Jornal do Brasil

Segunda-feira, 22 de Dezembro de 2014

Economia

Bitcoin: entre o jogo especulativo e a tentativa de virar meio de troca

Brasil ganhou primeira loja física de bitcoin nesta semana, em Curitiba

Jornal do Brasil

Criada após a crise de 2008 como uma alternativa ao controle e tributação dos bancos, a moeda virtual bitcoin vê sua imagem negativa aumentar enquanto estimula o surgimento de outras. O governo dos Estados Unidos chegou a autorizar seu uso em campanhas políticas no mês passado. Nesta semana, o Brasil ganhou a primeira loja física de venda de bitcoin, em Curitiba, ao exemplo de Nova York e Londres. Em São Paulo, foi instalado nesta sexta-feira (20) um caixa eletrônico de bitcoins. Para especialistas consultados pelo JB, contudo, é mais fácil que o seu modelo venha a se tornar uma referência no futuro do que o próprio se fortaleça e vigore por muito tempo.

Moeda vê sua imagem negativa aumentar enquanto estimula o surgimento de outras
Moeda vê sua imagem negativa aumentar enquanto estimula o surgimento de outras

Em dezembro, estudo do Congresso dos Estados Unidos apontou para o perigo que a moeda virtual pode oferecer à política monetária do Fed - Banco Central norte-americano, caso sua escala de utilização cresça substancialmente. Paul Krugman, prêmio Nobel de economia, chegou a se manifestar contra o uso da moeda, chamando-a de "sonho impossível".

Jorge Stolfi, professor do Instituto de Computação da Unicamp, Ph.D. pela Stanford University, em conversa com o JB por telefone, esclareceu que o bitcoin pode ser uma boa alternativa para quem gosta de especular e ganhar dinheiro, mas não aconselha seu uso como meio de pagamento e reserva. Samy Dana, professor da FGV-SP, por sua vez, reforça que nem podemos chamá-lo de moeda, já que não possui reserva de valor e nem funciona efetivamente como um meio de troca.

Os bitcoins se apresentam, ao mesmo tempo, como um meio de pagamento e um fundo de reserva, transferido de pessoa a pessoa, sem o intermédio de instituições financeiras ou submissão a governos. Ao registrar uma conta com bitcoins na web, o dono não precisa informar suas informações pessoais, nem mesmo o nome. Pelo anonimato, inclusive, ele tem servido para compra e venda de bens controlados, como armas e drogas, mas também tem sido aceito por uma parcela do comércio tradicional, que alega facilidade na transação e ausência de tributos e taxas.  

Jorge Stolfi é cético em relação ao bitcoin. Do ponto de vista técnico, reforça, parece funcionar muito bem: alguém cismou que seria bom ter um sistema de pagamento pela internet sem depender de intermediários em banco, e bolou um sistema em que a pessoa poderia abrir ela mesma uma conta e criar número e senha. Para realizar um pagamento, um cheque eletrônico seria utilizado, cuja veracidade pode ser verificada por outras pessoas, sem a possibilidade da "assinatura" ser falsa. Voluntários gerenciariam a planilha de contas, registrando a validade dos cheques. Como recompensa, receberiam um determinado número de bitcoins a cada bloco verificado.

A dinâmica do sistema, contudo, é complicada, e fica mais complexa conforme aumentam as transações - de propósito. "Está funcionando, com alguns entusiasmados. A ideia original era que esse sistema permitiria fazer pagamento internacional ou pela internet, sem depender de banco e sem ter pagar as taxas que os bancos normalmente cobram, que são bastante salgadas, principalmente as internacionais. Outra questão era o anonimato. De fato, ninguém pode controlar esse sistema, não tem como confiscar o dinheiro. Como a quantidade de dinheiro é fixa, não tem inflação", explica Stolfi.

O valor de cada bitcoin sobe de acordo com as movimentação. Quando começou, lembra Stolfi, não valia uma fração de centavo, mas foi oscilando, até chegar ao maior nível de US$ 1.200 em dezembro. No ano passado, foram US$ 100 milhões em transações com a moeda virtual. "Ela pode ser atrativa se a pessoa gosta de especular. Se a pessoa tem sorte, consegue fazer dinheiro com isso. Quem comprou em setembro conseguiu multiplicar o investimento por dez, quem comprou em novembro perdeu a metade."

