Jornal do Brasil

Quinta-feira, 28 de Agosto de 2014

Economia

Síntese da Conjuntura - avaliação da Copa

Jornal do Brasil

A Confederação Nacional do Comércio (CNC), em seu boletim “Síntese da Conjuntura”, elaborado pelo economista e ex-ministro do Planejamento, Ernane Galvêas, faz as seguintes análises nesta segunda-feira:

Não importa que alguém seja a favor ou contra o Governo, o fato irrecusável é que a Copa do Mundo, no Brasil está se consagrando como um grande sucesso. Os doze Estádios onde se realizam os jogos estão, todos eles, totalmente lotados, confirmando a aprovação do povo brasileiro e a enorme presença dos turistas. O temido caos que muitos esperavam não aconteceu e o povo pôde assistir os jogos com segurança.

É verdade que, fora do campo, houve grandes tumultos, patrocinados pelos tradicionais baderneiros Black blocs, algumas vezes à sombra do Movimento Passe Livre (MPL), como aconteceu principalmente em São Paulo.

O funcionamento dos aeroportos, apesar da sobrecarga, não tem comprometido o evento, pelo menos até agora. O forte nevoeiro no Rio de Janeiro provocou o fechamento do Aeroporto Santo Dumont, por quatro horas, mas não foi, além disso. Até as filas de táxis funcionaram normalmente. E o fluxo dos carros nas rodovias processa-se sem problemas.

Houve alguns incidentes lamentáveis, com torcedores chilenos que invadiram e depredaram as instalações da imprensa no Maracanã, sendo que 85 foram presos e tiveram 72 horas para deixar o País. Também foi lamentável a “guerra das garrafas”, patrocinada pelos torcedores argentinos no Estádio de Belo Horizonte. No conjunto foram incidentes que não chegaram a comprometer o ambiente emocionante da Copa.

As expectativas negativas prenunciadas por vários segmentos da mídia internacional falharam inteiramente e, em poucos dias, foram revertidas pelo reconhecimento de que a grande maioria dos torcedores estrangeiros estava feliz no País.

Episódio humorístico: Os tabloides londrinos, que antes alertaram para a violência no Brasil, destacaram que um comentarista da TV britânica deixou a Copa às pressas, quando soube de um violento assalto a sua casa, na Inglaterra.

OS DESVIOS DA POLÍTICA ECONÔMICA

Não é preciso muito esforço de lógica e raciocínio, para entender que o controle da inflação tem o objetivo de favorecer o crescimento econômico, a criação de empregos e a mais justa repartição da renda nacional.

O Banco Central do Brasil inverteu a proposição: a prioridade é a inflação e o crescimento econômico vem depois. O Governo faz pior: se propõe a promover o crescimento econômico pela via da expansão do crédito, sem perceber que está alimentando a inflação. E mais: o BC segura a taxa de câmbio artificialmente, para segurar a inflação, agravando seriamente o desequilíbrio do Balanço de Pagamentos, enquanto o Governo segura os preços administrados – combustíveis, energia e transporte urbano – gerando uma inflação reprimida, que todo mundo sabe que vai criar problemas mais tarde.

Esse conjunto de distorções da política econômica cria expectativas preocupantes que afetam o ânimo dos empresários e a decisão de novos Investimentos. E, aí, o País para.

VIA CRUCIS DA PETROBRAS

Em 2010, em um artifício contábil dos mais ousados, o então Presidente Lula promoveu um substancial aumento de capital da Petrobras. A União subscreveu a sua parte entregando simbolicamente à Petrobras 5 bilhões de barris de petróleo de uma futura produção das reservas do pré-sal; os acionistas privados subscreveram a sua parte em dinheiro. Um truque totalmente reprovado pelo mercado, o que fez desabar o valor contábil da Petrobras e prejudicou seriamente a imagem e o prestígio da empresa, ainda mais afetada pelo congelamento de seus preços de venda e consequentes prejuízos. Segundo os analistas, a Petrobras perdeu quase metade de seu valor patrimonial.

