Jornal do Brasil

Terça-feira, 30 de Setembro de 2014

Economia

Síntese da conjuntura - Ernane Galvêas analisa os perigos da inflação

Jornal do BrasilErnane Galvêas

Já está provado, ao longo de muitos anos de experiência, que a inflação não tem qualquer influência na promoção do desenvolvimento. Pelo contrário, tem muita influência negativa. De outro lado, também a deflação não tem qualquer mérito.

Entre as muitas desvantagens da inflação, citam-se, basicamente, a influência negativa sobre os planos de investimento, o desestímulo à poupança monetária e consequente preferência por haveres especulativos, além da redução do poder de compra dos salários, que induz às greves e aos preocupantes conflitos político-sociais.

A atual inflação da ordem de 6% anuais não chega a ser uma tragédia, mas causa sérias preocupações, em função de seus possíveis desdobramentos, entre os quais se destaca o controle arbitrário dos preços e da taxa de câmbio, como vem fazendo o Governo, com pesados danos para a Petrobras, a Eletrobras, o sistema de transportes urbanos e a indústria, de um modo geral.

POLÍTICA CONTRA A INFLAÇÃO

Vamos supor, para simplificar, que existam dois tipos de inflação: de demanda e de oferta. A inflação de demanda ocorre quando a procura de bens de consumo (propensão a consumir) e/ou de investimento (propensão a investir) excede, durante algum tempo, a oferta de bens e serviços. Tanto pode vir do setor privado como do setor público, de um brusco aumento de salários ou uma

forte expansão do crédito. A inflação de oferta geralmente ocorre quando há uma queda brusca na produção agrícola, devido a fatores climáticos ou um choque externo como, por exemplo, a alta dos preços do petróleo e derivados.

A inflação atual no Brasil tem as duas características.

Contra os choques de oferta, a melhor solução é fomentar o aumento da produção ou ampliar as importações, pela redução das tarifas ou valorização da taxa de câmbio.

Contra a inflação de demanda, a melhor saída é pela via dos juros altos, que tornam o crédito mais caro e restringem o consumo e os investimentos, contraindo a demanda agregada.

No Brasil, há mais de 10 anos a inflação tem se situado em torno de 6%, onde permanece inalterada seja diante dos juros baixos (SELIC de 7%) ou dos juros altos (SELIC de 11,0%). É lógico que há evidente inflação reprimida, desde que o Governo impediu os reajustes dos preços da gasolina, da energia elétrica e dos transportes urbanos. Não fora isso, calcula-se que a inflação estaria em mais de 8%.

O que discutimos aqui é saber se o Banco Central, elevando a taxa SELIC, está ajudando ou não a controlar a inflação. A nosso ver, não está, como procuramos demonstrar em artigos anteriores. O Banco Central, na última reunião do COPOM, manteve a SELIC em 11%. Prevaleceu o bom senso.

ATIVIDADES ECONÔMICAS

Após haver avançado 0,7% nos últimos três meses de 2013, o PIB nacional voltou a arrefecer, com crescimento de apenas 0,2% no 1º trimestre deste ano. O consumo das famílias ficou estagnado entre janeiro e março.

Segundo levantamento da FIESP, um terço das indústrias paulistas não pretende investir em 2014. O índice IBC-Br do Banco Central indica que o PIB nacional recuou 0,11% em março ante fevereiro, e cresceu apenas 0,29% no primeiro trimestre.

Segundo as previsões da CNC, o PIB 2014 deverá crescer apenas 1,6%, face ao ritmo lento da indústria (1,3%), da agricultura (1,0%) e do setor serviços (1,8%). A previsão da expansão do comércio é de 4,9% com tendência de queda.

