Jornal do Brasil

Sábado, 25 de Outubro de 2014

Economia

Ernane Galvêas: Conjuntura difícil

Jornal do BrasilErnane Galvêas

O Brasil está vivendo um clima de grande insatisfação, tanto na área econômica, como na político-social. Os empresários estão descontentes e receosos de que a estagnação econômica vai continuar, com riscos de maior inflação. As greves e os tumultos de rua continuam, principalmente no Rio e São Paulo. O transporte urbano em São Paulo está próximo do caos. No Rio, os vigilantes dos bancos estiveram em greve por mais de dois meses, paralisando os pagamentos em dinheiro. Inacreditável. E ainda persistem os riscos de apagão na energia elétrica.

A economia brasileira está caminhando com o freio de mão puxado. Isto significa dizer queestamos fadados a um crescimentomédio entre 1% e 2% ao ano, enquantoo Estado obeso se apropria de 40% doPIB nacional, impondo à sociedade umacarga tributária de quase 38% do PIB euma burocracia fiscal que entorpece asatividades econômicas. Somadas àinfraestrutura deficiente e insuficiente,essas travas estão minando aprodutividade e a competitividade daprodução agrícola e industrial. Umagestão pública desorientada estádesestruturando a Petrobras e aEletrobras, infundindo um clima deinsegurança jurídica e criando umasituação de desconfiança entre oGoverno e o mercado.

O resultado de todas essas adversidades é o baixo nível dos investimentos (FBCF), que há 20 anos se situam entre 16% e 18%.

No conjunto, o setor mais prejudicado é a indústria, estagnada desde 2011, sob o peso maior da carga tributária, dos juros, da burocracia fiscal e ambiental, da inflação e da taxa de câmbio. Entre 2001 e 2012, os investimentos em infraestrutura caíram de 3,2% do PIB para 2,3%.

Vai levar muito tempo para colocar a economia em ordem.

DIAGNÓSTICO DA INFLAÇÃO

A inflação de demanda ou de oferta tem causas variadas, como já acentuamos em várias oportunidades anteriores. Uma dessas causas, talvez a mais importante, é a expansão do crédito acima da taxa de crescimento do PIB.

No entendimento do Banco Central, ao que nos parece, prevalece a versão de que a expansão do crédito é o fator da maior expansão da inflação. Daí que o BC insiste na taxa de juros alta, capaz de frear a expansão do crédito e, por essa via, conter a demanda agregada (consumo e investimentos), reduzindo as pressões inflacionárias.

Para o Ministro da Fazenda, a escassez da oferta de bens e serviços é a causa primordial da inflação. Portanto, a melhor solução para expandir a produção é estimular a expansão do crédito. Em reunião no CDES – Conselho do Desenvolvimento Econômico e Social, no último dia 5, o Ministro da Fazenda arguiu que o Brasil passa por uma escassez de crédito para o consumo e é isso que está represando um maior crescimento da economia.

A nosso ver, o diagnóstico da inflação brasileira está equivocado, tanto na versão do Banco Central, como na do Ministério da Fazenda. E mais equivocada, ainda, as soluções propostas: de combater a atual inflação pela elevação dos juros básicos (SELIC) ou pela maior expansão do crédito, com juros subsidiados, conforme a preferência do BC ou do MF, respectivamente.

 

CAPITALISMO SÉCULO XXI

O livro do economista francês Thomas Piketty causou um enorme furor nos meios acadêmicos, a nosso ver, pela simples explicitação e transparência daquilo que quase todo mundo já sabia:

- Nos países desenvolvidos – Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra, Canadá, Japão, França, Itália, Austrália – os rendimentos e a riqueza dos segmentos mais ricos da sociedade estão crescendo a uma taxa superior à do crescimento do PIB, o que significa dizer que os ricos estão ficando mais ricos e a desigualdade social está aumentando. Daí a afirmação que o capitalismo doSéculo XXI é injusto e precisa mudar.