Agora, novamente, o Governo repetiu operação semelhante à de 2010. Foram cedidos à Petrobras, a título de concessão, quatro novas áreas de petróleo na Bacia de Santos (pré-sal), com reservas estimadas em 15,2 bilhões de barris, pelos quais a empresa vai pagar à União R$15 bilhões, no prazo de 15 anos, dos quais R$2 bilhões pagos imediatamente vão servir para reduzir graficamente o déficit fiscal do Tesouro Nacional. Faz parte dessa mágica contábil a afirmação de que a União terá R$600 milhões para aplicar em educação e saúde (!?).

PROGRAMA SOCIAL

Gutman Uchôa de Mendonça

O maior programa social estimulado pelo PT se chama Bolsa Família, com um quarto da população brasileira (50 milhões) dependente dos seus recursos, onde são consumidos anualmente (orçamento de 2013) R$ 24 bilhões; o segundo programa, que também agrega muita gente (12,2 milhões) é o Farmácia Popular e Saúde não Tem Preço, com um consumo anual de R$ 3,3 bilhões; o terceiro, Minha Casa Minha Vida tem 7 milhões de beneficiados e um orçamento ( 2013) de R$ 73,2 bilhões; o quarto, é o Pronatec (Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego), com 5,7 milhões de inscritos e com orçamento de R$ 2,4 bilhões para 2013; vem em seguida o Renda Mensal Vitalícia e Benefício de Prestação Continuada, abrigando 2 milhões de idosos e 1,8 milhões de pessoas deficientes, com orçamento para 2013 da ordem de R$ 33 bilhões; temos depois o Pronaf (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar), para dar dinheiro aos chamados sem terra, para não trabalhar, com 3,5 milhões de beneficiados e que teve um orçamento para 2013 da ordem de R$ 21 bilhões; temos a seguir o FIES ( Fundo de Financiamento Estudantil (talvez o único importante), com 1,1 milhão de pessoas, com empréstimos ativos em 2013, consumindo um orçamento de R$ 7,5 bilhões; temos o PROUNI (Programa Universidade para Todos, com 517 mil matriculas ativas em 2013, consumindo um orçamento de R$ 814 milhões; temos o Bolsa Pescador ( uma das mais vergonhosas distribuições de dinheiro público), com 714 mil beneficiados em 2013 e gasto de R$ 1,9 bilhão.

No conjunto nacional, esses programas beneficiam, direta e indiretamente 36% da população nacional, ou seja, 72,7 milhões de pessoas, sendo que um terço da população faz parte do Bolsa Família, Bolsa Pescador e Luz Para todos, vindo ainda, a reboque, o programa de assistência prisional, onde o bandido brasileiro recebe uma pensão para ajudar no sustento de sua família.

ATIVIDADES ECONÔMICAS

A economia brasileira está virtualmente estagnada, com tendência decrescente. Em 2013, o PIB nacional cresceu 2,5%, mas agora, os analistas de mercado (Pesquisa Focus) estimam um crescimento de 1,16% em 2014. O Banco Central, em sua última avaliação, prevê um crescimento de 1,6%, ante 2,0% de sua previsão anterior.

Puxou a economia para baixo a previsão de expansão negativa (-0,4%) da indústria e dos investimentos (-2,4%). Os demais setores tendem a um crescimento bem menor do que em 2013. No 1º trimestre o PIB cresceu apenas 0,2%.

Pelo 3º mês consecutivo, o consumo de energia sofreu retração em maio, caindo 1,55% em relação a abril. O comércio registrou queda de -6,96%. As expectativas em relação ao suprimento de água são negativas, pois o nível dos reservatórios é o menor desde 2001. A água sobra no Sul, mas falta no Sudeste.

Somente um terço das indústrias pretende ampliar seus investimentos nos próximos 12 meses, segundo a FGV. A confiança do consumidor caiu 1,2% em junho, ante maio (CNI). O índice de confiança dos empresários do comércio (Icec) recuou 2,3% em junho, sobre maio (CNC). Os custos totais das indústrias cresceram 2,5% de janeiro a maio e a margem de lucro caiu no 1º trimestre.

O número de famílias endividadas teve queda de 0,2 pontos percentuais em junho, sobre maio (CNC) e a inadimplência média no sistema financeiro subiu de 3% em abril para 3,1% em maio. Os atrasos das pessoas físicas até 90 dias saltaram de 6,2% em fevereiro para 6,9% em maio (BC).

