Jornal do Brasil

Segunda-feira, 22 de Setembro de 2014

Economia

Crise de 2008: seis anos depois, socorro aos bancos fica na berlinda

Especialistas brasileiros comentam artigo de Paul Krugman, que critica estratégia americana

Jornal do BrasilPamela Mascarenhas

Paul Krugman, professor de Princeton e prêmio Nobel de 2008, em recente artigo publicado no New York Times, fez críticas duras à política econômica adotada nos Estados Unidos para solucionar a crise de 2008. Os bancos foram logo socorridos, na promessa de que a saúde deles garantiria a do país também, mas só agora a recuperação chega. Para Krugman, se a ajuda tivesse sido direcionada às famílias endividadas e não aos bancos, a solução do país já teria surgido há tempo. Economistas brasileiros repercutem o conteúdo do artigo e apontam as consequências e a importância tanto da ajuda aos bancos quanto de um suposto socorro aos americanos endividados.

No artigo intitulado, na tradução, Primavera para os banqueiros, Krugman alerta que "desde que começou a crise financeira, a política econômica tem sido um fracasso lamentável". O emprego demorou mais de seis anos para voltar aos níveis anteriores à crise - anos, inclusive, acrescenta, que deveriam ter contado com milhões de novos postos de trabalho apenas para seguir o ritmo de crescimento da população -, e o desemprego de longa duração continua quatro vezes maior que em 2007. 

Em meio aos fatos que comprovam a afirmação de Krugman, o Nobel de Economia destaca a mensagem do livro publicado por Timothy Geithner, secretário do Tesouro durante quatro dos seis anos de recuperação, "Stress Test" (Prova de Resistência). "[Ele] basicamente pensa que fez um trabalho extraordinário", alfineta Krugman. O erro, na opinião do economista, é claro: a influência do slogan "Salvar aos banqueiros é salvar o mundo" na política econômica da Europa e dos Estados Unidos, com a promessa de oferecer a prosperidade em seguida.

O problema, alerta Krugman, é que a tal prosperidade não veio e o que poderia solucionar o problema foi ignorado. "Graças ao restabelecimento do sistema financeiro, o resgate de Wall Street não terminou por custar um montão de dinheiro dos contribuintes. Os bancos puderam devolver os empréstimos e o governo conseguiu vender proveitosamente sua participação no capital. Mas onde está a recuperação da economia real? Onde estão os postos de trabalho? Pelo visto, salvar Wall Street não foi o suficiente nem de longe. Por que?", questiona.

A resposta é que Obama poderia ter aliviado a dívida das famílias, herança da bolha imobiliária, que tem sido um grande obstáculo para a economia, mas uma persistente oposição de Geithner ao cancelamento da dívida hipotecária teria sido um obstáculo. Geithner, inclusive, fala em seu livro que a recuperação das famílias não poderia ter feito muito pela economia. "No final, a história da política econômica, desde 2008, tem sido de um peso e duas medidas. A irresponsabilidade dos banqueiros não foi considerada, só a das famílias". Não ajudar as famílias não só foi injusto, como também foi uma má decisão econômica, critica.

João Sicsu, professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, reforça que, no momento da explosão da crise, a política correta deveria ter sido socorrer as famílias para que pagassem suas dívidas junto aos bancos, o que valeria para outras dívidas também. "O resultado social dessa política [de privilegiar o socorro aos  bancos] é que os grandes não foram afetados negativamente, foram compensados pela política de socorro e as famílias perderam suas casas, ficaram desempregadas, inadimplentes."

Caso o socorro inicial fosse às famílias, com uma redução na taxa de juros da dívida ou subsídio para quitação deles, por exemplo, acredita Sicsu, a recessão não teria sido uma realidade. O movimento contrário acabou revelando seu "efeito multiplicador negativo", como explica o professor. Primeiro gera a inadimplência, em seguida os bancos cortam o crédito, a economia fica paralisada e vem o desemprego porque não tem produção nem consumo. 

