Jornal do Brasil

Quinta-feira, 23 de Outubro de 2014

Economia

Ibre: governo já adota medidas para combater baixo crescimento

Câmbio e política fiscal brasileira, no entanto, ainda não sofrem ajustes significativos 

Jornal do Brasil

As medidas necessárias para conter um cenário de baixo crescimento e alta inflação, que vêm sendo alarmadas como inexistentes e urgentes, já são implantadas pelo governo brasileiro na política monetária, PIB, inflação, emprego, taxa de juro e crédito. Algumas ações também fundamentais, na política fiscal e no câmbio, ainda ficam aquém, todavia, reforçaram os economistas Nelson Barbosa e Samuel Pessoa durante o Seminário de Análise Conjuntural do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV), realizado nesta segunda-feira (16).

Silvia Matos, coordenadora Técnica do Boletim Macro Ibre, comentou na ocasião que o cenário internacional é bom, apesar do crescimento abaixo do esperado nos Estados Unidos, que deve ter um acréscimo de 2,4% no PIB deste ano, contra os 2,8% esperados pelo Ibre anteriormente, para crescer 3% no ano seguinte. Para a Zona do Euro, é esperado um crescimento de 1% e, para a China, de 7,3%.

Para a economista, "dificilmente" o país vai conseguir cumprir sua meta de 1,9% do PIB, deve conquistar um crescimento de 1,6%, com a possibilidade de registrar 1,2%, caso a indústria tenha uma queda mais significativa, de 1,1% contra o 0,1% esperado. O bolo dos 1,6% considera projeções de queda da indústria de transformação e de construção, de 0,5% e 1,3%, respectivamente, e da indústria, de 0,1%. Entre os setores que podem registrar crescimento, estão o agronegócio, com 3,5%; setor de energia, com 2,9%, extrativa, 1,4%, e de serviços, 1,8%. No primeiro trimestre deste ano, o país registrou crescimento de 0,2% - o que gerou, inclusive, projeções pessimistas em relação a uma possível recessão técnica. 

Silvia também alerta que "dificilmente" o país terá superávit em sua balança comercial - o Ibre calcula um déficit de R$ 2 bilhões neste ano. A inflação, por sua vez, acredita o Ibre, deve ficar em 6,7% em 2014.

"Algum ajuste tem que ocorrer, em um cenário muito complicado de baixo crescimento e inflação muito alta", alertou Silvia. Nelson Barbosa, pesquisador do instituto, no entanto, esclareceu que esses ajustes já começaram, ainda que não integralmente, pois a política fiscal e o câmbio, como destacou também o economista do Ibre Samuel Pessoa, ainda não sofrem ajustes muitos significativos.

"A questão de que, com esse cenário, torna-se cada vez mais certa a expectativa de algum ajuste no ano que vem, questão que está na cabeça de todo mundo que acompanha a economia - e se esse ajuste está na direção correta ou não depende do que cada um define como correto ou errado -, eu acho que esse ajuste já começou. Ele não começou integralmente, mas a gente já vê isso há alguns números", esclareceu Barbosa.

Nelson Barbosa destacou a desaceleração do crescimento, de 2,5% ano passado para 1,6% este ano e uma certa estabilidade em todos os itens da inflação, com uma certa descompressão dos preços administrados, que já começam a se elevar, principalmente o da energia, que passa de 1,5% no ano passado para quase 6% neste ano. "Isso explica em grande parte a elevação da inflação de 5,9% do ano que vem para 6,5% neste ano." 

"A grande questão do ano que vem é qual vai ser o impacto da liberação dos preços administrados. Pois bem, parte a gente já está vendo agora, alguma liberação do preço da energia, alguns reajustes nas tarifas de ônibus, e isso deve continuar no ano que vem", explicou Barbosa. 

No emprego, continua, há uma desaceleração da população ocupada, com um crescimento próximo de zero registrado pela Pesquisa Mensal de Emprego. "Então o ajuste já começa a ocorrer na população ocupada, mas não tanto no salário real.". O salário real cresce 2%, em uma desaceleração em relação ao passado, quando crescia 4%, mas que ainda se configura como um crescimento "bem substancial". 