Indústria

Após o forte crescimento de 2010 (10,2%), a indústria nacional vem experimentando uma fase de baixo crescimento desde 2011. Em 2013, cresceu 2,3%, mas no 1º trimestredeste ano não foi além de 0,4%, com queda de 9,5% do setor máquinas e equipamentos, segundo a Abimaq. Em abril, caíram a produção e o nível de emprego, com destaque para a metalurgia, que desceu de 48,8 pontos em março para 47,3. A indústriaautomobilística aumentou a produção em abril (+1,6%), mas continuou com o resultado negativo de -12% no acumulado do ano. O Instituto Aço Brasil (IABr) informa que a produção do setor em abril caiu 5,2% e foi a menor desde 2010. A indústria da construção civil também registrou queda de 9,1% nas vendas de abril, acumulando menos 2% no quadrimestre. No 1º trimestre, houve cancelamento de vendas da ordem de 45%.

Além da retração dos negócios, a indústria sofre a falta de gás, face à maior demanda das usinas termoelétricas. O pessimismo gerado pelo clima de greves e manifestações de rua fez cair o índice de confiança da indústria (ICI) de 95,6 em abril, para 90,7 em maio. Também caiu o índice de confiança do consumidor. É grave a situação da indústria automobilística, com o recall de 238 mil carros da GM e férias coletivas da MAN e outras.

Comércio

Em março, o volume de vendas no varejo caiu 0,5% em relação a fevereiro, acumulando no ano crescimento de 4,5%, o pior desempenho desde 2003. A queda do mês foi puxada por materiais de escritório, informática e comunicações (-4,5%) e combustíveis e lubrificantes (-1,5%). O varejo ampliado caiu -1,2%, com destaque para o comércio automotivo (-0,6%) e materiais de construção (-3,1%). Nos últimos três anos, os estoques estão crescendo a uma taxa maior do que as vendas.

A receita de serviços sofreu queda real de 2,3% em março, ante março/13. Em valores nominais, o setor cresceu 8,7% no 1º trimestre. As vendas dos supermercados subiram 10,29% em abril sobre abril/13 e 2,82% ante março, devido ao impacto da Páscoa. No acumulado do quadrimestre houve avanço de 2,05% e no ano de 8,11%. Regionalmente, destacam-se Acre (+12,1%), Maranhão (+10,1%) e Tocantins (+10,0%).

Segundo a CNC, os feriados da Copa do Mundo devem diminuir as vendas do comércio em cerca de R$1,5 bilhão. A intenção de consumo das famílias, segundo a CNC, teve queda de 2,3% em maio.

Agricultura

Embora se diga que São Paulo sofre a pior seca dos últimos 45 anos, sabe-se que o Estado experimentou secas piores em 1925 e 1964. Enquanto isso, na Região Norte, Amazonas e Pará estão alagados. No Ceará, 96% das cidades seguem em situação de emergência, devido à seca.

A maior perda da agricultura neste ano deverá ocorrer na produção de milho, cuja safra deve chegar a 73 milhões de toneladas, frente a 80 milhões da safra passada. A safra de café está estimada em 44,6 milhões de sacas, 3,8 milhões menor que a anterior. A produção em Minas deverá atingir 23 milhões de sacas, a do Espírito Santo 12,2 milhões e de São Paulo 4,2 milhões.

O Governo aprovou o Plano Agrícola e Pecuário 2014/2015, com recursos de R$ 156,1 bilhões (+14,7%) e juros de 6,5%, ante 5,5% da safra passada.

Mercado de Trabalho

A evolução do emprego no Brasil vem caindo desde 2010, com o saldo líquido de contratações de 196,9 mil em abril de 2013 e 105,4 mil em abril deste ano. As maiores contratações ocorreram no Setor Serviços (68,9 mil), no comércio (18,6 mil), na agricultura (14 mil) e na construção civil (4,3 mil). Na indústria de transformação houve demissão de 3,4 mil. No conjunto, as admissões atingiram 1.862 mil e os desligamentos 1.757 mil. No acumulado do ano, o saldo líquido das contratações chegou a 885 mil. De janeiro a abril, o emprego ficou estagnado, com variação de apenas 0,1% frente ao mesmo período de 2013.