Essa situação começou a acontecer a partir da década de 1980, com destaque após a crise de 2007/2008. Até então, a distribuição da renda mundial vinha sendo feita com maior equidade e justiça e, ao contrário do que hoje afirma , o notável pesquisador Simon Kuznets, Prêmio Nobel de Economia, nos anos 50, sustentava a tese de que a desigualdade no mundo tende a cair com o maior desenvolvimento. Piketty virou de cabeça p’ra baixo a tese do grande Kuznets e procura demonstrar que a desigualdade vem aumentando a partir dos anos 80.

Durante 15 anos, Piketty coordenou o levantamento de séries históricas de dados, partindo das declarações do imposto de renda das pessoas investigadas, que sustentam a sua tese, levando a concluir que na origem dessa situação está a redução da tributação da renda e da riqueza herdada.

A principal conclusão de seus estudos é a formulação de uma “nova lei do capitalismo”, segundo a qual, no longo prazo, a taxa de retorno do capital tende a superar a taxa de expansão da produção mundial, ou seja, uma tendência de concentração da renda e da riqueza que configuram o aspecto injusto do capitalismo moderno. O remédio para corrigir a injustiça, segundo Piketty, seria a criação de um pesado imposto progressivo, regional ou global, sobre a renda e o patrimônio líquido.

Não cabe imaginar, entretanto, que Piketty ressuscita os postulados marxistas contra o capitalismo. Pelo contrário, segundo ele, a economia de mercado com a propriedade privada dos meios de produção é a forma mais eficiente de organização da atividade econômica.

 

ATIVIDADES ECONÔMICAS

A economia brasileira está caminhando para a estagnação. Segundo o índice IBC-Br do BancoCentral, o PIB nacional cresceu 0,05%em março e 0,12% em abril, frente aomês anterior. No mesmo sentido, oIBGE informa que no 1º trimestre,frente ao trimestre anterior, ocrescimento foi de apenas 0,2%, emboraregistrando alta de 1,9% ante o mesmoperíodo de 2013, com destaque para osetor primário (+3,6%), queda naindústria (-0,8%) e ligeira alta emserviços (+0,4%). A atividade comercial encolheu 0,1% e aconstrução civil teve queda de 2,3%.

A taxa de investimentos terminou o 1º trimestre em 17,7% doPIB, o menor nível desde a crise de 2009. A poupança doméstica vemcaindo e chegou a 12,7% do PIB, forçando o déficit nas contas externas. O Brasil precisa investir 5,5% do PIB em infraestrutura, mas o que se viu é que investimentos caíram de 3,2% em 2001 para 2,3% em 2012. Pelas informações do Governo, não vai faltar água, nem energia em 2014.

A violência urbana é destaque em várias capitais. Em apenas um dia, foram depredados 467 ônibus no Rio e 40 em São Paulo.

O mercado prevê a expansão do PIB em 1,44% e alguns analistas baixam para 1,0%, em 2014.

Indústria

Segundo o IBGE, a produção industrial caiu 0,3% em abril, após aumento de 0,2% em fevereiro e queda de 0,5% em março. Na comparação com abril/13, a queda foi mais acentuada – 5,8% – , com destaque para bens de capital (queda de 14,4%) e indústria de transformação (-7,0%). No acumulado do ano, houve queda de -1,2%. No 1º trimestre, os setores de alta intensidade em energia elétrica estagnaram, enquanto os de baixa intensidade cresceram 1,6%.

A produção de veículos, embora tenha registrado alta de 1,9% em maio frente a abril, caiu 18,2% ante maio/13 e 13,3% no acumulado do ano. As vendas caíram 6,4% ante abril e 11,3% na comparação com maio/13. A GM vai suspender a produção de quatro fábricas, em julho, e assim como outras montadoras e indústrias eletroeletrônicas vão dar férias coletivas. Boa parte dos problemas vem da retração das exportações para a Argentina.

A produção de petróleo na área do pré-sal, em maio, representou 22% do total. O consumo de gás natural aumentou em abril, ante março, sendo +27,3% no consumo residencial, + 7,2% no comercial e apenas 0,8% na indústria. Em São Paulo, após a queda de 6,5% em dezembro/13, a indústria registrou um crescimento de 3,7% de janeiro a abril. No Rio de Janeiro, houve queda de 4,2%, no Rio Grande do Sul de 3%, em Minas Gerais de 1,8%.