"Isso explica também o bom estado do mercado de trabalho, apesar do baixo crescimento em emprego, eu acho que um ajuste que se ocorrer no mercado de trabalho ocorre muito mais via desaceleração de salário do que de aumento de taxa de desemprego. Teremos uma taxa de desemprego mais baixa daqui para frente, por razões demográficas e também pelas políticas públicas do governo, que desestimulam a entrada no mercado de trabalho, seja dos mais jovens, porque se qualificam mais, seja dos mais idosos, porque hoje têm transferências de renda que não tornam necessária essa entrada no mercado de trabalho a qualquer salário", destacou. 

Na política monetária também já são adotados ajustes, explicou. A taxa real de juro subiu cerca de 2% reais para 4,5% reais e o juro neutro dificilmente deve ficar em mais do que 6%, dependendo de outras variáveis. Barbosa, todavia, não acredita que o juro brasileiro suba mais do que os 4,5% de hoje. A aceleração na concessão de crédito, principalmente nas vendas de bens duráveis, também foi lembrada.

"Então, nessas variáveis, PIB, inflação, emprego, taxa de juro e crédito, em certa medida, o ajuste já começou, ainda que incipiente, mas o ajuste já começou. Quanto mais for feito neste ano, menos terá que ser feito no ano seguinte", salientou o economista. 

Ajustes significativos ainda não são vistos no câmbio e na política fiscal. No câmbio, continua Barbosa, começamos o ano com uma depreciação forte, mas a elevação da Selic e a oferta de swaps por parte do Banco Central seguraram um pouco o ajuste da taxa, que está entre R$ 2,20, R$2,30, "que é uma taxa de câmbio que ajuda no combate à inflação, mas que dificulta um ajuste de balança de pagamentos e recuperação da competitividade da economia brasileira."

Para Barbosa, como a situação cambial é ainda de equilíbrio instável, depende da rolagem de swaps para manter a taxa no seu nível, podemos ter um ajuste ainda para cima da taxa de câmbio no futuro, em uma magnitude que vai depender do que vai ser feito com as outras variáveis.

Barbosa vê um atraso ainda maior na questão fiscal, com uma piora em relação à expectativa do início do ano, com muito adiamento de despesa, o que é, inclusive, reconhecido pelo próprio Tesouro Nacional, que anunciou o adiamento de precatórios para o final do ano, gerando uma grande incerteza. 

"Fica difícil cumprir a meta de 1.9% do PIB, mas eu não creio que a meta global, não a meta recorrente, fique abaixo de 1,5% do PIB, que implica a possibilidade de ampliação da dívida líquida do governo em percentual do PIB. O que não é nenhuma tragédia no cenário macroeconômico que nós estamos vivendo. A maioria dos países do mundo teve elevação de endividamento público. O Brasil ao longo da crise teve queda de endividamento público." A depreciação cambial havia ajudado a evitar um aumento do endividamento público, mas neste ano não há um ganho cambial para compensar o primário menor, elevando a dívida líquida. 

Em relação aos índices de confiança medidos pelo Ibre, do mercado e do consumidor, em queda nos últimos  períodos, Barbosa destacou que são sempre "muito subjetivos", e que, em ano eleitora, sempre há adiamento de decisões e maior incerteza. Para ele, a velocidade de ações adotadas pelo governo devem ser graduais. "A gente vive hoje um cenário de expectativas muito baixas e expectativas muito baixas são muito fáceis de superar."

Barbosa lembrou ainda que a economia brasileira responde muito mais rápido a mudanças do que o mercado e o governo projetam. "2014 e 2015 já são dois anos de baixo crescimento, só que a capacidade da economia brasileira, se repetirmos o padrão, é de ajuste relativamente rápido. A grande diferença que nós temos em relação ao passado é uma questão do mercado de trabalho. Hoje nós temos um mercado de trabalho mais aquecido, então esse ajuste pode ter efeito maior na inflação." Diferente do passado, esclarece, os principais problemas que o Brasil enfrenta são internos, que são mais fáceis de serem solucionados. 

Tags: conjuntura, economia brasileira, ibre, panorama, política

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