Jornal do Brasil

Sábado, 25 de Outubro de 2014

Economia

Cenário internacional dificulta desempenho brasileiro em 2015

Economistas analisam impacto da economia da China, Europa e EUA no Brasil

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Diferente das possibilidades existentes em 2009, quando o mundo enfrentava a recessão mas o Brasil ainda tinha condições de implantar uma política expansionista, por exemplo, o país conta com poucas alternativas para estimular seu crescimento econômico no ano que vem. Uma delas, o cenário internacional, não promete muito. Os Estados Unidos, com a queda de 2,9% no primeiro trimestre, confirmou que sua recuperação ainda será lenta. A China e a Europa tampouco apontam retomada no curto prazo. Sob essa perspectiva, 2015 pode ser um ano preocupante.  

Alex Luiz Ferreira, professor da Universidade de São Paulo (USP), PhD em Economia pela Universidade de Kent, destaca que, ao contrário do que se pensava, o Brasil não se desconectou de forma alguma das economias centrais, principalmente da China, com quem tem laços comerciais muito fortes, e com Estados Unidos e Europa, pelos laços financeiros. 

"As economias estão muito conectadas. Se houver uma desaceleração lá fora, isso vai impactar o Brasil. Isso ocorreu em 2009. Só que, naquela época, existia a possibilidade de incentivar a economia doméstica com política monetária e política fiscal, mas os sinais dos últimos anos demostram que esses canais foram enfraquecidos. Agora há uma possibilidade menor de realizar uma política expansionista", explica Ferreira.

O professor de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Francisco Lopreato, lembra que o quadro brasileiro é bastante complicado. "A questão é: Nós vamos crescer puxados por onde? O setor externo está difícil, o setor público, difícil - a situação não está muito favorável nas contas públicas para que o Estado amplie seus gastos; a indústria não promete muita coisa, não há perspectiva para que ela venha a ter um comportamento muito significativo no ano que vem, a ponto de trazer grande impacto no PIB. Só temos as concessões, e não sei se elas garantem uma melhora por si", alerta Lopreato.

Neste ano, com a disputa eleitoral, "ninguém quer se aventurar diante do quadro de incerteza que se criou". No ano que vem, esta nuvem se afasta, mas talvez o país ainda não tenha condições de reverter o quadro. 

"A situação no Brasil, que já não está fácil, pode ser melhorada se Estados Unidos e China tiverem uma performance melhor. Se crescerem as barreiras e o quadro não reverter, complica bastante. A Europa briga para não cair num quadro de deflação. Tempo atrás, já imaginava que a Europa ia demorar uns 10 anos para sair do buraco. Estamos no sexto ano, e sem perspectiva. Os Estados Unidos, que até pouco tempo dava sinais interessantes, surpreendeu. A queda do PIB foi muito expressiva. A China também não está nada bem, a demanda perdeu o fôlego que tinha antes", esclarece.

Como ressaltou Samuel Pessôa, economista do Ibre/FGV, durante seminário do instituto, no mesmo período do ano passado, se projetava um um crescimento da economia norte-americana em 2014 que hoje está "completamente fora do cenário" - um acréscimo de 3%. "A economia americana cresce menos no longo prazo e a recuperação cíclica dela é mais lenta do que a gente imaginaria. Evidentemente, isso tem implicações fundamentais para nós", ressaltou Pessôa na ocasião, quando o Departamento de Comércio norte-americano ainda não havia revisado a retração de 1% para 2,9%, no primeiro trimestre deste ano.

>> PIB dos EUA contrai 2,9% no 1º trimestre, pior resultado desde 2009

Estados Unidos e China conversaram durante dois dias sobre como liderar uma saída global da recessão, mas não chegaram a grandes conclusões, conforme aponta reportagem publicada nesta sexta-feira (27) no alemão Die Welt. A maior realização do encontro, aponta, talvez tenha sido a constatação de que uma reconfiguração de suas economias é necessária, de forma que a China se torne menos dependente das exportações e os Estados Unidos retomem poupança e investimento para interromper o ciclo de expansão e retração - o que não chega a ser novidade.

Na Europa, a recuperação é lenta e o continente ainda deve lidar com o alto desemprego por algum tempo. Enquanto os países europeus tentam lidar com o legado da recessão, líderes políticos entram em conflito. O ex-primeiro-ministro de Luxemburgo Jean-Claude Juncker foi eleito presidente da Comissão Europeia nesta sexta-feira (27). A candidatura foi apoiada pela chanceler alemã, Angela Merkel, mas criticada pelo primeiro-ministro britânico, David Cameron, que afirmou pelo Twitter que o bloco europeu se arrependerá da escolha e, em entrevista coletiva, que a nomeação pode minar as posições dos governos nacionais. 

Francisco Lopreato, no entanto, não acredita que o choque entre os líderes signifique uma saída do Reino Unido da União Europeia, por exemplo. "Os ingleses sabiamente, desde o começo, aceitaram o bônus e não quiseram o ônus (da União Europeia). Não abriram mão da sua moeda, foram bem inteligentes."

Para a Europa, Lopreato não vê nenhuma perspectiva. O que pode mudar, ressalta, é nos Estados Unidos, no sentido dos dados do primeiro trimestre não se confirmarem no seguinte. No Brasil, o professor aposta em uma perspectiva melhor, talvez, para o segundo semestre de 2015.

"Dependemos, sim, do crescimento mundial para que também aqui os investimentos cresçam. Facilita bastante se houver uma condição favorável no cenário externo. É muito difícil, hoje, uma situação em que eles não cresçam e o resto do mundo cresça. Vai crescer como? Certamente, a situação brasileira fica mais prejudicada ainda. Eu não acredito em um quadro dos mais favoráveis até, pelo menos, talvez, o segundo semestre de 2015. Não acredito que a economia brasileira vá afundar, porque temos as concessões. Mas minha aposta é mais em 2016 do que em 2015", conclui Lopreato.

Tags: cHINA, economia, Estados Unidos, Europa, global

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