O nível nacional da atividade industrial, no 1º quadrimestre, teve queda de 1,8%, medida pela redução de 1,8% nas horas trabalhadas. As medidas do Governo para desoneração da folha de pagamentos tiveram efeito nulo ou negligível.

Custo Brasil – Impressionante o depoimento do industrial Carlos Tilkian, na Revista Veja de 4 de junho, que transferiu sua fábrica Estrela de brinquedos para a China, de onde vem importando e comercializando toda sua produção.

 

Comércio

As vendas do comércio caíram 0,4% em abril sobre março, com alta de 5% acumulada no quadrimestre. Foi o pior resultado para o mês de abril, desde 2001. Em sete das 10 atividades pesquisadas houve retração, com maiores quedas nos setores livros, jornais e revistas, equipamentos para escritório, supermercados, tecidos e vestuário, combustíveis e lubrificantes. O comércio vem perdendo força e a previsão da CNC é de crescimento de 4,5% em 2014. Ao que tudo indica, a inflação persistente e os juros altos foram os maiores responsáveis pelo fraco resultado.

O índice de confiança do empresário do comércio (Icec) teve queda de 1,4% em maio ante abril, o mais baixo nível desde 2011. O número de consumidores inadimplentes registrou aumento de 9,56% em maio sobre maio/13. Segundo a Fecomércio-SP, o endividamento das famílias ficou estável no mês de maio.

Agricultura

O clima ajudou e a produção agrícola deve bater outro recorde, com 192 milhões de toneladas de grãos, 2,2% superior à safra passada. Há expectativa de produção de trigo 36,5% acima da safra 2013. Entretanto, a safra de milho deve ser 5,4% menor. A safra de soja, praticamente encerrada, deverá alcançar 86,05 milhões de toneladas.

Em contradição à seca que assola o Ceará, a Região Sul do País sofre calamitosa chuva, que põe em estado de emergência os Estados do Paraná e Santa Catarina. A safra de café deve cair para 40,1 milhões de sacas. Também no Estado do Amazonas, a cheia atingiu 10 mil agricultores, que deverão receber anistia fiscal. De outro lado, Cordeirópolis-SP decretou estado de emergência, ante a pior estiagem, desde 2000.

 

Mercado de Trabalho

Em abril, o número de empregados na indústria diminuiu 0,3% ante março e 2,2% em relação a abril/13. É o 31º resultado negativo consecutivo. A taxa de desemprego no País ficou em 7,1% no 1º trimestre, conforme a Pnad Contínua, e em 5%, segundo a PME. Foram criados 1,77 milhão de empregos, alta de 2% sobre o mesmo período de 2013.

O número de trabalhadores que não querem trabalhar vem aumentando. Entre o 2º semestre de 2012 e o de 2013, 1,2 milhão de brasileiros desistiram de procurar emprego.

Segundo o DIEESE, a taxa de desemprego passou de 11% em março para 11,1% em abril. A renda média real do trabalhador aumentou 0,7%.

Setor Financeiro

A Lei nº 12.979, de 27 de maio de 2014, autorizou a União a repassar R$ 24 bilhões ao BNDES. Até abril, o BNDES já desembolsou R$ 58,8 bilhões em empréstimos, 8,2% superior a igual período de 2013, o que significa um ritmo menor de expansão.

O volume de empréstimos imobiliários registrou aumento de 10% em abril em relação a abril/13 (ABECIP). A inadimplência entre as famílias que ganham até R$ 1,6 mil está em 17,5%. O percentual de famílias endividadas aumentou de 62,3% em abril para 62,7% em maio.

Importante – Três votos no STJ foram contra o Banco do Brasil, para corrigir os rendimentos da caderneta de poupança, em decorrência do congelamento determinado pelo Plano Verão, de 1989. A nosso ver, umadecisão totalmente equivocada.

Inflação

Há dois alimentadores visíveis da inflação: o Governo, com sua desorientada política de déficit fiscal e o Banco Central, com sua inexplicável política de juros altos. Vitória para o Banco Central: conseguiu derrubar o PIB.