Indústria

Segundo a CNI, o índice da produção industrial subiu de 47,3 em abril para 48,4 em maio, mas, mesmo assim, permaneceu abaixo da linha dos 50 pontos pelo sétimo mês consecutivo. Em abril e maio a utilização da capacidade industrial ficou em 71%.

A produção da indústria automobilística cresceu 1,9% em maio/abril, mas caiu -13,3% de janeiro a maio, assim como o licenciamento (-5,5%). As vendas de máquinas agrícolas e rodoviárias também caíram -19,7% nesse período, o mesmo que o valor das exportações. É muito elevado o índice de ociosidade nas montadoras.

De janeiro a maio, a produção da indústria química caiu 7,07%, acumulando queda de 2,6% no ano. As vendas da indústria siderúrgica cresceram 0,6% em maio/abril, mas recuaram 9,8% em relação a maio/13. Em São Paulo, as vendas de residências novas registraram alta de 23,1% (!) em abril/março. Importante: A ABIMAC prevê queda entre 11% e 12% no faturamento da indústria de máquinas e equipamentos em 2014.

Comércio

Segundo o IBGE, o volume de vendas do comércio no 1º quadrimestre teve retração de 0,5%, em relação ao quadrimestre anterior, embora em abril tenha crescido +6,7% ante abril/13, com maiores altas nas vendas de televisores e supermercados. As maiores altas ocorreram em Alagoas (+10,1%), Maranhão (+9,5%) e Acre (+9,3%). Em abril, a receita dos serviços cresceu 0,4%, ante março.

A previsão da CNC é de que o volume de vendas do varejo cresça 4,7%, em 2014.

A intenção de consumo das famílias, de maio para junho, caiu 1,6%, pressionadas pelas dívidas e encarecimento do crédito, e a previsão da CNC é de que o volume de vendas do varejo cresça 4,7% em 2014.

Agricultura

A expansão do setor agrícola atingiu 4,8% no 1º quadrimestre, mas as condições climáticas podem prejudicar o resultado anual. A perspectiva de crescimento para 2014 é de +2,8%.

Em Santa Catarina, 42 municípios estão sendo fortemente afetados pelas chuvas e, no Paraná, 700 mil pessoas foram atingidas pelo temporal e enchentes.

Mercado de Trabalho

Segundo o CAGED, o número de novos empregos, em maio, chegou a 58.836, resultado líquido de 1.849.591 admissões e 1.790.755 desligamentos. É o pior resultado em 22 anos. No acumulado do ano, o emprego aumentou em 543.231, com 9.546.858 admissões e 9.003.627 desligamentos.

A dimensão desses números é de tal ordem que suscita esclarecimentos adicionais. Não dá para acreditar em volatilidade tão alta.

Na grande São Paulo, segundo o DIEESE, a taxa de desemprego de 11,6% em abril caiu para 11,4% em maio. Segundo a FIESP, o nível de emprego em São Paulo recuou 1,01%, em maio. No Rio de Janeiro, houve queda do desemprego de 3,5% em abril para 3,4% em maio (SEDEIS).

Setor Financeiro

O ritmo de expansão do crédito no sistema financeiro está diminuindo lentamente. No 1º trimestre, houve expansão de 2,6% e em 12 meses de 12,7%, sendo +32,5% para o setor público, +30,9% para o imobiliário, +33,3% para o rural, +9,6% para a indústria, +3,6% para o comércio e +6,3% para pessoas físicas. A expansão do crédito nos bancos privados (recursos livres) foi de +5,7% em 12 meses, contra +22,3% nos bancos públicos (recursos direcionados).

O número de cheques devolvidos por falta de fundos cresceu de 2,13% em abril para 2,17% em maio.

Em reunião de 20/06, o Conselho Monetário Nacional adotou uma série de medidas que beneficiam o crédito rural, com operações com o BNDES. Foram elevados os limites de financiamento das cooperativas e dos programas de irrigação e armazenagem, definindo redução de juros e alongamento dos prazos. Também foram beneficiados os Programas da agricultura familiar, Pronaf Mais Alimentos, Pronaf jovem e Pronaf Grupo B, que beneficia o microcrédito (PNMPO).