Nas seis principais regiões do País, a taxa de desemprego caiu 4,9%, segundo o IBGE. Pelos dados do DIEESE, a taxa de desemprego subiu de 11,0% em março para 11,1% em abril. Em abril, em relação a abril/13, o pessoal ocupado na indústria caiu -1,9% e na construção -0,9%, tendo subido +1,1% no comércio e 3,5% em serviços.

Setor Financeiro

O total das operações de crédito no sistema financeiro registrou alta de 13,4% em 12 meses (até abril), sendo +6,2% no sistema privado (recursos livres) e +23,2% nos bancos oficiais (recursos direcionados). O Banco Central manteve a taxa SELIC em 11%, o que significa a continuidade da contradição: o BC tenta puxar a inflação para baixo e o Governo puxa para cima.

Um artigo incluído na MP nº627, transformada na lei 12.973/2014, sancionada pela Presidente Dilma, concedeu um benefício tributário que dispensa empresas falidas e bancos em liquidação de recolher o imposto de renda sobre ganhos de capital quando o dinheiro da venda de bens for usado para quitar dívidas com a União.

A medida beneficia principalmente os Bancos Nacional e Econômico, cuja dívida com a União montam a R$ 46,0 bilhões.

Na guerra para revisão dos rendimentos da poupança, face aos Planos Econômicos do Governo nos anos 1980 e 1990, o STJ já deu parecer favorável aos poupadores, mas o STF adiou sua decisão para julho, a fim de rever os cálculos dos prejuízos que advirão para os bancos, principalmente para o Banco do Brasil e a Caixa Econômica.

Inflação

A inflação caiu em maio, como indica a prévia do índice IGP-M/FGV que revelou deflação de 0,04%, influenciada pela queda dos preços no atacado. O IPC-15/IBGE também registrou desaceleração, com alta de 0,58% em maio contra 0,78% em abril. Igualmente, o índice IPC-FIPE subiu 0,42% na 2ª prévia de maio, contra 0,45% na anterior, apesar das altas da batata (+14,12%), do leite longa vida (+3,96%), do pão francês (+1,45%) e da refeição fora de casa (+0,95%). O IGP- 10/FGV subiu apenas 1,3% após alta de 1,19% em abril.

A maior produção de etanol face à nova safra de cana-de-açúcar resultou na redução dos preços nas usinas de 16%, nos últimos 30 dias. O preço do minério de ferro também está em queda.

Setor Externo

A balança comercial registra déficit de US$ 5,6 bilhões no 1º quadrimestre, resultado de US$ 69,3 bilhões de exportações e US$ 74,9 bilhões de importações. A Conta de Serviços e de Rendas apresentou déficit de US$ 14,8 bilhões e US$ 13,6 bilhões, respectivamente, com o que o déficit em C/Correntes subiu a US$33,5 bilhões. O ingresso de capitais somou US$38,3 bilhões.

A dívida externa bruta chegou a US$ 514,6 bilhões, US$ 10 bilhões acima de março e US$ 32 bilhões superior a dezembro/13. As reservas cambiais somaram US$ 366,7 bilhões em abril.

No cenário internacional, a OECD estima uma expansão do PIB mundial de 3,4%, sendo +2,6% nos Estados Unidos, +1,2% na Zona do Euro e no Japão e +7,4% na China. A economia americana continua avançando, com crescimento de 13,2% na construção habitacional em abril. Em contrapartida, o PIB da Zona do Euro cresceu apenas 0,2% no 1º trimestre, com destaque para o crescimento de 0,8% da Alemanha. Na Ásia, a Rússia acertou a venda de US$ 400 bilhões de gás para a China, cuja indústria apresentou ligeira melhora. O PIB do Japão cresceu 1,5% no 1º trimestre.

Tags: confederação, economia, Ex-ministro, galveas, nacional

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