A questão é que as vantagens apresentadas no início não têm se mostrado tão vantajosas assim. Muitas histórias de roubo foram registradas, especialmente nas chamadas bolsas de troca. Dezenas delas foram invadidas por hackers que roubaram todos os bitcoins. Ainda fica a dúvida, destaca Stolfi, se foram realmente hackers ou os próprios donos do sistema que aplicaram os golpes. O Brasil já registrou um caso de roubo e o Japão protagonizou o maior deles, no início do ano, quando a bolsa com sede em Tóquio Mt. Gox entrou com pedido de falência depois de comunicar a perda de 750 mil bitcoins em um ataque.

"Ninguém sabe direito o que aconteceu lá. Esse é um problema, pouca segurança. Como não é oficial, a polícia não consegue dizer se houve ou não crime. E a intenção das pessoas que desenvolveram era justamente fugir do controle dos bancos e governos", comentou Stolfi.

O Bitcoin e sua função como moeda

Sami Dana, professor de economia na FGV-SP, não acredita que o bitcoin tenha características de uma moeda, independentemente da legalidade, já que, para ser considerada moeda é preciso que tenha reserva de valor e funcione como um meio de troca. A maioria das pessoas, exemplifica, não aceitaria receber o salário em bitcoins.

"O que existe é uma especulação. A pessoa compra não para usar, mas para revender mais caro. O bitcoin está longe de ser considerado uma moeda. O meio de negócio, o modelo, de ser mais eficiente, de tentar ser mais transparente, é interessante, mas enquanto não tiver fundo de reserva nem funcionar como meio de troca não é uma moeda. O que eu vejo é um jogo especulativo. A revolução prometida, em tese, pode acontecer, mas com essas propriedades sua capacidade é bem limitada", explicou Dana.

Em fevereiro, o Banco Central brasileiro fez uma série de esclarecimentos acerca de moedas virtuais. Entre eles que, em função do baixo volume de transações, da baixa aceitação como meio de troca e da falta de percepção clara sobre sua fidedignidade, a variação dos preços pode ser muito grande e rápida, podendo até mesmo levar à perda total de valor; e que a eventual aplicação, por autoridades monetárias de quaisquer países, de medidas prudenciais, coercitivas ou punitivas sobre o uso desses ativos, como fez a China no ano passado, pode afetar significativamente o preço de tais moedas ou mesmo a capacidade de sua negociação.

O Banco Central alertava ainda para uso em atividades ilícitas e que o armazenamento nas denominadas carteiras eletrônicas apresenta o risco de que o detentor desses ativos sofra perdas patrimoniais com ataques de criminosos. "No Brasil, embora o uso das chamadas moedas virtuais ainda não se tenha mostrado capaz de oferecer riscos ao Sistema Financeiro Nacional, particularmente às transações de pagamentos de varejo (art. 6º, § 4º, da Lei nº 12.685/2013), o Banco Central do Brasil está acompanhando a evolução da utilização de tais instrumentos e as discussões nos foros internacionais sobre a matéria."

O bitcoin atingiu a marca de US$ 1.200, explica Stolfi, quando os chineses descobriram o potencial da moeda e dezenas de milhares deles a compraram para especular nas bolsas. O governo da China, então, proibiu o câmbio de bitcoins e depois decidiu que contas bancárias usadas por empresas que operam a moeda seriam congeladas. A única utilidade da moeda no país asiático agora seria a especulação. A questão, esclarece Stolfi, é que quando a moeda começa a conquistar uma presença muito forte em determinado país, este tenta limitar sua força.

Além disso, continua Stolfi, outras moedas apareceram na segunda metade do ano passado, quebrando o monopólio dos bitcoins. A Dog Coin chegou a se tornar a quarta moeda criptográfica em termos de circulação. No Brasil, foram criadas três ou quatro, uma delas intitulada Dilma Coin, outra Samba Coin. "Vários empreendimentos aparecem e tentam explorar o bitcoin. Infelizmente, é muito difícil encontrar no mundo do bitcoin algum investimento que seja honesto. Mas, no futuro, podemos ter alguma coisa parecida. Uma minoria ainda acredita no sucesso e briga bastante, principalmente os que investiram nele."

Atualmente, o sistema anterior que utilizava alguns colaboradores passou a fazer uso de uma dúzia de empresas comerciais. O negócio, porém, é difícil e competitivo, e vai encontrando maiores dificuldades tecnológicas. É preciso ter um equipamento de última geração para realizar o gerenciamento, que em três meses pode não servir mais, esclarece Stolfi. 

Tags: bitcoin, especulação, internet, MOEDA, pagamento

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