Inflação

Impressionante a queda do IGPM/ FGV de -0,13% em maio e -0,74% em junho. Os preços administrados subiram 4,08% e os preços livres 7,07%, levando a uma alta anual de 6,37% do IPCA, em maio. O IGP-DI/FGV subiu 0,45% em abril e caiu 0,45% em maio. Em 12 meses, o IPCA está em 6,37%.

Em maio, o preço da cesta básica aumentou em 15 de 18 capitais, com destaque para Fortaleza (+5,42%) e Recife (+4,90%). Houve queda em Campo Grande (-2,05%), Florianópolis (-0,38%) e Brasília (-0,10%).

O Governo autorizou a COPELPR a aumentar a tarifa em 35%, mas o Governo do Estado segurou a decisão. O Conselho Monetário Nacional decidiu manter em 4,5% a meta central da inflação, até 2016.

Setor Público

As contas do Governo chegaram, em maio, ao pior resultado desde 1997. Em maio, a despesa do setor público atingiu R$ 79,4 bilhões (-0,7%) e a receita R$ 68,4 bilhões, com déficit de R$ 10,5 bilhões. No acumulado do ano: despesa de R$ 393,6 bilhões (+11,1%), receita de R$ 412,7 bilhões (+6,5%) e resultado primário de R$ 31,5 bilhões, para pagar juros de R$101,6 bilhões. Déficit nominal: R$70,1 bilhões.

O mercado reagiu mal ao novo contrato da União com a Petrobras. A empresa recebe concessão para explorar 15 bilhões de barris em quatro novas áreas do pré-sal, ao preço de R$ 15 bilhões, com pagamento imediato de R$2 bilhões e o restante em parcelas de 2015 a 2018.

O Governo holandês anuncia participação de R$ 5 bilhões (30%) no Porto Central de Presidente Kennedy, ao sul do Espírito Santo, que poderá vir a ser o maior porto privado do Brasil.

A dívida pública bruta chegou a R$ 2.895,8 bilhões, R$ 30,8 bilhões acima de abril e R$ 147,8 superior a dezembro/13.

Setor Externo

Continua difícil a situação das contas externas. De janeiro a maio, as exportações alcançaram US$ 90,1 bilhões (-3,5%) e as importações US$94,9 bilhões (-3,8%), deixando um saldo negativo de US$ 4,8 bilhões na balança comercial. As exportações de produtos básicos cresceram 1,9%, as de semimanufaturados caíram -10,7%, assim como as de manufaturados -8,9%. Os principais destinos das exportações foram a China (+5,7%), a União Europeia (-8,4%), os Estados Unidos (+12,1%) e a Argentina (-19,3%).

O saldo negativo em C/Correntes subiu a US$ 40,1 bilhões, coberto pela entrada de US$ 45,8 bilhões, inclusive US$ 25,3 bilhões de investimentos estrangeiros (IED). As reservas cambiais chegaram a US$368,8 bilhões (+US$ 8,3 bilhões) e a dívida externa bruta subiu a US$ 518,2 bilhões.

Incrível: a Rio-Previdência-RJ captou US$ 2 bilhões no exterior, com vencimento em 2024 e juros de 6,25% ao ano.

No cenário internacional destacam-se duas sinalizações negativas: 1) o PIB dos USA registrou queda de -2,9% no 1º trimestre e 2) a oposição da Inglaterra à nomeação de Jean-Claude Junker, de Luxemburg, para Presidente da Comissão Europeia, em acentuada divergência com a Alemanha e França. A Argentina enfrenta sérios problemas com a dívida externa, agravados por discutível decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos. Ao que tudo indica, não há mais possibilidade de fechar um acordo Mercosul-União Europeia, ainda neste ano.

A Ucrânia assinou acordo comercial com a União Europeia e a Rússia cortou o fornecimento de gás para aquele País.

A China aumentou sua produção de aço em 70,4 milhões de tons. Em maio (+2,6%) e a produção industrial cresceu 8,7% no acumulado do ano.

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