Macro de julho, aposta em um crescimento no segundo trimestre entre 0,1% e 0,3%. 

O Ipea, em sua Síntese da Conjuntura, ressalta que nos últimos três trimestres a taxa média de crescimento da série dessazonalizada foi de 0,1%. Os primeiros números do segundo trimestre de 2014, diz, não permitem apostar em um resultado muito diferente, especialmente em função da queda da produção industrial em abril e maio. Além disso, reforça, a queda dos índices de confiança de consumidores e empresários estão nos níveis mais baixos desde 2009.

"A atual situação não comporta respostas simples de política econômica, capazes de, rapidamente, promover a retomada do crescimento a taxas mais elevadas e, ao mesmo tempo, reduzir os desequilíbrios acumulados nos últimos anos. O governo tem agido em diferentes frentes, desde o aumento da taxa Selic para combater a inflação até as concessões para estimular investimentos em infraestrutura, passando por desonerações fiscais para reduzir custos de produção e estímulos ao crédito. Até o momento, estas medidas têm tido impacto limitado", alega o Instituto.

Alertando para a queda da formação bruta de capital fixo, do consumo das famílias, entre outros indicadores, o Ipea conclui que vários anos de crescimento a taxas expressivas permitiram ao país alcançar indicadores favoráveis, em relação ao nível de emprego, aumento da renda, mas que geraram também, contudo, tensões que se traduziram em desequilíbrios, principalmente na inflação e nas transações correntes. 

"Quaisquer que sejam os fatores que expliquem a perda de fôlego do crescimento – por exemplo, quadro internacional menos favorável (acompanhado de perda de termos de troca), incertezas geradas pela necessidade de corrigir os desequilíbrios ou mesmo uma acomodação natural após um longo período de expansão, o caminho para harmonizar o processo de retomada do crescimento com a redução dos desequilíbrios acumulados passa por ajustes no ambiente econômico que promovam o aumento da produtividade geral da economia, não apenas aquele relacionado a recuperações cíclicas da atividade, mas a avanços estruturais associados a novos investimentos. Nesse sentido, os investimentos em infraestrutura são um caminho óbvio e necessário, capaz de dar ignição a uma nova etapa de crescimento econômico do país", explica o Ipea.

Blog do jornal britânico Financial Times também ressaltou nesta semana que o Brasil caminha para registrar um crescimento em torno de 1% neste ano, e que as perspectivas só pioram. "Alguns economistas começaram a falar sobre a possibilidade de uma recessão técnica em 2014 se os dados do PIB do primeiro trimestre forem revisados para baixo no mês que vem", diz o texto.

A Firjan, em nota, enfatiza que o quadro econômico atual caracteriza-se por recuo das expectativas de crescimento, tanto em 2014 como em 2015, com desaceleração do consumo das famílias, da geração de empregos, da produção industrial e da confiança de empresários e consumidores. "Por isso, o Sistema Firjan insiste que a colaboração da política fiscal, com redução dos gastos públicos de natureza corrente, é imprescindível para que a inflação arrefeça adiante, sem que sejam necessários ajustes adicionais na política monetária. Apenas dessa forma o País poderá alcançar a tão almejada combinação de crescimento econômico e inflação controlada."

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) também comentou sobre o desempenho da economia brasileira:  "É crucial que a decisão de manter juros estáveis seja acompanhada de medidas fiscais menos expansionistas e de maior foco na manutenção dos investimentos públicos. Sem uma ação coordenada, corre-se o risco de um cenário ainda mais preocupante: crescimento próximo a zero e inflação acima da meta."

O comércio varejista, assim como outros setores da economia e outros indicadores, devem sentir os efeitos desse cenário. No mês de maio havia conquistado um crescimento de 0,5% em comparação com abril, depois de três meses de queda, de acordo com a Pesquisa Mensal de Comércio (PMC) divulgada nesta semana pelo IBGE.  Já o varejo ampliado, que leva em conta as vendas do comércio automotivo (-1,9%) e de materiais de construção (-0,3%), teve queda de -0,3% em maio ante abril.

Dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) do Ministério do Trabalho mostram que foram criados 25.363 empregos com carteira assinada no mês de junho, uma queda de 79,5% em comparação com o mesmo mês do ano passado, quando foram abertas 123.836 vagas formais. Este foi o pior resultado para meses de junho desde 1998, quando foram abertas 18.097 empregos com carteira assinada.  

"Tanto a menor criação de vagas de trabalho formal registradas pelo CAGED quanto a evolução mostrada para as regiões metropolitanas pela PME — em cujo caso a taxa interanual de crescimento da ocupação aproximava-se de zero em abril — prenunciam uma reversão na longa série de reduções sucessivas das taxas de desemprego", diz boletim do Ibre.

A indústria automobilística, que ajudou a puxar o PIB do primeiro trimestre para baixo e vem registrando grande número de demissões, alega que ainda mantém o compromisso de manter o mesmo nível de empregos de maio de 2012, quando conquistou redução do IPI, de acordo com a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea). A produção de automóveis em junho caiu 23% sobre maio e o a movimentação de cargas pelas rodovias recuou 4,3%. Aliado a isso, ainda caiu a satisfação do consumidor com este setor, de 66,1% para 55,9%, de acordo com o Índice Nacional de Satisfação do Consumidor (INSC), medido pela ESPM. A Anfavea, todavia, acredita que o desempenho da indústria automobilística no segundo semestre representará uma retomada do crescimento.

Paulo Gala, estrategista da Fator Corretora, em conversa com o JB por telefone, ressaltou os resultados críticos de maio e os números preliminares de junho ainda piores. A queda do PIB no segundo trimestre é certa para o analista, que acredita que o resultado do primeiro pode chegar ao negativo com uma revisão e que o terceiro também pode apresentar resultados ruins. Para o ano, Gala aposta em um crescimento entre 0,8% e 0,9% e acredita que o país tem grandes chances de registrar uma recessão técnica em 2014.

O professor de Economia da USP Heron do Carmo, também não descarta essa possibilidade, e aponta que o PIB do ano deve ficar em torno de 1%, alegando que uma mudança no cenário é muito improvável. Ele lembra, inclusive, que o desempenho do IBC-Br de maio já era esperado, pelo comportamento de alguns setores como o automobilístico. 

"O que vejo é que tudo está piorando, como consequência da própria política econômica. Os dados da economia não vão bem, começam a afetar o emprego, tem a questão da confiança do consumidor e dos empresários, que é um problema sério. Tudo indica que, após as eleições, essa situação pode se reverter. Mas, para isso, seria importante que durante esse período o governo atual desse indicações de mudanças na política econômica", explicou Heron.

O Índice de Confiança do Empresário Industrial (Icei) caiu para 46,4 pontos em julho, o menor valor da série histórica, que começou em 1999. Essa foi a quarta queda consecutiva e, desde março, o indicador, acumula retração de 6,1 pontos, informa pesquisa divulgada nesta sexta-feira (18), pela Confederação Nacional da Indústria (CNI). O Icei varia de zero a 100. Abaixo de 50 indica falta de confiança.

O número de consumidores brasileiros em busca por crédito em junho também foi 9,8% menor do que em maio e 12,6% abaixo do registrado em igual mês do ano passado, segundo o Indicador Serasa Experian da Demanda do Consumidor por Crédito. No acumulado do primeiro semestre, a procura caiu 5,4% sobre o mesmo período de 2013.

Tags: brasil, desempenho, economia, indicadores, queda

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