"É uma questão de opção política, ideológica, na decisão de formulação de política econômica, de manter os bancos saudáveis e dizer para as famílias se elas deixaram de pagar uma dívida o 'problema é delas', pois o empréstimo é um risco que elas assumiram. Isso faz parte da ideia de que a sociedade é bastante competitiva e corre riscos, o que vale para as famílias, mas não se aplica aos grandes, que têm que ser protegidos porque são necessários", esclarece Sicsu. 

O adoção do socorro aos bancos, no entanto, tem a sua razão, pondera, já que quando eles quebram toda a economia quebra junto. A ideia de ajudar as famílias, continua o professor, agride muito a visão competitiva de liberalismo econômico, que guiou as decisões tomadas não só nos Estados Unidos como também na Europa: "Diante das dificuldades, o socorro foi aos bancos, não aos trabalhadores." Nessa perspectiva, se um trabalhador se endivida, "o problema é dele", partindo de uma visão darwinista de seleção dos mais fracos e dos mais fortes no mercado financeiro. 

Sicsu destacou que o Brasil, por exemplo, adotou medidas acertadas após a crise. O Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal ampliaram o crédito e reduziram a taxa de juros, o BNDES ampliou o crédito para investimentos, houve ampliação do Bolsa Família, no seu valor e na cobertura e o o salário mínimo foi aumentado. O resultado é que "tivemos uma recessão basicamente nula, de 0,3%", enquanto a de países como Chile, México e até a Rússia caíram entre 5% e 6%, e alguns países tiveram desemprego de dois dígitos.

"Você tem que fazer um movimento contra cíclico, com socorro ao consumo, ao crédito, ao investimento, ao salário mínimo, previdência social. Aqui no Brasil, tivemos uma saída que deveria servir de exemplo para o mundo. O crescimento mais baixo que o país registrou nos anos seguintes foi por outros fatores", comentou Sicsu.

Uma recuperação dos Estados Unidos entre 4% e 6%, no entanto, não deve ser aguardada, devido ao tamanho da economia do país, dono de 5% do PIB do planeta. "Uma economia do porte da americana não tem espaço para crescer tanto."

Samy Dana, professor de Economia na Fundação Getúlio Vargas São Paulo (FGV-SP), por sua vez, discorda da análise de Krugman. Ele ressalta que não vê uma forma de endereçar o problema. "Se você tem problemas no sistema financeiro, você causa prejuízos enormes a economia. Eu não acho que o governo tem uma preocupação de manter o sistema financeiro de forma estável. Acho que a ação do governo americano foi acertada do ponto de vista de não criar um caos na economia."

Vander Lucas, professor do Departamento de Economia da UnB, também ressalta a importância do socorro aos bancos para garantir a saúde da economia. Ele destaca que todos os governos acabam socorrendo suas instituições financeiras porque, se deixam eles quebrarem, os impactos sociais são muito mais fortes. 

"Acontece que a gente nunca viu o setor financeiro quebrar, porque a gente sempre viu o setor financeiro ser socorrido. Os bancos europeus foram socorridos. No caso específico dos Estados Unidos, os bancos em um ano começaram a apresentar lucros e o governo americano agora que dá sinais que sai da crise. O setor financeiro tem um valor agregado. Socorrer as famílias, não sei se isso dinamizaria a família americana", acrescentou Vander Lucas.

Claudio Lucindaprofessor do Departamento de Economia da Universidade de São Paulo, destaca que não se pode perder de vista que os bancos tem uma posição importante no funcionamento da economia e que a quebra do sistema bancário tem repercussões muito fortes. Isso não significa, porém, ressalta, que os bancos têm carta branca para receber ajuda do governo.

"Sempre existe um julgamento do governo se a instituição tem ou não que ser salva. Para o setor privado como um todo, é mais saudável o sistema bancário funcionando a contento. Não sei se uma ajuda às famílias seria suficiente para substituir o auxílio aos bancos, porque tem uma catedral de derivativos montada em cima dessas hipotecas. Mas mal, de fato, não ia fazer", finalizou Cláudio Lucinda

Tags: crise, economia, neoliberalismo, Nobel, paul krugman

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