O ex-Presidente Lula aderiu à tese do Ministro Mantega e, durante uma hora de palestra, culpou a escassez de crédito pelo baixo nível de atividades.

O fraco crescimento do consumo e dos investimentos desacelerou a inflação e segurou a expansão do IPCA/IBGE em 0,46% em maio, ante 0,67% em abril, com destaque para a baixa de 21,1% nas passagens aéreas e de 5,25% nas tarifas de água. Em 12 meses, o IPCA está em 6,37%. Excepcional foi a queda do IGP-DI/FGV, que registrou deflação (queda) de 0,45%, e do IGP-M/FGV (-0,13%). As tarifas dos Correios terão reajuste de 7,85%, o primeiro desde junho de 2012.

O preço da cesta básica, segundo o DIEESE, aumentou em 15 de 18 capitais, com destaques para Fortaleza (+5,4%), Recife (+4,9%), ao lado de quedas em Campo Grande (-2,1%), Florianópolis (-0,38%) e Brasília (-0,1%).

No mercado internacional, caiu o preço do minério de ferro e subiu o do alumínio, cobre e níquel. Segundo a FAO, houve declínio nos preços dos alimentos.

Setor Público

As contas do setor público registraram um superávit fiscal de R$16,89 bilhões em abril, acumulando R$ 42,52 bilhões no quadrimestre, uma melhora de 3,6% sobre o mesmo período do ano passado.

O Banco do Brasil, a Caixa Econômica e o BNDES vão financiar até 70% dos projetos federais das novas concessões de rodovias.

É evidente que a chave para a recuperação da economia brasileira repousa na aceleração dos investimentos em infraestrutura, conforme destacado em estudo recente do economista Carlos Antonio Rocca, professor da USP e diretor do CEMEC/IBMEC. A dificuldade está em reduzir os custos para estimular a poupança, que caiu de 10,5% em 2010 para 7,9% em 2013.

Das 149 obras de esgoto compreendidas no PAC, nos maiores municípios, 87 estão paralisadas (Trata Brasil).

Setor Externo

A balança comercial brasileira acumula um déficit de US$ 4,8 bilhões nos cinco primeiros meses do ano, resultado de US$ 90,1 bilhões de exportações e US$ 94,9 milhões de importações. O petróleo continua sendo o item de maior peso na balança comercial, assim como a queda de 25,8% nas exportações de veículos, devido à retração da Argentina.

Continua forte a entrada de dólares no mercado financeiro, atraídos pelos altos rendimentos dos juros e pelo hedge proporcionado pelos swaps cambiais do Banco Central. Inexplicável.

Em junho, o Banco do Brasil captou US$ 2,5 bilhões no mercado externo. Também inexplicável. Outro nonsense foi a criação recente de um Banco do BRICS, com sede em Xangai, e participação de capital de US$ 28 bilhões do Brasil.

Na esfera internacional, destacase o recuo de 1% do PIB norteamericano, no 1º trimestre. Em contrapartida, o desemprego atingiu o menor índice dos últimos cinco anos e os pedidos de auxílio-desemprego atingiram o menor nível em sete anos. Também cresceram 3% os gastos de consumo e foram criados 217 mil novos empregos, a maior expansão desde 2000.

Na Zona do Euro, a inflação anual caiu a 0,5% em maio, levando o Banco Central Europeu à adoção de um programa de forte expansão monetária, com redução dos juros. A economia da Inglaterra cresceu 0,9% até maio, puxada pela indústria.

A China continua mantendo padrão de crescimento médio de 7%, dando alento á sustentação da economia mundial. Mas a crise do Iraque poderá ter sensível repercussão no suprimento de petróleo à Europa. Aliás, a situação política também está sob forte onda de violência na Ucrânia, na Turquia, na Síria, no Afeganistão, na Nigéria, no Mali, no Sudão, na República Central Africana, na Eritreia e na Tailândia. E no Brasil?

Tags: análise, economia, Ex-ministro, fazenda, galveas

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